Astarote (cidade)

Conheça a cidade de Astarote de Basã mencionada na Bíblia. Veja sua história, localização, significado do nome e referências nas Escrituras.

A cidade de Astarote, também chamada de Asterote, foi uma antiga fortaleza de Basã, região situada a leste do rio Jordão. O local aparece no Antigo Testamento ligado ao reino de Ogue e, depois, ao território atribuído à meia tribo de Manassés

Sua história combina referências bíblicas, geografia da Transjordânia e questões arqueológicas sobre a identificação do sítio.

Neste artigo apresentamos a história desta cidade cananeia mencionada na Bíblia, curiosidades sobre sua geografia e estudos arqueológicos.

História da cidade de Astarote

Astarote fazia parte de Basã, uma região conhecida no Antigo Testamento por suas terras férteis e por seus antigos habitantes. A cidade aparece entre os centros do reino de Ogue, rei de Basã, antes da conquista israelita da Transjordânia [1][2].

Ilustração da cidade de Astarote
Ilustração da cidade de Astarote

Astarote no antigo Reino de Basã

Basã ocupava uma área a leste do Jordão e abrangia parte importante da Transjordânia setentrional. Ela estava entre as cidades associadas ao reino de Ogue, juntamente com Edrei. A tradição bíblica relaciona essa região aos refains, povo antigo lembrado por sua força e estatura (Deuteronômio 3:11) [1][2].

Período de Ogue, rei de Basã

Ogue governava Basã quando os israelitas chegaram à Transjordânia. Deuteronômio 1:4 menciona Astarote e Edrei ao apresentar a derrota de Ogue. Josué 12:4 também identifica ela como uma das cidades relacionadas ao reino desse rei.

A associação é reforçada por Deuteronômio 3:1-11, que descreve a derrota de Ogue e a conquista de suas cidades. Ela aparece como parte do território conquistado, enquanto Edrei ocupa lugar mais destacado no relato da batalha.

Números 21:33-35 narra o confronto entre Israel e Ogue, seguido pela tomada de seu território. Deuteronômio 3:1-11 retoma o episódio com mais detalhes sobre as cidades e a extensão da terra conquistada. A cidade pertence ao cenário histórico desse reino, embora o texto não descreva uma batalha específica dentro da cidade.

A captura da cidade de Astartu, que se acredita ser Astarote, conforme retratado em um relevo do palácio agora em exibição no Museu Britânico
A captura da cidade de Astartu, que se acredita ser Astaroth, conforme retratado em um relevo do palácio agora em exibição no Museu Britânico

Domínio isrtaelita

Depois da conquista, a região de Basã foi distribuída entre as tribos. Josué 13:29-31 apresenta a herança da meia tribo de Manassés e inclui ela entre as cidades relacionadas a esse território. A cidade passou, assim, do domínio de Ogue para a organização territorial de Israel na Transjordânia.

Cidades levíticas

Josué 21:27 menciona uma cidade de Basã entregue aos levitas gersonitas. O nome aparece como Beesterá, geralmente entendido como uma forma contraída relacionada a Beth-Astarote. 1 Crônicas 6:71 apresenta a mesma tradição em uma lista de cidades levíticas [3].

A relação entre Astarote e Beesterá é importante porque mostra como o nome da cidade poderia aparecer em formas diferentes nas tradições textuais. Não se trata, porém, de uma narrativa sobre a cidade, mas de uma informação sobre sua função dentro da distribuição territorial israelita.

Astarote-Carnaim

Gênesis 14:5 menciona Astarote-Carnaim quando Quedorlaomer e seus aliados atacaram os refains. O nome aparece em um contexto anterior aos relatos da conquista de Basã. Alguns estudiosos relacionam Astarote-Carnaim à esta cidade, enquanto outros distinguem os dois locais [2][4].

A questão permanece aberta porque as fontes antigas não permitem reconstruir com segurança todos os deslocamentos e mudanças de importância entre a cidade e Carnaim. Por isso, neste artigo tratamos Astarote-Carnaim como um nome relacionado, mas não afirma que os dois topônimos sejam necessariamente idênticos.

Geografia de Astarote

Astarote estava situada na antiga região de Basã, ao leste do rio Jordão. Basã compreendia áreas do atual sul da Síria e do norte da Jordânia e era conhecida por seus planaltos, pastagens e terras produtivas. O território também ocupava uma posição importante entre a Síria, a Transjordânia e as regiões próximas ao mar da Galileia [1][5].

Astarote e Edrei

Astarote e Edrei aparecem juntas nas referências bíblicas ao reino de Ogue. Deuteronômio 1:4 e Josué 12:4 preservam essa associação. A proximidade entre as duas cidades ajuda a situar a cidade dentro do sistema político de Basã, enquanto Edrei está mais diretamente ligada ao relato da batalha contra Israel.

A região de Basã

Basã era uma região de planaltos e áreas férteis. O Antigo Testamento utiliza sua fama de produtividade e qualidade das pastagens em diferentes contextos.

A geografia favorecia a criação de animais e a agricultura, além de oferecer passagem entre áreas importantes da Transjordânia.

A posição da cidade também explica sua relação com outros centros antigos do norte da Transjordânia. A cidade não deve ser vista isoladamente, mas como parte de uma rede de assentamentos que controlavam terras agrícolas, rotas e áreas de passagem.

Vista da antiga região de Basã
Vista da antiga região de Basã

Astarote na Bíblia

As referências bíblicas apresentam Astarote principalmente em contextos geográficos e históricos. A cidade aparece ligada a Basã, Ogue, à conquista israelita, à distribuição territorial e às cidades levíticas. Esses textos permitem acompanhar a posição da cidade na história da Transjordânia sem atribuir à cidade acontecimentos que o texto bíblico não registra.

Menções em Gênesis

Gênesis 14:5 apresenta Astarote-Carnaim no relato da campanha de Quedorlaomer contra os refains. A passagem é a principal referência antiga ao nome composto. A localização exata continua discutida e não deve ser usada como prova isolada de que Astarote e Astarote-Carnaim eram o mesmo lugar [4].

Menções em Deuteronômio

Deuteronômio 1:4 situa a cidade entre os centros do reino de Ogue. Deuteronômio 3:1-11 retoma a derrota do rei de Basã e descreve a tomada de suas cidades. A passagem destaca a extensão do território conquistado por Israel.

Menções em Josué

Josué 12:4 lista ela entre as cidades de Ogue. Em Josué 13:12, o território do rei de Basã é novamente descrito, enquanto Josué 13:31 relaciona a cidade à herança da meia tribo de Manassés.

As passagens mostram a transição da cidade de centro de um reino conquistado para parte do território israelita.

Astarote em Josué 21

Josué 21:27 menciona Beesterá como cidade levítica de Basã. A tradição textual relaciona esse nome a Beth-Astarote, “casa de Astarote”, e a cidade aparece vinculada aos gersonitas.

O paralelo em 1 Crônicas 6:71 preserva outra forma da mesma tradição [3].

Josué e os israelitas após a conquista de Canaã
Josué e os israelitas após a conquista de Canaã

Período monárquivo: Uzia, um morador da cidade

1 Crônicas 11:44 menciona Uzia, um dos valentes de Davi, como homem de Astarote. A referência é curta, mas mostra que o nome continuou funcionando como identificação de origem pessoal. O texto não fornece informações adicionais sobre a cidade ou sobre a vida de Uzia.

Arqueologia de Astarote

A identificação arqueológica tradicional de Astarote é associada a Tell ʿAshtara, ou Tel Aštara, no Haurã, região do atual sul da Síria. O sítio fica ao sul de Damasco e próximo da área de Daraa. A localização e a continuidade do nome estão entre os principais argumentos usados para relacioná-lo à cidade bíblica [2][6].

Tel Aštara

Tell ʿAshtara é um tell, ou seja, uma elevação formada pela acumulação de diferentes fases de ocupação humana. O nome moderno preserva uma forma próxima da cidade.

Fontes arqueológicas e estudos históricos também relacionam o local a formas antigas do nome Aštartu [6].

Registros egípcios e documentos do antigo Oriente Próximo apresentam formas semelhantes do topônimo.

Estudos de nomes antigos relacionam a cidade a registros egípcios e às cartas de Amarna, embora a identificação de cada ocorrência com o sítio moderno deva ser tratada conforme o contexto e a proposta de cada pesquisador [6][7].

Relevo de Astarote no Museu Britânico
Relevo de Astaroth no Museu Britânico

Vestígios e limites da evidência

O sítio confirma a antiguidade da ocupação na região, mas a arqueologia não permite reconstruir toda a história bíblica da cidade.

Uma camada arqueológica não pode ser atribuída automaticamente a Ogue, à conquista israelita ou a outro episódio bíblico. Essas conexões exigem comparação entre estratigrafia, inscrições, cronologia e fontes históricas.

A identificação de Astarote

Tell ʿAshtara é a identificação mais conhecida para esta cidade bíblica, mas a discussão não terminou. Outros locais da região de Daraa e do Haurã foram propostos para Astarote-Carnaim ou para diferentes referências antigas. O próprio testemunho de Eusébio e Jerônimo mostra que nomes semelhantes continuavam sendo aplicados a mais de um lugar na Antiguidade tardia [4][6].

Astarote e Astarote-Carnaim

A relação entre Astarote e Astarote-Carnaim merece uma seção própria porque os dois nomes aparecem em contextos diferentes. Ela é claramente uma cidade de Basã nas referências a Ogue. Astarote-Carnaim aparece em Gênesis 14:5 como local associado aos refains. A proximidade linguística não resolve sozinha a questão geográfica.

Duas cidades ou nomes relacionados?

Algumas obras de referência tratamcomo nomes da mesma cidade ou de um mesmo centro regional. Outras propostas distinguem os locais. O testemunho de fontes antigas, especialmente o Onomasticon de Eusébio, registra mais de uma tradição de localização, o que mostra que a identificação já era debatida na Antiguidade [4].

O significado de Carnaim

O segundo elemento do nome é geralmente relacionado ao hebraico qarnayim, “dois chifres”. A expressão pode ter origem geográfica, simbólica ou cultual, mas não é necessário concluir que o nome significava literalmente uma imagem da deusa. A interpretação do topônimo permanece discutida entre os estudiosos [4][5].

Etimologia e significado de Astarote

Astarote corresponde ao hebraico עַשְׁתָּרוֹת, ʿAštārōṯ. A forma aparece como topônimo no Antigo Testamento e pertence à mesma família linguística do nome Astorete, usado para a divindade conhecida como Astarte [5][7].

O nome está relacionado à antiga tradição semítica de Astarte/Astorete. Por isso, algumas obras interpretam o nome da cidade como um topônimo ligado ao culto dessa divindade, com sentido próximo de “lugares de Astarte” ou “casas de Astarte”. A etimologia exata é discutida, e a forma plural do hebraico não deve ser convertida automaticamente em um único significado [5][7].

Perguntas frequentes

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre esta importante cidade bíblica.

Onde ficava Astarote?

A cidade ficava na antiga região de Basã, a leste do rio Jordão. Sua identificação tradicional é Tell ʿAshtara, no Haurã, no atual sul da Síria, próximo da região de Daraa.

Quem era o rei de Astarote?

A cidade fazia parte do reino de Ogue, rei de Basã. Deuteronômio 1:4 e Josué 12:4 relacionam diretamente a cidade ao território governado por ele.

Astarote aparece na Bíblia?

Sim. A cidade aparece em Gênesis 14:5 na forma Astarote-Carnaim e em Deuteronômio 1:4, Josué 9:10, Josué 12:4, Josué 13:12, Josué 13:31 e Josué 21:27. Também aparece em 1 Crônicas 6:71 e 1 Crônicas 11:44.

Astarote e Astarote-Carnaim eram a mesma cidade?

A relação entre os dois nomes é discutida. Alguns estudiosos identificam os locais, enquanto outros os distinguem. O mais seguro é apresentar Astarote-Carnaim como um topônimo relacionado à região de Basã, sem afirmar que a identidade com Astarote esteja comprovada.

Astarote ficava em Basã?

Sim. As referências a Ogue colocam ela entre as cidades de Basã. Josué 13:31 também a relaciona ao território recebido pela meia tribo de Manassés.

Astarote era uma cidade israelita?

A cidade existia antes da conquista israelita e fazia parte do reino de Ogue. Depois da conquista, passou a integrar o território atribuído à meia tribo de Manassés, segundo Josué 13:31.

O que aconteceu com Astarote depois da conquista?

A Bíblia não apresenta uma narrativa contínua sobre a cidade. Ela aparece nas listas territoriais de Josué e em uma referência a Uzia, um dos valentes de Davi. Depois disso, o texto bíblico praticamente deixa de mencioná-la.

Qual é a relação entre a cidade de Astarote e a deusa pagã?

Os nomes pertencem à mesma família linguística e provavelmente estão historicamente relacionados. No artigo sobre a cidade, porém, ela é tratada como topônimo. A cidade recebeu um nome relacionado à antiga tradição de Astarte, mas não deve ser confundida com a própria divindade.

Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

Fontes

[1] AHARONI, Yohanan et al. The Carta Bible Atlas. 4. ed. Carta, 1993.

[2] FREEDMAN, David Noel (ed.). The Anchor Bible Dictionary. Doubleday, 1992. Ver entradas sobre Ashtaroth e Bashan.

[3] KEIL, Carl Friedrich; DELITZSCH, Franz. Commentary on the Old Testament: Joshua. Hendrickson. Comentários sobre Josué 13 e 21.

[4] EUSÉBIO DE CESAREIA. Onomasticon. Tradições geográficas sobre Astar-ote e Asta rote-Carnaim, preservadas em traduções e estudos modernos.

[5] BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles A. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament. Clarendon Press, 1907.

[6] AVRAHAM, Faust. “Ashtaroth”. In: Encyclopaedia Biblica. Entrada sobre a cidade, suas formas antigas e identificação arqueológica.

[7] GÜTERBOCK, Hans G. et al. Estudos sobre os topônimos do antigo Oriente Próximo e suas ocorrências em fontes egípcias e semíticas, utilizados para a discussão de Asta-rote e Aštartu.

Diego Pereira do Nascimento
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