Sola Scriptura (Somente a Escritura)

Entenda o que é Sola Scriptura, seu significado, origem na Reforma Protestante, autoridade das Escrituras e relação com a tradição cristã.

Ilustração de um monge estudando a Bíblia (Sola Scriptura - Somente a Escritura)

O termo sola scriptura define o princípio teológico segundo o qual a Escritura Sagrada é a autoridade final e infalível para a fé e a prática cristã. Associado principalmente à Reforma Protestante do século XVI, o conceito estabelece uma distinção entre a autoridade da revelação bíblica e a autoridade das tradições, dos concílios e das instituições da Igreja.

O princípio não significa que os protestantes devam ignorar a história da Igreja, os credos ou os estudos teológicos. Seu ponto central é que nenhuma dessas autoridades possui o mesmo status da Escritura inspirada.

Neste artigo, são apresentadas a história, a formulação teológica, as principais interpretações, as críticas e o significado da expressão sola scriptura.

História do sola scriptura

A história do sola scriptura está ligada ao longo desenvolvimento da compreensão cristã sobre a autoridade das Escrituras e sua relação com a tradição e a autoridade da Igreja.

Embora sua formulação tenha ganhado destaque durante a Reforma Protestante, suas raízes podem ser examinadas desde a Igreja antiga e atravessam importantes debates teológicos da Idade Média.

Ilustração de um monge estudando a Bíblia (Sola Scriptura - Somente a Escritura)
Ilustração de um monge estudando a Bíblia (Sola Scriptura – Somente a Escritura)

A autoridade das Escrituras na Igreja antiga

A preocupação com a autoridade das Escrituras é anterior à Reforma Protestante. Desde os primeiros séculos do cristianismo, os escritos apostólicos eram utilizados para ensinar a fé, combater heresias e orientar a vida das comunidades.

Ao mesmo tempo, os cristãos antigos também recorriam à tradição recebida dos apóstolos e aos ensinamentos de líderes reconhecidos pela Igreja.

Os Pais da Igreja e Agostinho

Os Pais da Igreja não desenvolveram o sola scriptura como seria formulado pelos reformadores, mas trataram a Escritura como fundamento essencial da doutrina cristã.

Agostinho de Hipona, por exemplo, utilizou extensivamente as Escrituras em seus argumentos teológicos e reconheceu a importância da tradição e da autoridade da Igreja em questões de fé [1].

Agostinho de Hipona discutindo com os donatistas. Por Charles-André van Loo.
Agostinho de Hipona discutindo com os donatistas. Por Charles-André van Loo.

A formação da autoridade eclesiástica medieval

Durante a Idade Média, a relação entre Escritura, tradição e autoridade eclesiástica tornou-se progressivamente mais complexa.

A Igreja latina desenvolveu estruturas jurídicas, teológicas e administrativas que atribuíam grande importância ao magistério, aos concílios, ao papado e à tradição recebida. A Escritura continuava sendo fundamental, mas sua interpretação estava inserida na estrutura institucional da Igreja medieval [1].

Escolástica e debates sobre autoridade

A teologia escolástica procurou sistematizar a relação entre razão, Escritura, tradição e autoridade eclesiástica. Teólogos medievais discutiram questões sobre a interpretação bíblica, a autoridade dos concílios e os limites do poder papal.

Esses debates criaram parte do ambiente intelectual no qual, posteriormente, os reformadores discutiriam novamente a natureza e a hierarquia das autoridades cristãs [1].

Wycliffe, Hus e movimentos anteriores à Reforma

Antes de Lutero, diferentes movimentos questionaram aspectos da autoridade e da vida da Igreja ocidental. John Wycliffe, na Inglaterra, enfatizou a importância da Escritura e criticou determinadas estruturas e práticas eclesiásticas.

Jan Hus, na Boêmia, também defendeu a necessidade de reforma da Igreja e apelou à autoridade das Escrituras. Esses movimentos são considerados antecedentes importantes do ambiente reformador [1].

A Reforma Protestante

No século XVI, a questão da autoridade tornou-se um dos principais pontos de conflito entre os reformadores e a Igreja de Roma.

Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio, João Calvino e outros reformadores defenderam a necessidade de submeter doutrinas e práticas eclesiásticas ao testemunho das Escrituras.

A Reforma, portanto, não tratou apenas de costumes religiosos, mas também da fonte e do limite da autoridade doutrinária.

Lutero e a Dieta de Worms

Em 1521, Martinho Lutero compareceu à Dieta de Worms, onde foi pressionado a retratar-se de seus escritos. Em sua defesa, apelou à impossibilidade de agir contra a consciência quando ela está submetida à Palavra de Deus. Lutero também argumentou que papas e concílios podiam errar.

O episódio tornou-se um dos símbolos históricos da prioridade da Escritura sobre autoridades humanas [2].

Martinho Lutero em 1529 por Lucas Cranach, o Velho
Martinho Lutero em 1529 por Lucas Cranach, o Velho

A formulação protestante posterior

Após a Reforma, o princípio foi desenvolvido de forma mais sistemática nas confissões e teologias protestantes. A tradição luterana, a tradição reformada e outras correntes protestantes produziram formulações próprias sobre inspiração, autoridade, suficiência e interpretação das Escrituras.

Assim, sola scriptura tornou-se uma característica fundamental da teologia protestante, embora sua aplicação não seja idêntica em todas as denominações.

Os cinco solas da Reforma

Sola scriptura é frequentemente apresentado junto aos chamados cinco solas, expressões que resumem aspectos fundamentais da teologia da Reforma. A lista é uma forma posterior de sintetizar a teologia protestante e não deve ser entendida como um único manifesto produzido por todos os reformadores.

  • Sola scriptura: somente a Escritura.
  • Sola fide: somente a fé.
  • Sola gratia: somente a graça.
  • Solus Christus: somente Cristo.
  • Soli Deo gloria: somente a Deus a glória.

Significado teológico do sola scriptura

O significado teológico do sola scriptura está relacionado à autoridade, suficiência e clareza das Escrituras para a fé e a vida cristã.

O princípio não considera a Bíblia isoladamente de toda tradição ou reflexão teológica, mas afirma sua posição como norma suprema pela qual doutrinas, ensinamentos e práticas da Igreja devem ser avaliados.

Inspiração e autoridade da Escritura

A autoridade da Escritura está relacionada à sua origem divina. A teologia cristã clássica afirma que os textos bíblicos foram inspirados por Deus e, por isso, possuem autoridade especial para a Igreja.

2 Timóteo 3:16-17 é um dos textos mais importantes utilizados nessa discussão, ao apresentar a Escritura como inspirada e útil para ensinar, corrigir e instruir na justiça [3][4].

¹⁶ Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça,

¹⁷ a fim de que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.

2 Timóteo 3:16,17 (NVI)

Suficiência das Escrituras

A suficiência significa que a Escritura fornece aquilo que é necessário para conhecer a salvação e viver de acordo com a vontade de Deus.

Isso não significa que a Bíblia contenha informações sobre todos os assuntos possíveis.

Significa que nenhuma fonte externa é necessária para acrescentar uma nova revelação normativa àquilo que Deus estabeleceu como regra para a fé cristã [3][4].

A tradução da Bíblia feita por Lutero, de 1534, com quatro livros colocados depois daqueles que Lutero considerava os verdadeiros e certos livros principais do Novo Testamento
A tradução da Bíblia feita por Lutero, de 1534, com quatro livros colocados depois daqueles que Lutero considerava os verdadeiros e certos livros principais do Novo Testamento

Perspicuidade ou clareza das Escrituras

A perspicuidade é a doutrina segundo a qual as Escrituras são suficientemente claras em suas verdades fundamentais, especialmente aquelas relacionadas à salvação. Isso não significa que todos os textos sejam fáceis de interpretar ou que estudiosos sejam desnecessários.

A ideia é que o conteúdo essencial da fé cristã não depende de uma autoridade humana exclusiva para tornar-se conhecido [3][4].

Autoridade magisterial e autoridade ministerial

Uma distinção importante na teologia reformada é entre autoridade magisterial e autoridade ministerial. A Escritura possui autoridade magisterial, pois estabelece a norma que julga as demais autoridades.

Igrejas, ministros, concílios e confissões exercem autoridade ministerial, pois servem à interpretação e transmissão da fé, mas não podem colocar suas decisões acima da Palavra de Deus [4][5].

Escritura e tradição

O sola scriptura não exige o abandono da tradição cristã. Os reformadores conheciam os escritos dos Pais da Igreja, utilizavam credos antigos e dialogavam com séculos de reflexão teológica.

A questão fundamental era determinar se essas tradições poderiam possuir autoridade normativa independente da Escritura ou se deveriam ser avaliadas à luz dela [1][5].

Credos e confissões

Credos como o Credo Apostólico e o Credo Niceno possuem grande importância histórica para diferentes comunidades protestantes.

Eles resumem doutrinas consideradas centrais, mas não são normalmente tratados como Escritura inspirada. Sua autoridade depende de sua fidelidade ao ensino bíblico e de sua função como síntese da fé cristã [1][5].

O manuscrito mais antigo que se conhece do Credo Niceno, datado do século VI
O manuscrito mais antigo que se conhece do Credo Niceno, datado do século VI

Tradição como testemunho histórico

A tradição pode preservar testemunhos importantes sobre como cristãos de diferentes épocas compreenderam a Bíblia. Ela também ajuda a identificar interpretações antigas, combater erros recorrentes e compreender o desenvolvimento da doutrina.

Para o sola scriptura clássico, entretanto, a antiguidade de uma interpretação não garante sua infalibilidade. A Escritura permanece como norma final para avaliá-la [3][5].

O que sola scriptura não significa

O sola scriptura é frequentemente interpretado de maneira mais radical do que pretendiam os reformadores. Por isso, é importante esclarecer o que esse princípio não significa.

Ele não implica rejeição da tradição cristã, dos credos, da teologia ou da orientação da Igreja, nem afirma que cada cristão possa interpretar a Bíblia de forma independente e necessariamente correta.

Não significa rejeitar a tradição

Os reformadores não propuseram que os cristãos esquecessem toda a tradição anterior. Eles frequentemente recorriam aos Pais da Igreja para argumentar que determinadas doutrinas da Reforma possuíam antecedentes históricos.

A rejeição protestante estava dirigida principalmente à atribuição de autoridade normativa e infalível a tradições que, segundo os reformadores, não poderiam ser demonstradas pelas Escrituras [1][5].

Não significa rejeitar estudos teológicos

O princípio também não elimina a necessidade de teologia, exegese, linguística ou história. O estudo acadêmico pode ajudar a compreender o contexto, o idioma e a estrutura dos textos bíblicos.

A questão é que essas ferramentas funcionam como instrumentos de interpretação. Elas não adquirem, por si mesmas, autoridade para estabelecer novas doutrinas acima das Escrituras.

Figuras-chave da Reforma Protestante. Martinho Lutero e João Calvino retratados em um púlpito. Esses reformadores enfatizaram a pregação e fizeram dela uma peça central de adoração
Figuras-chave da Reforma Protestante: Martinho Lutero e João Calvino retratados em um púlpito. Esses reformadores enfatizaram a pregação e fizeram dela uma peça central de adoração

Não significa que toda interpretação individual esteja correta

A liberdade de examinar as Escrituras não implica que qualquer interpretação seja automaticamente válida. O protestantismo desenvolveu métodos de interpretação, confissões doutrinárias e comunidades de estudo justamente porque reconhece a possibilidade de erro humano.

A autoridade suprema da Bíblia não elimina a responsabilidade de interpretá-la corretamente.

Sola scriptura e solo scriptura

Os termos sola scriptura e solo scriptura são algumas vezes utilizados como sinônimos, mas também podem expressar conceitos diferentes.

Em discussões teológicas contemporâneas, solo scriptura costuma designar uma abordagem que trata a Bíblia como se o cristão não precisasse de tradição, credos, comunidade ou história para interpretar a fé. Essa concepção não corresponde ao modelo clássico da Reforma [5].

Por isso, é mais preciso compreender o sola scriptura clássico como uma afirmação sobre a hierarquia das autoridades.

A Escritura é a norma final e infalível, enquanto outras fontes podem possuir utilidade e autoridade derivada. A distinção é importante para evitar a ideia de que a doutrina protestante exige um individualismo absoluto na interpretação bíblica.

Detalhes iluminados. Bíblia de Gutenberg
Detalhes iluminados. Bíblia de Gutenberg

O que é sola scriptura?

Sola scriptura significa que a Escritura é a norma suprema para determinar aquilo que deve ser crido e praticado pela Igreja. Tradições, confissões, autoridades eclesiásticas e escritos teológicos podem exercer importante função, mas permanecem sujeitos ao julgamento da Palavra de Deus.

Autoridade final e não autoridade exclusiva em todos os sentidos

O princípio não afirma que somente a Bíblia possui qualquer tipo de autoridade. Pastores, professores, credos e concílios podem exercer autoridade real dentro da Igreja.

A diferença está na natureza dessa autoridade: para a teologia protestante clássica, essas autoridades são derivadas e falíveis, enquanto a Escritura possui autoridade normativa por ser a Palavra de Deus.

Textos bíblicos relacionados ao sola scriptura

Diversos textos bíblicos são utilizados por teólogos protestantes na argumentação sobre a autoridade das Escrituras. Eles não são apresentados necessariamente como uma fórmula explícita do termo sola scriptura, que é posterior ao período bíblico, mas como fundamentos para a compreensão protestante da autoridade, inspiração e suficiência da Palavra de Deus [3][4].

  • 2 Timóteo 3:16-17: destaca a inspiração e utilidade da Escritura.
  • Atos 17:11: apresenta os bereanos examinando as Escrituras para verificar o ensino recebido.
  • Isaías 8:20: relaciona a verdade religiosa ao testemunho profético.
  • Mateus 15:1-9: registra a crítica de Jesus a tradições humanas que anulavam a Palavra de Deus.
  • Gálatas 1:8-9: estabelece um limite severo para qualquer mensagem contrária ao evangelho apostólico.

Alternativas ao sola scriptura

O sola scriptura não é a única maneira cristã de compreender a relação entre as Escrituras, a tradição e outras formas de autoridade. Diferentes tradições desenvolveram modelos nos quais a Bíblia continua ocupando papel central, mas é interpretada em conjunto com a tradição, a razão, a experiência ou uma compreensão mais ampla da revelação.

Prima scriptura

A expressão prima scriptura significa “a Escritura em primeiro lugar” e descreve uma posição na qual a Bíblia possui primazia entre as fontes utilizadas para a fé e a prática cristã, mas não é considerada a única autoridade relevante. Tradição, razão e experiência podem exercer funções importantes na compreensão e aplicação dos ensinamentos cristãos.

Essa perspectiva aparece especialmente associada ao anglicanismo e ao metodismo, embora sua aplicação varie entre diferentes grupos.

No anglicanismo, a Escritura é considerada juntamente com a tradição e a razão na reflexão teológica. No metodismo, essa relação foi posteriormente expressa no chamado Quadrilátero Wesleyano, que acrescenta a experiência.

A diferença fundamental em relação ao sola scriptura está, portanto, na maneira como outras fontes são posicionadas diante da Escritura.

No sola scriptura, a Escritura funciona como norma suprema para avaliar doutrinas e práticas; no prima scriptura, outras formas de conhecimento e autoridade podem desempenhar um papel mais significativo na formação da compreensão cristã.

No Quadrilátero Wesleyano , a experiência é uma fonte adicional de autoridade. A imagem mostra um memorial à experiência pessoal de John Wesley com o Novo Nascimento e a Segurança
No Quadrilátero Wesleyano , a experiência é uma fonte adicional de autoridade. A imagem mostra um memorial à experiência pessoal de John Wesley com o Novo Nascimento e a Segurança

Escritura e Tradição no catolicismo

A Igreja Católica não considera a Escritura e a Tradição como duas autoridades independentes ou concorrentes. Segundo a compreensão católica, ambas estão intimamente relacionadas e constituem um único depósito da fé confiado à Igreja. A Sagrada Escritura ocupa lugar fundamental nesse depósito, mas a transmissão da fé também envolve a Tradição apostólica.

Na perspectiva católica, a Tradição apostólica inclui aquilo que os apóstolos receberam de Cristo e transmitiram por meio de sua pregação, exemplo e ensinamento. A Escritura é entendida como parte dessa transmissão da revelação, enquanto a interpretação autêntica da Palavra de Deus está relacionada à missão de ensino da Igreja.

Essa compreensão é apresentada de maneira especialmente clara no documento Dei Verbum, do Concílio Vaticano II. O texto afirma que Escritura e Tradição estão estreitamente ligadas e que ambas formam o depósito sagrado da Palavra de Deus, confiado à Igreja para sua preservação, interpretação e transmissão.

Escritura e Tradição na Ortodoxia

A tradição ortodoxa também rejeita a ideia de que a Bíblia deva ser compreendida como uma autoridade isolada da Tradição da Igreja.

A Sagrada Escritura é considerada parte integrante da Sagrada Tradição, dentro da qual a fé apostólica é preservada e transmitida ao longo das gerações.

Nessa perspectiva, Escritura e Tradição não constituem duas fontes independentes de doutrina.

A Bíblia é compreendida dentro da vida da Igreja, de sua liturgia, de seus concílios, de seus escritos patrísticos e da continuidade da fé apostólica. Por isso, a interpretação individual da Escritura não ocupa o mesmo lugar que possui no modelo protestante clássico.

Um querubim tetramorfo , na iconografia ortodoxa oriental
Um querubim tetramorfo , na iconografia ortodoxa oriental

Diferenças entre essas perspectivas

As três posições podem compartilhar uma elevada consideração pelas Escrituras, mas diferem quanto à maneira de definir sua autoridade.

O sola scriptura estabelece a Escritura como norma suprema pela qual todas as demais autoridades devem ser avaliadas. O prima scriptura reconhece a primazia bíblica, mas atribui maior função à tradição, à razão ou à experiência.

No catolicismo e na ortodoxia, por sua vez, a Escritura é inseparável da Tradição apostólica e da vida da Igreja. Essas diferenças explicam por que os debates sobre sola scriptura não envolvem apenas a importância da Bíblia, mas também questões mais amplas sobre revelação, tradição, interpretação, autoridade e transmissão da fé cristã.

Sola scriptura nas tradições protestantes

A aplicação do sola scriptura não é idêntica em todas as tradições protestantes. Embora exista concordância quanto à autoridade suprema das Escrituras, diferentes igrejas desenvolveram compreensões distintas sobre o papel da tradição, das confissões, dos concílios e da interpretação teológica.

Essas diferenças podem ser observadas especialmente entre luteranos, reformados e outras tradições surgidas após a Reforma.

Luteranismo

A tradição luterana coloca a Escritura no centro da doutrina cristã e reconhece os credos ecumênicos como importantes testemunhos da fé.

As confissões luteranas também exercem papel significativo na interpretação doutrinária. Ainda assim, sua autoridade é entendida como subordinada à Escritura, que permanece como norma superior da fé cristã.

Igreja do Castelo de Vitemberga, sede da Igreja Luterana
Igreja do Castelo de Vitemberga, sede da Igreja Luterana

Tradição reformada

Na tradição reformada, o sola scriptura foi desenvolvido juntamente com conceitos como inspiração, suficiência, clareza e autoridade da Escritura.

Confissões reformadas desempenham papel importante na organização doutrinária das igrejas, mas são consideradas subordinadas à Bíblia. Autores como João Calvino e teólogos reformados posteriores procuraram articular a autoridade bíblica com a vida comunitária da Igreja [4][5].

Outras tradições protestantes

Batistas, anglicanos, metodistas e outras tradições protestantes também atribuem grande autoridade às Escrituras, mas diferem quanto ao papel das confissões, da tradição, da liturgia e da autoridade institucional.

Por isso, não existe uma única forma contemporânea de aplicar o sola scriptura. O princípio comum é a prioridade normativa da Escritura sobre as demais autoridades doutrinárias.

Críticas ao sola scriptura

A aplicação do sola scriptura não é idêntica em todas as tradições protestantes. Embora exista concordância quanto à autoridade suprema das Escrituras, diferentes igrejas desenvolveram compreensões distintas sobre o papel da tradição, das confissões, dos concílios e da interpretação teológica.

Essas diferenças podem ser observadas especialmente entre luteranos, reformados e outras tradições surgidas após a Reforma.

Crítica católica

Na teologia católica romana, a Escritura não é entendida como uma autoridade que deve ser separada da Tradição apostólica e do Magistério. A interpretação oficial da fé é realizada dentro da vida da Igreja.

Por isso, críticos católicos questionam se a própria definição do cânon bíblico e a preservação da doutrina poderiam ser explicadas adequadamente apenas pelo princípio protestante da Escritura como norma suprema [1].

Emblema papal. Símbolo do catolicismo (Igreja Católica Apostólica Romana)
Emblema papal. Símbolo do catolicismo (Igreja Católica Apostólica Romana)

Crítica ortodoxa

Na tradição ortodoxa oriental, a Escritura é profundamente integrada à vida da Igreja e à Santa Tradição. A Bíblia não é tratada como uma autoridade isolada da comunidade histórica que a recebeu, preservou e interpretou.

Dessa perspectiva, a separação rígida entre Escritura e tradição pode ser considerada inadequada para compreender a forma como a fé cristã foi transmitida desde a Igreja antiga.

Críticas dentro do próprio protestantismo

Também existem críticas protestantes ao modo como o princípio pode ser aplicado. Uma delas é o risco de transformar a autoridade da Escritura em individualismo interpretativo.

Outra é a possibilidade de fragmentação denominacional, quando diferentes grupos afirmam seguir somente a Bíblia, mas chegam a conclusões doutrinárias incompatíveis. Essas críticas estimularam maior atenção à hermenêutica, à tradição e à interpretação comunitária.

Etimologia e significado de sola scriptura

Sola

Sola é uma forma feminina de solus, palavra latina relacionada às ideias de somente, apenas ou único. A forma aparece em construções latinas nas quais a palavra qualificada é feminina. No contexto teológico, expressa a ideia de que determinada autoridade ou fundamento ocupa uma posição exclusiva em relação ao princípio que está sendo afirmado.

Scriptura

Scriptura deriva do verbo latino scribere, escrever, e pode significar escrita ou aquilo que foi escrito. No vocabulário cristão, passou a ser utilizada especialmente para designar as Escrituras Sagradas. Assim, sola scriptura pode ser traduzido como “somente a Escritura” ou “somente pelas Escrituras”, conforme o contexto da tradução.

Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] [SUB12] AS CINCO SOLAS DA REFORMA PROTESTANTE. Luciano Subirá.

[Vídeo] A IGREJA CATÓLICA NOS DEU A BÍBLIA? (SOLA SCRIPTURA). Dois Dedos de Teologia.

Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com suas respectivas respostas, deste conceito essencial para o protestantismo.

O que significa sola scriptura?

Sola scriptura significa que a Escritura Sagrada é a autoridade final e infalível para a fé e a prática cristã. Outras autoridades, como tradições, credos e líderes da Igreja, podem ser importantes, mas devem permanecer subordinadas ao ensino das Escrituras.

Quem criou o sola scriptura?

Nenhum reformador inventou isoladamente o conceito de autoridade bíblica. A Reforma Protestante desenvolveu uma formulação específica sobre a supremacia das Escrituras, especialmente no século XVI. Martinho Lutero tornou-se um dos principais símbolos dessa posição, mas outros reformadores também contribuíram para seu desenvolvimento.

Sola scriptura significa rejeitar a tradição?

Não. O sola scriptura clássico não rejeita toda tradição cristã. Credos, escritos dos Pais da Igreja e confissões podem auxiliar a Igreja na compreensão da fé. O princípio estabelece que essas fontes possuem autoridade subordinada e devem ser avaliadas de acordo com a Escritura.

Qual é a diferença entre sola scriptura e solo scriptura?

Sola scriptura afirma a supremacia normativa da Escritura sem necessariamente rejeitar tradição, credos ou estudos teológicos. Solo scriptura é frequentemente utilizado para descrever uma abordagem mais individualista, na qual somente o texto bíblico é considerado relevante. A distinção ajuda a diferenciar a doutrina clássica da Reforma de interpretações mais radicais.

Quais são os principais textos bíblicos usados para defender o sola scriptura?

Entre os textos mais utilizados estão 2 Timóteo 3:16-17, Atos 17:11, Isaías 8:20, Mateus 15:1-9 e Gálatas 1:8-9. Esses textos são interpretados por teólogos protestantes como evidências da inspiração, autoridade e prioridade da Palavra de Deus.

Fontes

[1] MCGRATH, Alister. Teologia Sistemática, Histórica e Prática. São Paulo: Vida Nova, 2017.

[2] LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal, 1989. Volume 2.

[3] GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.

[4] BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. Volume 1.

Demais fontes

[5] SPROUL, R. C. Sola Scriptura: A Posição Protestante sobre a Escritura. São José dos Campos: Fiel, 2013.

[6] GLOCK, Albert E. Scriptura. In: BROMILEY, G. W. (Ed.). International Standard Bible Encyclopedia. Grand Rapids: Eerdmans, 1988.

[7] CHURCH OF ENGLAND. The Book of Common Prayer. London: Cambridge University Press, 1662.

[8] WESLEY, John. The Works of John Wesley. Grand Rapids: Baker Book House, 1971.

[9] CONCÍLIO VATICANO II. Dei Verbum: Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1965.

[10] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. A transmissão da revelação divina. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1992.

[11] LOSSKY, Vladimir. The Mystical Theology of the Eastern Church. Crestwood: St Vladimir’s Seminary Press, 1976.

[12] PELIKAN, Jaroslav. The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine. Chicago: University of Chicago Press, 1971. Vol. 1.

Diego Pereira do Nascimento
Últimos posts por Diego Pereira do Nascimento (exibir todos)

Mais artigos