Aserá era a principal deusa-mãe do panteão cananeu e uma das maiores tentações idólatras enfrentadas pelo Israel no Antigo Testamento. Conhecida como a consorte de El e, posteriormente, associada a Baal, sua influência permeava a religião cananeia e fenícia.
A Bíblia frequentemente menciona “postes-ídolos” dedicados a ela, demonstrando como sua adoração se infiltrou na vida religiosa dos israelitas antes do exílio babilônico. A soberania de Deus sempre se impôs contra esses símbolos de madeira sem vida.
Neste artigo apresentamos a história, relatos bíblicos e diversas curiosidade sobre esta deusa pagã.
História de Aserá
Aserá aparece nos textos de Ugarit, cidade do norte da Síria, com o nome de Athirat. Nessas tradições, ela era consorte de El e mãe de diversas divindades. Seu culto também alcançou outras regiões do Levante, embora suas características variassem conforme o povo e o período [1].
Aserá no antigo Oriente Próximo
O culto a Aserá ultrapassou as fronteiras de Canaã. Formas de seu nome aparecem em documentos de diferentes povos semíticos, incluindo referências à deusa Ashratu em textos acadianos. Essas evidências mostram que tradições relacionadas a esta deusa-pagã existiam antes dos registros bíblicos e assumiram características diferentes conforme a região [1].
No Levante, esta deusa pagã é especialmente conhecida pelos textos de Ugarit, datados principalmente do segundo milênio a.C. A cidade, localizada na atual Síria, preservou documentos religiosos que ajudam a reconstruir a mitologia cananeia e as relações entre seus deuses [1].
Achados arqueológicos também indicam a presença de práticas associadas ao seu culto em comunidades da região posteriormente ocupada por Israel. Essas evidências ajudam a compreender o contexto das advertências bíblicas contra os cultos dos povos vizinhos [2].

Aserá no panteão cananeu
Nos textos ugaríticos, El ocupa posição elevada entre os deuses, enquanto Aserá aparece como sua consorte. Baal também desempenha papel importante, sobretudo como deus relacionado à tempestade e à chuva. As relações entre essas divindades variavam conforme a região e o período [1].
A fertilidade estava entre os principais temas associados a deusa pagã. Em sociedades dependentes das chuvas e das colheitas, uma divindade relacionada à maternidade e à fertilidade ocupava espaço importante na religião popular. Os textos de Ugarit também a apresentam como mãe de diversas divindades [1][2].
O panteão cananeu não era um sistema uniforme. Nomes, funções e relações entre os deuses mudavam conforme o período e a região. O conhecimento sobre ela resulta da comparação entre textos antigos, inscrições e achados arqueológicos [2].
Aserá e El
A relação entre Aserá e El é bem documentada nos textos de Ugarit. El aparece como uma das principais autoridades do panteão, enquanto ela é apresentada como sua consorte e mãe de outras divindades [1].
O nome El também aparece frequentemente no Antigo Testamento em referência ao Deus de Israel, inclusive em expressões como El Shaddai e Elohim. Isso não significa que a Bíblia identifique o Senhor com o sistema religioso de Ugarit.
Deuteronômio 6:4 declara que o Senhor é um só, e Isaías 44:6 afirma que além dele não há Deus. As semelhanças linguísticas entre Israel e seus vizinhos não eliminam, portanto, a diferença entre a fé bíblica e a religião cananeia.
Aserá e Baal
Aserá também aparece relacionada ao culto de Baal em diferentes períodos e regiões, embora essa relação não seja uniforme nas fontes antigas. Em Ugarit, Baal está associado à tempestade, à chuva e à fertilidade, enquanto ela aparece como consorte de El [1].
No Antigo Testamento, Baal e Aserá aparecem juntos em contextos de idolatria. Juízes 3:7, por exemplo, afirma que os israelitas serviram aos baalins e aos postes dela. Durante o reinado de Acabe, esses cultos alcançaram a própria corte.
1 Reis 16:31-33 relata que Acabe promoveu o culto a Baal, enquanto 1 Reis 18:19 menciona quatrocentos profetas de Aserá ligados à mesa de Jezabel.
No monte Carmelo, os profetas de Baal clamaram sem receber resposta. Elias orou ao Senhor, e Deus respondeu com fogo (1 Reis 18:36-39).

Aserá, Baal e Yahweh
| Aspecto | Aserá | Baal | Yahweh |
|---|---|---|---|
| Contexto | Religiões cananeias | Religiões cananeias | Fé de Israel |
| Associação | Maternidade e fertilidade | Tempestade, chuva e fertilidade | Deus de Israel, Criador e Senhor de seu povo |
| Culto | Santuários, altares, objetos e símbolos | Altares, sacrifícios e rituais | Tabernáculo e Templo, conforme a Lei |
| Relação com Israel | Culto adotado por israelitas em períodos de apostasia | Culto introduzido e promovido em Israel | Adoração estabelecida na aliança |
| Avaliação bíblica | Idolatria | Idolatria | Deus verdadeiro |
A Bíblia não apresenta Aserá e Baal como divindades rivais do Senhor em igualdade de poder. Eles pertencem ao universo religioso dos povos vizinhos e são tratados como ídolos.
O contraste é direto: enquanto os profetas de Baal clamaram sem obter resposta no monte Carmelo, o Senhor respondeu à oração de Elias (1 Reis 18:25-39). Para o texto bíblico, não existe disputa entre deuses de poderes semelhantes. O Senhor é soberano, e os ídolos não possuem poder diante dele.
Iconografia e simbolismo de Aserá
As representações de Aserá estão relacionadas principalmente à maternidade, à fertilidade e à imagem de árvores ou postes. A própria Bíblia emprega o termo asherah tanto em contextos que parecem apontar para a divindade quanto para seu símbolo cultual [2].
Árvores e postes de culto
O culto de Aserá estava associado a elementos vegetais, especialmente árvores e objetos de madeira. A Bíblia ordena repetidamente que os postes dedicadas a esta deusa pagã fossem cortados, derrubados ou queimados, mostrando que esses objetos faziam parte das práticas religiosas condenadas em Israel [2].
Em Deuteronômio 16:21, a Lei proíbe plantar uma árvore junto ao altar do Senhor. Outras passagens, como Deuteronômio 7:5 e 2 Reis 23:14, mostram que esses símbolos eram destruídos durante reformas religiosas. A madeira, portanto, não era apenas um elemento decorativo, mas estava ligada ao culto pagão.
Estatuetas femininas de Judá
Centenas de pequenas estatuetas femininas foram encontradas em sítios de Judá, especialmente em residências.
Muitas apresentam seios destacados e a parte inferior do corpo em forma de coluna. Por sua associação com fertilidade e maternidade, alguns pesquisadores relacionam essas peças ao culto de Aserá [3].
A interpretação, porém, não é consensual. As estatuetas podem ter sido utilizadas em práticas domésticas de fertilidade, proteção ou maternidade, e não existe uma inscrição que identifique todas elas diretamente como representações de Aserá [3].

As estatuetas representavam Aserá?
A associação entre as estatuetas de Judá e Aserá é possível, mas não pode ser tratada como fato estabelecido. Sua grande quantidade indica que práticas religiosas domésticas eram comuns em Judá, porém a função exata das peças permanece discutida entre os arqueólogos [3].
Essa cautela é importante porque a arqueologia confirma a presença de práticas religiosas ligadas à fertilidade, mas não permite identificar automaticamente cada representação feminina com esta deusa pagã. As evidências precisam ser interpretadas em conjunto com as inscrições, os contextos arqueológicos e os textos bíblicos.
Aserá e os símbolos de fertilidade
A associação entre Aserá, maternidade e fertilidade ajuda a explicar a presença de símbolos vegetais e representações femininas em seu culto. Para sociedades agrícolas do antigo Levante, a fertilidade da terra, dos animais e das famílias estava diretamente ligada à sobrevivência.
A Bíblia condena a confiança nesses símbolos. Israel deveria reconhecer o Senhor como aquele que governa a Criação e concede chuva, colheitas e prosperidade.
O uso de objetos ligados aos cultos cananeus representava, portanto, não apenas uma diferença cultural, mas uma ruptura com a adoração exclusiva ao Deus de Israel.

Práticas de culto e rituais
O culto a Aserá fazia parte das práticas religiosas do antigo Levante e podia ocorrer em santuários, altares e ambientes domésticos. As evidências arqueológicas apontam para práticas ligadas à fertilidade, proteção familiar e prosperidade, embora não seja possível reconstruir todos os rituais com segurança [2][3].
Santuários e altares
O culto de Aserá estava ligado a altares, lugares altos e outros espaços destinados às práticas religiosas. A Bíblia menciona repetidamente os asherim junto aos altares de divindades pagãs, especialmente Baal. Em Juízes 6:25, por exemplo, o poste-ídolo estava ao lado do altar de Baal pertencente ao pai de Gideão.
As evidências arqueológicas mostram que os cultos religiosos do antigo Levante podiam ocorrer tanto em grandes santuários quanto em espaços menores. Por isso, ela não deve ser imaginada como uma deusa adorada somente em templos oficiais. Seu culto também alcançava comunidades e famílias [2].
O culto doméstico
A quantidade de estatuetas encontradas em residências de Judá mostra que práticas religiosas não oficiais também faziam parte da vida cotidiana.
Algumas dessas peças podem ter sido usadas em ritos domésticos relacionados à fertilidade, maternidade ou proteção. Sua função exata, porém, permanece debatida [3].
Esse aspecto ajuda a explicar a dificuldade enfrentada pelos reis que tentaram eliminar a idolatria.
O problema não estava apenas nos grandes santuários, mas também em práticas incorporadas à vida familiar. Para a Bíblia, confiar nesses objetos representava abandonar a confiança exclusiva no Senhor.

Fertilidade e maternidade
Aserá estava associada à maternidade e à fertilidade no ambiente religioso cananeu. Essas funções tinham grande importância em sociedades agrícolas, nas quais a fertilidade da terra, dos animais e das famílias estava diretamente relacionada à sobrevivência [1][2].
É possível que parte das práticas relacionadas a Aserá buscasse obter proteção, prosperidade ou fertilidade. As evidências disponíveis, entretanto, não permitem reconstruir um ritual único ou determinar com precisão quais cerimônias eram realizadas em todos os lugares onde seu culto existia.
A Bíblia rejeita a ideia de que a fertilidade e a prosperidade dependessem de uma deusa pagã. O Senhor é apresentado como aquele que governa a chuva, a terra e a produção agrícola. A confiança em Aserá, portanto, representava uma forma de idolatria e infidelidade à aliança.
Sacerdotes e oferendas
As fontes antigas indicam que os cultos do Levante contavam com sacerdotes e outros responsáveis pelos rituais religiosos.
O Antigo Testamento também menciona grupos de profetas ligados a Aserá. Em 1 Reis 18:19, quatrocentos profetas de Aserá são apresentados como integrantes da estrutura religiosa sustentada por Jezabel.
O culto envolvia oferendas e sacrifícios, embora não seja possível atribuir a Aserá um conjunto uniforme de rituais. As práticas variavam conforme o período e a região [1][2].
No relato bíblico, essas cerimônias não produzem qualquer manifestação de poder da deusa. O contraste fica evidente no monte Carmelo: os profetas pagãos clamam durante horas sem resposta, enquanto o Senhor responde à oração de Elias (1 Reis 18:25-39).

Aserá nos relatos bíblicos
Aserá aparece repetidamente em relatos que descrevem a idolatria de Israel e Judá. Em todos eles, o texto bíblico apresenta o culto pagão como oposição à fidelidade ao Senhor.
O período dos juízes
O período dos juízes foi marcado por repetidos ciclos de apostasia, opressão, clamor e livramento. Nesse contexto, os israelitas passaram a incorporar práticas religiosas dos povos que habitavam Canaã. O culto a Aserá aparece nesse cenário como parte da idolatria que afastava o povo da adoração exclusiva ao Senhor.
Israel abandona o Senhor e adora Aserá
Juízes 3:7 afirma que os israelitas fizeram o que era mau aos olhos do Senhor, esqueceram-se dele e serviram aos baalins e aos postes de Aserá. O texto apresenta a idolatria como consequência direta do abandono da aliança com Deus.
Sua presença nesse relato também mostra que o problema não estava restrito a indivíduos isolados. A idolatria havia alcançado a comunidade de Israel e se tornado uma prática religiosa aceita por parte do povo.
Os israelitas fizeram o que era mau aos olhos do Senhor, pois se esqueceram do Senhor, o seu Deus, e prestaram culto aos baalins e a Aserá.
Juízes 3:7 (NVI)
Gideão destrói o poste de Aserá
Deus ordenou que Gideão destruísse o altar de Baal pertencente a seu pai e cortasse o poste de Aserá que estava junto dele (Juízes 6:25-30). Gideão realizou a tarefa durante a noite porque temia a reação dos moradores.
Quando descobriram o que havia acontecido, os homens da cidade quiseram matá-lo. Joás, pai de Gideão, respondeu que, se Baal fosse realmente deus, deveria defender sua própria causa (Juízes 6:31).

A monarquia unida: Advertências contra a idolatria
Durante a monarquia unida, a Bíblia não registra episódios tão explícitos de culto a Aserá quanto os encontrados posteriormente nos livros de Reis. Ainda assim, as advertências contra os cultos cananeus permaneciam presentes na Lei de Moisés e estabeleciam os limites que Israel deveria seguir.
A proibição dos símbolos cananeus
A Lei ordenava que Israel destruísse os objetos associados aos cultos pagãos. Deuteronômio 7:5 determina a derrubada dos altares, a quebra das colunas sagradas e o corte dos postes de Aserá.
A proibição também aparece em Deuteronômio 16:21-22, que não permitia plantar uma árvore junto ao altar do Senhor nem levantar uma coluna sagrada. Essas ordens protegiam o culto israelita da incorporação de elementos religiosos cananeus.
Salomão e a influência das religiões estrangeiras
O reinado de Salomão mostra como essa influência poderia alcançar a própria família real. 1 Reis 11:4-8 relata que suas mulheres estrangeiras desviaram seu coração para outros deuses, levando-o a construir lugares de culto para divindades estrangeiras.
A Bíblia não menciona Aserá especificamente nesse episódio, mas o relato mostra o problema que se tornaria recorrente nos séculos seguintes: a aproximação de Israel com as religiões dos povos vizinhos.
O Senhor havia exigido adoração exclusiva, e a mistura com outros cultos preparava o caminho para a apostasia.

O Reino de Israel
Depois da divisão do reino, Israel manteve uma trajetória marcada pela idolatria. Os livros de Reis apresentam os sucessivos governantes do norte como responsáveis por preservar ou ampliar práticas religiosas que contrariavam a aliança com o Senhor. O culto a Aserá aparece nesse contexto associado aos demais símbolos da religião cananeia.
Os pecados de Israel
1 Reis 14:15 menciona os postes de Aserá entre as práticas que levariam Israel ao juízo de Deus. O culto pagão não era tratado como uma simples tradição cultural, mas como abandono do Senhor e violação de sua aliança.
A idolatria tornou-se parte recorrente da história do Reino de Israel. 1 Reis 16:33 afirma que Acabe fez um poste de Aserá, aumentando a provocação contra o Senhor.
O problema, portanto, não estava apenas na existência de outros deuses, mas na tentativa de introduzir seus cultos dentro da vida religiosa de Israel.
Aserá durante o reinado de Acabe
Durante o reinado de Acabe, o culto a Baal recebeu apoio da corte real, e 1 Reis 18:19 menciona quatrocentos profetas de Aserá que comiam à mesa de Jezabel. O confronto do monte Carmelo, entretanto, concentra-se nos profetas de Baal.
A narrativa mostra que o Senhor não dividia sua glória com os deuses de Canaã. Quando Elias orou, Deus respondeu com fogo e consumiu o sacrifício (1 Reis 18:36-39). Baal e seus profetas nada puderam fazer.

Adoração em Samaria
Mesmo depois do período de Acabe, o culto a Aserá continuou presente no Reino de Israel. 2 Reis 13:6 afirma que os israelitas permaneceram nos pecados da casa de Jeroboão e que o poste de Aserá continuava em Samaria.
A permanência desse símbolo revela a profundidade da idolatria no reino do norte. As mudanças de governantes não foram suficientes para eliminar práticas religiosas que haviam se estabelecido entre o povo. A história de Israel terminaria com a conquista de Samaria pelos assírios, consequência de sua persistente infidelidade ao Senhor.
O Reino de Judá
Em Judá, o culto a Aserá aparece ligado a períodos de apostasia e também às reformas promovidas por reis que buscaram restaurar a adoração ao Senhor. A presença de seus símbolos chegou ao próprio templo de Jerusalém, mostrando a profundidade que a idolatria havia alcançado.
Asa remove a imagem de Aserá
O rei Asa promoveu uma reforma religiosa em Judá e enfrentou os cultos pagãos presentes no reino. 1 Reis 15:13 relata que ele chegou a remover sua avó Maaca da posição de rainha-mãe porque ela havia feito uma imagem para Aserá.
Asa destruiu a imagem e a queimou junto ao ribeiro de Cedrom. O episódio mostra que a reforma religiosa exigia romper também com práticas mantidas dentro da própria família real.

Ezequias corta o poste de Aserá
Décadas depois, Ezequias realizou outra importante reforma. 2 Reis 18:4 afirma que ele removeu os altos, quebrou as colunas sagradas e cortou o poste de Aserá.
A atitude de Ezequias estava de acordo com as determinações da Lei de Moisés. Os símbolos dos cultos pagãos não deveriam permanecer ao lado da adoração ao Senhor. A reforma representava uma tentativa de conduzir Judá novamente à fidelidade à aliança.
Reinado de Manassés
O rei Manassés levou a idolatria para dentro do próprio templo. Segundo 2 Reis 21:7, ele colocou uma imagem esculpida de Aserá na casa do Senhor, no lugar que Deus havia escolhido para sua habitação.
A atitude de Manassés representa uma das maiores expressões de apostasia descritas na história de Judá. O templo dedicado ao Senhor havia sido contaminado por um ídolo.
A Bíblia não trata isso como simples diversidade religiosa, mas como rebelião contra Deus.

Josias destrói os objetos de Aserá
A reforma de Josias enfrentou diretamente essa corrupção religiosa. O rei ordenou que os objetos feitos para Baal e Aserá fossem retirados do templo e destruídos (2 Reis 23:4-7).
Josias também removeu práticas associadas aos cultos pagãos que haviam se estabelecido em Jerusalém. A reforma reafirmava aquilo que a Lei já ensinava: Israel não deveria misturar a adoração ao Senhor com os cultos das nações.
Aserá e o julgamento de Judá
Mesmo após as reformas de Ezequias e Josias, a idolatria havia deixado marcas profundas em Judá. 2 Reis 23:26-27 afirma que a ira do Senhor permanecia contra Jerusalém por causa das transgressões cometidas durante os reinados anteriores.
A Bíblia interpreta a queda de Jerusalém e o exílio babilônico dentro desse contexto de infidelidade. Os ídolos não protegeram Judá do julgamento de Deus. A soberania do Senhor permaneceu acima dos deuses e símbolos religiosos das nações.

Evidências arqueológicas sobre Aserá
As descobertas arqueológicas ajudaram a reconstruir o culto de Aserá e o ambiente religioso do antigo Levante. Textos, inscrições e objetos encontrados em diferentes sítios mostram a presença de tradições relacionadas à deusa e ajudam a compreender como práticas religiosas populares coexistiam com as exigências da fé bíblica [1][2].
Ugarit e os textos de Athirat
As escavações de Ugarit, na costa da atual Síria, revelaram textos religiosos que apresentam Athirat como consorte de El e mãe de diversas divindades. Esses documentos, datados principalmente do segundo milênio a.C., estão entre as principais fontes para o conhecimento da religião cananeia [1].
Os textos também ajudam a distinguir Athirat de outras divindades do panteão.
El aparece como uma autoridade superior, enquanto Baal ocupa posição de destaque como deus associado à tempestade. Athirat, por sua vez, está ligada à maternidade e ocupa posição elevada entre os deuses [1].

Kuntillet Ajrud e “Yahweh e sua Aserá”
Kuntillet Ajrud, localizado no nordeste da península do Sinai, produziu inscrições do século VIII a.C. que mencionam Yahweh em conjunto com expressões traduzidas por alguns estudiosos como “Yahweh e sua Aserá” [2][4].
A interpretação dessas inscrições é discutida. Alguns pesquisadores entendem que elas refletem a crença de determinados grupos israelitas em uma relação entre Yahweh e Aserá. Outros interpretam asherah como referência a um símbolo ou objeto cultual associado a Yahweh, e não como uma consorte divina [2][4].
As inscrições são importantes justamente por mostrarem a diversidade da religião popular israelita. Elas não significam que a Bíblia reconheça Aserá como esposa de Deus. O Antigo Testamento rejeita a associação do Senhor com os cultos cananeus e exige adoração exclusiva a ele.
Khirbet el-Qom
Em Khirbet el-Qom, nas colinas de Judá, foram encontradas inscrições funerárias do século VIII a.C. que também fazem referência a Yahweh e a asherah.
O material é utilizado nos estudos sobre a presença de Aserá e de seus símbolos na religião israelita [2][4].
Assim como em Kuntillet Ajrud, o significado exato das inscrições permanece debatido. Elas podem indicar uma associação entre Yahweh e Aserá ou fazer referência a um símbolo cultual.
Em ambos os casos, as inscrições mostram que algumas práticas religiosas de Judá não correspondiam plenamente às normas estabelecidas pela religião bíblica [2].

As estatuetas de Judá
Centenas de pequenas estatuetas femininas foram encontradas em diferentes locais de Judá, principalmente em residências. Conhecidas como Judean Pillar Figurines, essas peças geralmente apresentam uma mulher com seios destacados e a parte inferior do corpo em formato de coluna [3].
Alguns pesquisadores relacionam essas estatuetas a Aserá e a práticas de fertilidade e maternidade. Outros propõem que fossem utilizadas em práticas domésticas de proteção ou em outros rituais. Não existe evidência suficiente para afirmar que todas elas a representavam [3][4].
A quantidade desses objetos, entretanto, revela que práticas religiosas domésticas tinham presença significativa em Judá. A arqueologia permite perceber, assim, uma diferença entre a religião popular e as exigências da adoração ao Senhor estabelecidas na Lei de Moisés [3].
Árvores e símbolos cultuais
As evidências arqueológicas também ajudam a compreender a relação entre Aserá e símbolos vegetais. Textos e objetos do antigo Levante apontam para a utilização de elementos associados a árvores e postes em contextos religiosos [1][2].
Essa evidência se relaciona diretamente com o vocabulário bíblico. O termo asherah pode designar a própria deusa ou um objeto cultual associado ao seu culto. Por isso, algumas passagens do Antigo Testamento falam em cortar, derrubar ou queimar os asherim (Deuteronômio 7:5; 2 Reis 23:14) [2].
A arqueologia confirma a existência de práticas e símbolos religiosos relacionados ao ambiente cananeu, mas não deve ser usada para preencher lacunas com especulação. As evidências precisam ser avaliadas em conjunto com os textos antigos. Para a Bíblia, qualquer tentativa de associar esses símbolos à adoração do Senhor representava idolatria e infidelidade à aliança.
Etimologia e significado de Aserá
O nome hebraico אֲשֵׁרָה (asherah) está relacionado ao termo utilizado no Antigo Testamento para Aserá e para os objetos cultuais associados a seu culto. A origem exata da palavra é discutida, e diferentes propostas foram apresentadas pelos estudiosos [2][4].
Nos textos ugaríticos, o nome correspondente é Athirat, geralmente entendido como o nome de uma deusa. A diferença entre Athirat e o hebraico asherah acompanha as transformações linguísticas entre as culturas semíticas do antigo Oriente Próximo [1].
Algumas passagens bíblicas parecem tratar asherah como nome da divindade, enquanto outras descrevem um objeto que podia ser cortado, queimado ou removido. Essa dupla utilização explica por que as traduções variam entre “Aserá”, “poste de Aserá” e expressões semelhantes.
Aprenda mais
[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.
Perguntas frequentes
Veja abaixo as principais perguntas, com suas respectivas respostas, que as pessoas fazem sobre esta deusa pagã.
Quem era Aserá?
Aserá era uma deusa adorada por diferentes povos do antigo Levante. Nos textos de Ugarit, aparece como consorte de El e mãe de diversas divindades. Seu culto estava associado principalmente à fertilidade e à maternidade.
Aserá era esposa de Deus?
Não. A Bíblia nunca apresenta Aserá como esposa do Senhor. Algumas inscrições antigas encontradas em Kuntillet Ajrud e Khirbet el-Qom mencionam Yahweh e asherah, mas sua interpretação é discutida pelos estudiosos. A fé bíblica afirma a exclusividade do Senhor e rejeita qualquer associação dele com uma consorte divina.
Aserá aparece na Bíblia?
Sim. O nome Aserá ou asherah aparece em diversos textos do Antigo Testamento, geralmente relacionado a objetos cultuais ou à idolatria. Entre os episódios estão a destruição do poste de Aserá por Gideão, as reformas de Asa, Ezequias e Josias e a colocação de uma imagem de Aserá no templo por Manassés.
O que era o poste de Aserá?
O poste de Aserá era um objeto cultual associado ao culto dessa deusa. O termo hebraico asherah pode se referir ao próprio objeto ou, em determinados contextos, à divindade. A Bíblia ordenava que esses símbolos fossem destruídos porque representavam práticas religiosas incompatíveis com a adoração exclusiva ao Senhor.
Aserá era esposa de Baal?
As fontes antigas apresentam relações diferentes entre Aserá e outras divindades. Nos textos de Ugarit, ela aparece como consorte de El, enquanto Baal possui outra posição dentro do panteão. A associação entre Aserá e Baal aparece com mais força em tradições e contextos posteriores, mas não deve ser aplicada de maneira uniforme a todas as culturas cananeias.
Aserá era adorada pelos israelitas?
Sim. O Antigo Testamento registra que alguns israelitas adotaram o culto a Aserá. Juízes 3:7 afirma que o povo serviu aos baalins e aos postes-ídolos, enquanto 2 Reis 21:7 relata que Manassés colocou uma imagem dentro do templo de Jerusalém.
Existem provas arqueológicas do culto a Aserá?
Sim. Textos de Ugarit, inscrições encontradas em Kuntillet Ajrud e Khirbet el-Qom e numerosas estatuetas femininas encontradas em Judá fornecem evidências sobre práticas religiosas associadas a Aserá ou ao ambiente religioso em que seu culto existia. Algumas dessas evidências, porém, continuam sendo objeto de debate acadêmico.
Fontes
[1] DAY, John. Yahweh and the Gods and Goddesses of Canaan. Sheffield Academic Press, 2002.
[2] HADLEY, Judith M. The Cult of Asherah in Ancient Israel and Judah: Evidence for a Hebrew Goddess. Cambridge University Press, 2000.
[3] KLETTER, Raz. The Judean Pillar-Figurines and the Archaeology of Asherah. Tempus Reparatum, 1996.
[4] DEVER, William G. Did God Have a Wife? Archaeology and Folk Religion in Ancient Israel. Eerdmans, 2005.
- Sola Gratia (Somente a Graça) – 2 de setembro de 2026
- Solus Christus (Somente Cristo) – 2 de setembro de 2026
- Sola Fide (Somente a Fé) – 2 de setembro de 2026
