Astarte foi uma das principais divindades femininas do antigo Oriente Próximo e aparece na Bíblia sob a forma hebraica Astorete. Seu culto esteve presente entre povos do Levante e também alcançou os fenícios, sendo associado em diferentes períodos à fertilidade, à guerra, à sexualidade e ao planeta Vênus.
No Antigo Testamento, sua adoração é apresentada como idolatria e como uma das práticas que afastaram Israel do Senhor.
Neste artigo apresentamos a história, relatos bíblicos e diversas curiosidade sobre esta deusa pagã.
História de Astarte
Astarte é conhecida em fontes do antigo Oriente Próximo por nomes relacionados a *Aštart*. Sua presença é atestada em regiões da Síria, Canaã, Fenícia e Egito, e seu culto se espalhou posteriormente pelo Mediterrâneo por meio das cidades fenícias [1].
A forma grega Astartē deu origem ao nome pelo qual a deusa ficou conhecida na tradição ocidental.

Culto no antigo Oriente Próximo
O culto de Astarte possui uma história longa e não corresponde a uma religião uniforme. Fontes de diferentes períodos apresentam a deusa com funções e posições distintas. Em alguns contextos, ela está ligada à fertilidade e à sexualidade; em outros, aparece relacionada à guerra e ao poder real [1][2].
Essa variedade é importante para compreender Astarte. Não existe uma descrição única de sua personalidade ou de seus atributos que possa ser aplicada igualmente a todos os povos que a cultuaram. As tradições locais adaptaram o culto conforme suas próprias estruturas religiosas.
Textos Ugarit
Os textos de Ugarit, cidade situada na costa da atual Síria, mencionam ela entre as divindades do panteão local.
Ela aparece em listas de deuses e em textos rituais, mas tem presença menor na literatura mitológica ugarítica do que divindades como Baal e Aserá [3].
Essa evidência ajuda a corrigir uma ideia comum: Essa deusa pagã não deve ser tratada simplesmente como outro nome de Aserá.
As duas são divindades distintas nas fontes antigas, embora suas funções e cultos tenham se aproximado em determinados períodos e regiões [2][3].

Adoração entre os fenícios
Entre os fenícios, Astarte recebeu culto em importantes cidades do litoral levantino. Sidom, Tiro e Biblos aparecem associados à tradição religiosa da deusa, que também acompanhou a expansão fenícia para outras regiões do Mediterrâneo [1].
Achados arqueológicos mostram que o culto a ela alcançou o Mediterrâneo ocidental. Em Motia, na Sicília, escavações identificaram espaços religiosos relacionados à deusa e à expansão fenícia durante o primeiro milênio a.C. [4].
Panteão cananeu
A religião cananeia reunia diversas divindades, e sua organização variava conforme a cidade e o período. El, Baal, Aserá, Anate e Astarte aparecem em diferentes combinações nas fontes antigas. Por isso, relações familiares ou funções atribuídas a essas divindades devem ser analisadas de acordo com cada fonte [2][3].
| Divindade | Relação com Astarte | Observação |
|---|---|---|
| Baal | Associados em alguns contextos religiosos | No Antigo Testamento, Baal e Astoretes aparecem juntos no contexto da idolatria de Israel (Jz 2:13). Nos textos de Ugarit, porém, Astarte não aparece simplesmente como esposa de Baal [3]. |
| Aserá | Divindades distintas | Aserá (Athirat, nos textos de Ugarit) era associada a El e apresentada como mãe de diversas divindades. Astarte possui identidade e tradições próprias, embora ambas tenham sido relacionadas à fertilidade [2][3]. |
| Anate | Possível sobreposição de atributos | Anate era especialmente associada à guerra, enquanto Astarte também apresenta aspectos guerreiros em algumas fontes. As semelhanças não significam que fossem originalmente a mesma divindade [2][3]. |
Astarte e outras deusas do antigo Oriente Próximo
Astarte pertence a uma ampla família de tradições religiosas do antigo Oriente Próximo. Seu nome possui relação linguística com formas como Ishtar e Athtar, mas cada tradição desenvolveu características próprias [1].
| Divindade | Contexto principal | Características associadas |
|---|---|---|
| Astarte | Levante e Fenícia | Fertilidade, guerra, sexualidade e Vênus |
| Ishtar | Mesopotâmia | Amor, guerra e planeta Vênus |
| Aserá | Canaã e Ugarit | Maternidade, fertilidade e posição de consorte de El |
| Anat | Canaã e Ugarit | Guerra e poder |
A tabela não significa que essas divindades fossem simplesmente versões da mesma deusa. Ela mostra apenas algumas áreas de sobreposição. A religião do antigo Oriente Próximo apresentava intercâmbio cultural, mas também preservava identidades locais [2][3].
História bíblica de Astarte
O Antigo Testamento apresenta Astorete principalmente em textos que descrevem a idolatria de Israel. Ela é mencionada como uma divindade estrangeira e aparece associada aos baalins e aos povos que cercavam Israel.
Astarote no período dos juízes
Juízes 2:11-13 relata que os israelitas abandonaram o Senhor e passaram a servir aos baalins e às Astarote. O mesmo padrão aparece em Juízes 10:6, quando o povo volta a adorar essas divindades e outros deuses dos povos vizinhos.
Samuel e a retirada das Astoretes
Em 1 Samuel 7:3-4, Samuel ordena que Israel remova os deuses estrangeiros e as Astoretes e volte a servir somente ao Senhor. O episódio destaca a exigência bíblica de abandonar os outros cultos, e não simplesmente acrescentar novas divindades à adoração de Israel.
Reinado de Salomão
1 Reis 11:5 apresenta Astorete como a “deusa dos sidônios” e afirma que Salomão seguiu seu culto. O rei também construiu um lugar alto para a divindade (1Rs 11:7).
A referência relaciona a deusa pagã ao contexto religioso fenício, especialmente à cidade de Sidom, onde seu culto era importante [1].
A reforma de Josias
Séculos depois, Josias destruiu os lugares altos dedicados a Astarote que haviam sido construídos por Salomão (2Rs 23:13). A reforma fazia parte de um amplo esforço para remover os cultos estrangeiros de Jerusalém e restaurar a adoração exclusiva do Senhor.
Assim, o Antigo Testamento menciona Astarote em diferentes períodos da história de Israel, sempre dentro do contexto da idolatria e do abandono da aliança com o Senhor.

Evidências arqueológicas sobre Astarte
A arqueologia oferece informações importantes sobre Astarte fora do texto bíblico. Inscrições, esculturas, objetos cultuais e edifícios religiosos encontrados no Levante e no Mediterrâneo mostram a extensão de seu culto e a diversidade de suas representações [1][4].
Adoração na cidade de Sidom
Sidom possui uma longa tradição relacionada a Astarte. Fontes fenícias e achados arqueológicos mostram a importância de divindades femininas no ambiente religioso da cidade. A associação bíblica entre Astorete e os sidônios encontra, portanto, paralelo no contexto histórico da Fenícia [1].
O poste-ídolo no templo de Eshmun
Nas proximidades de Sidom, o complexo religioso de Eshmun preservou um trono atribuído a Astarte, decorado com esfinges. A peça pertence ao ambiente fenício e mostra que o culto da deusa continuou durante o período persa e helenístico [6].
Esse achado é posterior aos principais episódios bíblicos do período da monarquia, mas ajuda a demonstrar a continuidade e a transformação do culto a ela no Mediterrâneo oriental.
Astarte em Motia
Em Motia, na Sicília, escavações identificaram estruturas religiosas associadas a Astarte. O sítio mostra como a expansão fenícia levou tradições religiosas do Levante para o Mediterrâneo ocidental, onde elas foram adaptadas ao ambiente local [4].
Etimologia e significado de Astarte
Astarte é a forma grega Ἀστάρτη (Astartē) de um nome semítico relacionado a Aštart. A forma hebraica utilizada no Antigo Testamento é עַשְׁתֹּרֶת (*ʿAštōret*), geralmente transliterada como Astorete ou Ashtoreth [1][7].
O nome pertence à mesma família linguística de nomes como Istar, na Mesopotâmia, e Athtar, em outras tradições semíticas. A conexão linguística não significa que essas divindades fossem idênticas em todos os períodos, mas mostra uma história religiosa compartilhada no antigo Oriente Próximo [1].
A vocalização hebraica Astorete também possui uma história particular. Muitos estudiosos entendem que a forma tradicional do hebraico bíblico incorporou as vogais de bosheth, “vergonha”, como uma forma de evitar a pronúncia do nome da divindade [7]. Essa explicação é amplamente discutida nos estudos do texto hebraico.
Aprenda mais
[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.
Perguntas frequentes
Veja abaixo as principais perguntas, com suas respectivas respostas, que as pessoas fazem sobre esta deusa pagã.
Quem era Astarte?
Astarte era uma importante deusa do antigo Oriente Próximo, cultuada em regiões como Canaã, Fenícia e Egito. Seu culto variava conforme o período, mas ela foi associada à fertilidade, sexualidade, guerra e ao planeta Vênus. Na Bíblia, aparece sob a forma Astorete e é apresentada como uma divindade estrangeira.
Astarte e Astorete são a mesma deusa?
Sim. Astarte é a forma grega do nome, enquanto Astorete é a forma hebraica tradicional encontrada no Antigo Testamento. A relação entre as formas é linguística e histórica. As traduções bíblicas podem usar Astorete, Astarte ou Ashtoreth conforme a tradição adotada.
Astarte era a esposa de Baal?
Essa afirmação não pode ser aplicada a todas as tradições antigas. Astarte aparece associada a Baal em alguns contextos, mas os textos de Ugarit não apresentam uma relação simples e uniforme entre os dois. As relações familiares das divindades variavam conforme a cidade, o período e a tradição religiosa.
Astarte e Aserá são a mesma deusa?
Não. Astarte e Aserá são divindades distintas nas principais fontes antigas. Aserá aparece em Ugarit como Athirat, consorte de El, enquanto Astarote possui outro nome e outra tradição. A proximidade de funções, especialmente em temas de fertilidade, contribuiu para a confusão entre as duas.
Astarte aparece na Bíblia?
Sim. O nome aparece principalmente como Astorete ou Astoretes. Entre as referências estão Juízes 2:13; 10:6; 1 Samuel 7:3-4; 12:10; 1 Reis 11:5,33 e 2 Reis 23:13. Esses textos apresentam seu culto como idolatria e mostram sua presença entre os cultos estrangeiros adotados por israelitas.
Salomão adorou Astarte?
Segundo 1 Reis 11:5, Salomão seguiu Astorete, deusa dos sidônios, e construiu lugares de culto para divindades estrangeiras. 2 Reis 23:13 afirma posteriormente que Josias destruiu os lugares altos dedicados a Astorete que haviam sido construídos por Salomão.
Fontes
[1] DAY, John. Yahweh and the Gods and Goddesses of Canaan. Sheffield Academic Press, 2002.
[2] ACKERMAN, Susan. Under Every Green Tree: Popular Religion in Sixth-Century Judah. Scholars Press, 1992.
[3] WYATT, Nicolas. Religious Texts from Ugarit. Sheffield Academic Press, 1998.
[4] NIGRO, Lorenzo. “The Temple of Astar-te ‘Aglaia’ at Motya and its Cultural Significance in the Mediterranean Realm”. In Religious Convergence in the Ancient Mediterranean, 2019.
[5] DAY, Peggy L. “Hebrew Bible Goddesses and Modern Feminist Scholarship”. Religion Compass, 6, 2012, p. 298–308.
[6] CLERMONT-GANNEAU, Charles. “Inscriptions phéniciennes du temple d’Eschmoun à Sidon”. Comptes rendus de l’Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, 1902.
[7] BROWN, Francis; DRIVER, S. R.; BRIGGS, Charles A. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament. Clarendon Press, 1907.
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