Jafé, filho de Noé, é um dos três patriarcas da humanidade pós-diluviana, cuja descendência, segundo o livro de Gênesis, se espalhou para formar muitas nações. Como um dos oito sobreviventes da Arca, ele testemunhou tanto o juízo de Deus quanto o recomeço do mundo.

Apesar de sua menção ser breve, seu ato de honra para com seu pai e a bênção profética que recebeu o tornam uma figura de profundo interesse teológico, especialmente em relação à expansão dos povos e à futura inclusão dos gentios na aliança de Deus.

Neste artigo, apresentamos a vida deste importante patriarca, sua família e sua relevância para a história da redenção.

Ouça nosso podcast sobre este personagem bíblico.

Nascimento e família de Jafé

A vida de Jafé está registrada em Gênesis, capítulos 5 a 10. Ele nasceu no período pré-diluviano e foi salvo da grande inundação junto com seu pai Noé, sua mãe, seus dois irmãos e suas respectivas esposas.

Após o Dilúvio, ele se tornou um dos progenitores da nova humanidade. A Bíblia não especifica sua idade ou o total de anos que viveu, mas o foca como o pai de uma vasta descendência que formaria as “nações marítimas” [1]

Sua história é um testemunho da fidelidade de Deus em recomeçar a criação através de uma família.

E abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra.

Gênesis 9:1 (ACF)
Ilustração de Jafé, filho de Noé
Ilustração de Jafé, filho de Noé

Noé, pai

Noé foi o patriarca justo escolhido por Deus para construir a arca e preservar a vida na Terra. Ele foi a figura de autoridade que Jafé, junto com Sem, honrou, recebendo em troca uma bênção que moldaria o destino de seus descendentes.

Sem, irmão

Sem, um dos três filhos de Noé que sobreviveram ao Grande Dilúvio, destacou-se por sua piedade e honra. Após o dilúvio, ele agiu com respeito exemplar para cobrir a nudez de seu pai, um ato que o distinguiu.

Como resultado, ele recebeu a bênção profética principal. A declaração de Noé, “Bendito seja o SENHOR, Deus de Sem” (Gênesis 9:26), estabeleceu sua descendência como a linhagem pactual, através da qual o relacionamento especial de Deus com a humanidade continuaria.

Este legado cumpriu-se na história, pois Sem é o ancestral dos povos semitas, de onde surgiram figuras como Abraão e o Rei Davi e, finalmente, nasceu o Messias, realizando a promessa divina de redenção para o mundo.

Cam, irmão

Cam, um dos três filhos de Noé que repovoaram a Terra, é lembrado por um ato de desrespeito que quebrou a honra familiar.

Sua zombaria diante da vulnerabilidade de seu pai resultou em uma maldição profética que recaiu não sobre ele, mas sobre seu filho, Canaã, prefigurando os futuros conflitos pela Terra Prometida.

Apesar desta mancha em sua história, Cam tornou-se o ancestral de civilizações poderosas e influentes, incluindo os egípcios, os etíopes e, de forma crucial para a história de Israel, os cananeus.

Ilustração de Cam, filho de Noé
Ilustração de Cam, filho de Noé

Gômer, filho

Gômer é o ancestral dos cimérios, um povo antigo que habitava as regiões ao norte do Mar Negro. Seus descendentes, como Asquenaz, são associados a povos da Europa e da Anatólia. Gômer também é mencionado pelo profeta Ezequiel como parte de uma coalizão de nações do norte.

Javã, filho

Javã é o nome hebraico para a Grécia. Ele é o ancestral dos povos gregos e jônicos que se estabeleceram nas costas e ilhas do Mar Mediterrâneo.

Seus filhos, como Társis e Quitim, são associados a regiões como a Espanha e o Chipre. A linhagem de Javã representa a futura ascensão da civilização helênica, que influenciaria profundamente o mundo do Novo Testamento.

Magogue, filho

Magogue é o patriarca de um povo cita. Historiadores antigos como Josefo, apesar de ser algo discutido, o considera o principal ancestral dos citas, guerreiros nômades da Ásia Central.

O legado de Magogue é primariamente profético, pois a terra de Magogue é descrita em Ezequiel 38 como o lugar de origem de Gogue, o líder que atacará Israel nos tempos do fim.

Ilustração de Magogue, descendente de Jafé
Ilustração de Magogue, descendente de Jafé

Tubal, filho

Tubal é o patriarca de um povo da Anatólia (atual Turquia). Na Bíblia, ele é quase sempre mencionado junto com seu irmão Meseque. O profeta Ezequiel o descreve como um líder de uma nação guerreira que negociava bronze e escravos com Tiro e que se aliaria a Gogue na batalha do fim dos tempos.

Meseque, filho

Meseque é o ancestral de um povo que se estabeleceu na região da Anatólia. Assim como seu irmão Tubal, com quem é constantemente associado nas Escrituras, Meseque é retratado por Ezequiel como o líder de uma tribo guerreira.

Eles eram conhecidos por seu comércio de escravos e artefatos de bronze e também são listados como parte da coalizão de Gogue.

Madai, filho

Madai é o patriarca de um povo iraniano antigo que se estabeleceu na região a sudoeste do Mar Cáspio.

Os medos se tornaram uma grande potência e formaram, em aliança com os persas, o Império Medo-Persa, que conquistou a Babilônia e desempenhou um papel central nos livros de Daniel, Esdras e Ester.

Ilustração de Madai, filho de Jafé
Ilustração de Madai, filho de Jafé

Tiras, filho

Tiras é tradicionalmente associado aos trácios, povo que habitava a região dos Bálcãs. Outros o conectam aos “Povos do Mar” ou aos tirsenos (etruscos), indicando sua descendência como um povo marítimo do Mediterrâneo.

História de Jafé

A história de Jafé é definida por um único, mas crucial evento que demonstrou seu caráter e resultou em uma bênção profética.

O ato de honra na tenda

Após o Dilúvio, Noé embriagou-se e ficou nu em sua tenda. Enquanto seu irmão Cam desonrou o pai, Jafé uniu-se a Sem em um ato de piedade e respeito. Gênesis 9:23 relata que “tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai”.

A bênção profética

Por sua atitude honrosa, Noé abençoou Jafé com uma profecia que continha um jogo de palavras com seu nome:

“Alargue Deus a Jafé, e habite ele nas tendas de Sem…”

Gênesis 9:27

Esta bênção tem duas partes cruciais:

  1. “Alargue Deus a Jafé”: Uma profecia de expansão territorial e prosperidade para seus descendentes.
  2. “e habite ele nas tendas de Sem”: Interpretado teologicamente como uma promessa de que os descendentes de Jafé (os gentios) um dia compartilhariam das bênçãos espirituais e da aliança de Deus, que seriam transmitidas através da linhagem de Sem [3].
Sem, Cam e Jafé, de James Tissot , c. 1900. Sem está à esquerda, com uma cor de pele semelhante a outras figuras bíblicas pintadas por Tissot.
Sem, Cam e Jafé, de James Tissot , c. 1900. Sem está à esquerda, com uma cor de pele semelhante a outras figuras bíblicas pintadas por Tissot.

Novo Testamento

Jafé não é mencionado diretamente no Novo Testamento, mas a promessa de que ele “habitaria nas tendas de Sem” é vista como cumprida na formação da Igreja, onde os gentios (descendentes de Jafé) são enxertados na oliveira de Israel (descendentes de Sem) através da fé em Jesus Cristo [4].

Relatos extrabíblicos de Jafé

Textos judaicos e outras tradições fornecem detalhes adicionais sobre a vida de Jafé e sua descendência.

Literatura rabínica

O Midrash e o Talmude frequentemente elogiam Jafé, junto com Sem, por seu ato de respeito filial.

A literatura rabínica vê a beleza e a cultura (associadas aos gregos, descendentes de Javã, filho de Jafé) como um dom que, idealmente, deveria “habitar nas tendas” da espiritualidade e da Torá de Sem [5].

O Livro dos Jubileus

O Livro dos Jubileus relata que, na divisão da Terra, ele e seus filhos receberam as terras frias do norte. O texto também nomeia sua esposa como Adataneses [6].

Tradução alemã do Livro dos Jubileus, 1856
Tradução alemã do Livro dos Jubileus, 1856

Islamismo

Apesar de ser uma figura importante, Jafé, do árabe Yāfith, não é mencionado pelo nome no Alcorão. Sua existência, no entanto, é confirmada indiretamente nas passagens que narram a história de Noé (Nūḥ) e a salvação de seus filhos na arca [7].

É na exegese islâmica (tafsir) e nos escritos de historiadores muçulmanos que a identidade e o legado dele são detalhados, geralmente em harmonia com a tradição bíblica [7].

O patriarca das nações do Norte e do Leste

Na tradição islâmica, Yāfith é amplamente considerado o ancestral dos povos do norte e do leste.

Ele é quase sempre identificado como o patriarca das tribos de Gogue e Magogue (Yājūj wa Mājūj), figuras centrais na escatologia islâmica.

Além deles, os historiadores muçulmanos tradicionalmente traçam a descendência dos turcos, cazares, eslavos e, em algumas narrativas, dos chineses e mongóis a partir dele, vendo-o como o pai dos povos que se espalharam pela Ásia Central e Europa Oriental.

Representação otomana da Arca de Noé e do dilúvio em Zubdat-al Tawarikh , 1583
Representação otomana da Arca de Noé e do dilúvio em Zubdat-al Tawarikh , 1583

Tradições etnográficas

Diferentes historiadores islâmicos propuseram genealogias detalhadas para os descendentes de Yāfith. O historiador Abū’l-Ghāzī, em seu tratado do século XVII, narra que, após o dilúvio, Cam foi para a África, Sem para o Irã, e Jafé se estabeleceu nas margens dos rios Itil (Volga) e Yaik (Ural).

Segundo Abū’l-Ghāzī, Jafé teve oito filhos, incluindo Turk, Khazar, Saqlab (Eslavo) e Chin (Chinês), e nomeou seu primogênito, Turk, como seu sucessor.

Uma tradição diferente é registrada pelo escritor muçulmano chinês do século XVIII, Liu Zhi. Em sua visão, Jafé herdou a China (a porção oriental da Terra), enquanto Sem herdou a Arábia (a porção central) e Cam herdou a Europa (a porção ocidental).

Algumas tradições islâmicas também narram que 36 das línguas do mundo podem ser rastreadas até Yāfith e seus descendentes.

Legado de Jafé

O nome de Jafé tornou-se, na história, sinônimo de expansão e da ancestralidade dos povos europeus. Teologicamente, seu legado mais importante é a promessa de que suas descendentes seriam incluídas na aliança salvífica de Deus, um tema central do Novo Testamento.

Pai das nações indo-europeias

Tradicionalmente, a genealogia de Jafé em Gênesis 10 tem sido interpretada como a origem dos povos indo-europeus.

Seus filhos e netos dão nomes a grupos que se estabeleceram na Europa e na Ásia Menor, como os gregos (Javã), os citas (Magogue) e os medos (Madai). Por séculos, o termo “jafético” foi usado para descrever esses povos [2].

Ele desempenhou um papel fundamental na forma como os povos da Europa entenderam suas próprias origens por mais de mil anos.

A ideia de que ele era o patriarca ancestral do continente tornou-se um pilar do pensamento medieval e moderno.

A fundação de uma tradição

A base para esta tradição foi solidificada no século VII pelo influente arcebispo e estudioso Isidoro de Sevilha.

Em sua famosa enciclopédia, Etymologiae, ele traçou sistematicamente a origem da maioria dos povos europeus conhecidos até Jafé.

Esta ideia se tornou tão difundida que era visualmente representada nos Mapas T e O medievais.

Nesses mapas, o mundo conhecido era dividido em três continentes, cada um povoado por um dos filhos de Noé: a Ásia por Sem, a África por Cam e, invariavelmente, a Europa por Jafé.

A dispersão dos descendentes de Sem, Cam e Jafé (mapa do Livro Histórico e Atlas de Geografia Bíblica de 1854)
A dispersão dos descendentes de Sem, Cam e Jafé (mapa do Livro Histórico e Atlas de Geografia Bíblica de 1854)

Um legado duradouro na cultura

A afirmação de Isidoro foi repetida e expandida por estudiosos em quase todas as nações europeias até o século XIX. A conexão com Jafé tornou-se tão comum que o dramaturgo William Shakespeare, em sua peça Henrique IV, Parte II, fez uma piada sobre pessoas que, para provar sua nobreza, traçavam sua linhagem até ele.

Mitos de origem nacionais

Diversas nações europeias incorporaram Jafé em seus mitos de fundação para criar uma linhagem nobre e antiga que remontava diretamente a um patriarca bíblico.

  • Na Polônia: A nobreza polonesa abraçou a ideologia do Sarmatismo, que afirmava que eles descendiam dos sármatas, um antigo povo iraniano. Para se conectarem à história bíblica, eles então traçaram a linhagem dos sármatas até Jafé.
  • Na Escócia: Até o início do século XIX, historiadores respeitados, como George Chalmers em sua aclamada obra Caledonia, publicaram histórias detalhadas que traçavam a origem do povo escocês até este filho de Noé.
  • Na Geórgia: O historiador georgiano Ivane Javakhishvili associou os filhos de Jafé, Tubal e Meseque, a antigas tribos “proto-ibéricas” da Anatólia, estabelecendo-os como os ancestrais do povo georgiano.

Jafé é um dos personagens principais no segundo ato do musical “Filhos do Éden” (Children of Eden), de Stephen Schwartz. Nesta versão, sua história é movida por seu amor proibido por Yonah, uma serva da família.

O conflito surge porque Yonah é descendente da linhagem de Caim, e a missão de Noé é purificar o mundo desta herança, proibindo-a de entrar na arca.

Desafiando seu pai, el esconde Yonah a bordo. Quando ela é descoberta, a tensão explode em um confronto que quase leva ele a matar seu irmão Sem.

A intervenção de Yonah acalma a situação, e Noé, vendo a força do amor deles, cede e permite que ela permaneça.

Após o dilúvio, Jafé e Yonah decidem buscar o Éden perdido. Noé abençoa sua jornada, entregando a ele o cajado de Adão como símbolo de um novo começo.

Uma curiosidade da produção é que, em elencos menores, o mesmo ator que interpreta Caim geralmente interpreta ele, reforçando os temas de redenção do musical.

Filhos do Éden de Stephen Schwartz
Filhos do Éden de Stephen Schwartz

Etimologia e significado de Jafé

O nome Jafé é uma transliteração do hebraico Yep̄eṯ (יֶפֶת). O nome deriva da raiz verbal pāṯāh (פָּתָה), que significa “abrir”, “expandir”, “alargar” [8].

O significado de seu nome está diretamente ligado à bênção que recebeu em Gênesis 9:27, que contém um famoso trocadilho em hebraico: “Yapt Elohim l’Yep̄eṯ” (“Alargue Deus a Jafé”). A bênção é uma confirmação e uma expansão do significado de seu próprio nome, profetizando um futuro de grande expansão para sua descendência.

Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] A HISTÓRIA DE NOÉ: A ARCA E O GRANDE DILÚVIO (Rodrigo Silva). PrimoCast.

[Vídeo] A descendência dos filhos de Noé – Evidências. Rafael de Souza Araujo.

Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre este personagem bíblico tão importante para a história da humanidade.

O que é Jafé na Bíblia?

Na Bíblia, Jafé é um dos três filhos de Noé e um dos oito sobreviventes do Dilúvio a bordo da arca. Ele é conhecido por seu ato de honra ao pai e por receber a bênção profética de “alargamento”, tornando-se o patriarca de diversos povos e nações.

Quem são os descendentes de Jafé nos dias de hoje?

Tradicionalmente, os descendentes de Jafé são identificados com os povos indo-europeus. Isso inclui a maioria das populações nativas da Europa (gregos, latinos, eslavos, germânicos, celtas), bem como povos da Anatólia, Irã e partes da Ásia Central, conforme a dispersão descrita em Gênesis 10.

Quem são os jafetitas hoje?

“Jafetitas” é o termo usado para os descendentes de Jafé. Hoje, eles são tradicionalmente associados aos povos indo-europeus. Isso abrange a maioria das nações da Europa, bem como povos da Anatólia (Turquia), do planalto iraniano e de partes da Ásia, de acordo com as genealogias bíblicas.

O que aconteceu com Jafé na Bíblia?

Na Bíblia, Jafé sobreviveu ao Dilúvio na arca. Ele se uniu a Sem para cobrir a nudez de seu pai, um ato de honra pelo qual foi abençoado com a promessa de expansão. Gênesis 10 lista seus filhos, que se tornaram ancestrais de muitas nações.

O que significa a palavra Jafé?

A palavra Jafé vem do hebraico Yep̄eṯ, que deriva da raiz pāṯāh, significando “abrir”, “alargar” ou “expandir”. Este significado está diretamente ligado à bênção profética que ele recebeu de Noé: “Alargue (yapt) Deus a Jafé” (Gênesis 9:27).

Fontes

[1]. Bíblia Sagrada, Gênesis 10:1-5.

[2]. Wenham, Gordon J. (1987). Genesis 1–15, Word Biblical Commentary.

[3]. Keil, Carl Friedrich; Delitzsch, Franz. Biblical Commentary on the Old Testament.

Demais fontes

[4]. Bíblia Sagrada, Romanos 11:17-24; Efésios 2:11-22.

[5]. Talmud Babilônico, Meguilá 9b.

[6]. O Livro dos Jubileus, Capítulos 8-9.

[7]. Al-Tabari, “História dos Profetas e Reis”, Volume 1.

[8]. Gesenius, Wilhelm. Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scriptures.

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Diego Pereira do Nascimento
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