Os queneus, também chamado de quenitas, foram um povo nômade que viveram na região de Canaã e foram contemporâneos de diversos eventos bíblicos importantes. Apesar de serem pouco mencionados no texto bíblicos, tiveram uma participação considerável na relação com alguns personagens, como Moisés e Débora.
Neste artigo queremos apresentar os aspectos históricos, culturais e religiosos deste povo, além de sua relação com o povo de Israel.
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Origem do povo Queneu
A origem do povo queneu não é clara, mas diversas hipóteses baseadas nos achados arqueológicos e relatos bíblicos buscam desvendar sua verdadeira. Nesta seção queremos apresentar as principais hipóteses e defender a que cremos ser a mais correta.
Mitos sobre a origem do povo
A principal hipótese diz que este povo descende de Caim, o primeiro filho de Adão e Eva. Essa hipótese se baseia no fato do nome queneu em hebraico (קֵינִי) e o nome de Caim (קַיִן) serem muito semelhantes. [1]
A outra hipótese diz que são descentes de Cainã, também chamado de Quenã, filho de Enos, filho de Sete que foi filho de Adão.
Esta hipótese também se baseia no fato do nome Cainã (קֵינָן), em hebraico, também ser parecido ao nome do povo (קֵינִי). Além de ambos estarem relacionados a genealogia dos patriarcas de Israel (Gn 5).

Controvérsia desta teoria
Apesar de interessantes essas duas hipóteses, ambas de mostram falhas, visto que o após o dilúvio todos os povos anteriores deixaram de existir.
O texto é claro em afirmar que após o dilúvio, apenas a família de Noé sobreviveu e todos os povos da terra descendem de seus filhos Sem, Cam e Jafé.
Um terceira hipótese, muito plausível, diz que eles se originaram de um povo anterior a Abraão, provavelmente semitas. Sendo, segundo essa hipótese, descendentes de Sem, filho de Noé.
Essa origem semita se baseia em Gênesis 15:19, na qual Deus diz que daria as terras dos quenezeus, cadmoneus e queneus a Abraão.
“Naquele dia , o Senhor fez a seguinte aliança com Abrão: ‘Aos seus descendentes dei esta terra, desde o ribeiro do Egito até o grande rio, o Eufrates: a terra dos queneus, dos quenezeus, dos cadmoneus […]’ ”
Gênesis 15:18-19
Com base nisto, podemos afirmar que existiu um povo que se denominava queneus, que viviam na terra de Canaã muito antes da chegada e ocupação israelita.
Porém, não é possível associar este mesmo povo aos personagens Héber, esposo de Jael, e Jetro, sogro de Moisés. Personagens esses descritos como pertencentes ao povo Queneu (Jz 1:16; Jz 4:11).

Possível origem dos queneus em Midiã
Uma quarta hipótese, que cremos ser a mais plausível, diz que este povo descende de Midiã, filho de Abraão com Quetura, o patriarca dos midianitas.
Esse hipótese está baseada nos relatos bíblicos de Números 10:29 e Juízes 1:16, no qual Reuel/Jetro, sogro de Moisés, é chamado tanto de midianita quanto de queneu. Isso sugere que os esses povos possuem a mesma origem, ou que um desses povos se ramificou do outro.

Segundo essa hipótese Héber e Jetro pertenceriam a um povo que descende de Midiã. Entretanto como conciliar o fato de ter existido um povo queneu anterior a Abrão e um povo após Abraão.
Podemos supor que um povo se ramificou dos midianitas e se mesclaram com os antigos queneus, formando assim o novo povo, mas usando um nome antigo.
Defendemos a origem do povo como sendo em Midiã, entretanto reconhecemos que não é possível negar um outro povo de mesmo nome mais antigo. Devido a falta de evidências arqueológicas, a origem deste povo continua incerta e sendo considerada um mistério.
Metalurgia dos queneus
Com base na interpretação crítica dos dados bíblicos, os quenitas eram originalmente identificados como um clã seminômade estabelecido na fronteira sul de Judá. Sua caracterização principal estava ligada à indústria do cobre na região de Aravá [2].
A ligação entre os quenitas e o trabalho com metais é reforçada por diversas evidências e estudos. Já em 1899, o arqueólogo Archibald Sayce sugeriu que os quenitas eram uma tribo de ferreiros.
Esta hipótese, baseada nas referências bíblicas e na possível conexão etimológica de “quenita” com a metalurgia (ferraria/cobre), levou vários estudiosos a associar o clã quenita à extração e processamento de metais [3].
Religião dos queneus
A religião deste povo é incerta, algumas fontes sugerem que politeístas, enquanto outras dão a entender que apesar de reconhecerem a existência de diversos deuses, adoravam apenas um.
É possível que inicialmente os quneus, como os demais povos cananeus, adorassem os deuses locais, como Baal, Astarote, Aserá e Quemos. E com o passar dos anos, e relações com os israelitas, cressem no Senhor, Deus de Israel.
Os queneus tiveram contato com o Deus israelita através de Jetro, sogro de Moisés. Jetro ensinou os princípios bíblicos para seu povo, e posteriormente ofereceu sacrifícios ao Senhor, junto dos anciões de Israel (Ex 18:9-12).
Mesmo com Jetro realizando um sacrifício ao Senhor, não é possível dizer que todo o seu povo se converteu a Deus.
O que podemos supor é que, assim como ocorreu com os israelitas, havia uma religião mista, com alguns crendo em Deus e outros crendo nas divindades pagãs dos povos vizinhos.

História dos queneus
Os queneus são mencionados diversas vezes ao longo do Antigo Testamento, nesta seção vamos apresentar os principais relatos e sua importância para o desenvolvimento da história do povo israelita.
Período do Êxodo
O principal personagem do povo queneu relatado na Bíblia foi Jetro, também chamado de Reuel, o sogro de Moisés. Ele foi um pastor e sacerdote de seu povo. Deu sua filho Zípora em casamento para Moisés, depois que este fugiu do Egito.
Jetro também foi importante para a organização dos israelitas pós exílio. Ele aconselhou Moisés a levantar líderes entre o povo, para o ajudarem a julgar as questões das pessoas. Esses líderes foram responsáveis por auxiliar Moisés na resolução de conflitos entre as pessoas durante todo o período do êxodo.
Jetro e a fé drusa
Jetro é considerado um profeta na religião drusa e no islamismo, onde ele é chamado de Shoaib. Reconhecido, por essas religiões, por sua sabedoria e mensagem de justiça.
Queneus amaldiçoados por Balaão
Os queneus acompanharam os israelitas durante toda sua peregrinação pelo deserto rumo a Terra Prometida, participando e auxiliando em algumas batalhas.
Por conta deste apoio, eles foram amaldiçoados por Balaão, que lhes disse que um dia seriam levados como escravos para Assur, a primeira capital da Assíria (Nm 24:21-22).

Conquista de Canaã
Após a conquista de Judá, e diversas cidades da região da Judeia, o texto de Juízes 1:16 nos relata que os queneus, que acompanhavam os israelitas desde o êxodo, decidiram viver no deserto do Neguebe, como um povo nômade.
Batalhas de libertação durante a liderança da juíza Débora
Por volta do ano 1240 a.C. os cananeus de Hazor, liderados pelo rei Jabim II e seu general Sísera, passam a crescer militar a dominar os povos da região, dentre eles os israelitas.
Como forma de proteger seu povo, Héber, um dos chefes das famílias dos queneus, realiza um acordo de paz com o cananeus, garantindo a segurança de seu povo.
A Bíblia é clara em dizer que essa opressão sofrida por Israel foi resultado da apostasia do povo, que preferiram se voltar contra Deus, adorando os deuses dos povos vizinhos.

Deusa usa Jael, do povo queneu, para matar Sísera
Após 20 anos de opressão, os israelitas se voltaram novamente ao Senhor, clamando por socorro, que levanta Débora e Baraque, filho de Abinoão, para libertá-los.
Os cananeus, mesmo possuindo um exército mais poderoso, sofreram uma massiva derrota nas proximidades do monte Tabor e do Rio Quisom. Com essa derrota, Sísera fugiu e buscou socorro na tenda de Héber, que estava localizada na tribo de Naftali próximas as cidade de Zaanim e Quedes.
A Bíblia nos diz que Jael, esposa de Héber, recebe Sísera e o esconde. Entretanto quando Sísera estava dormindo, Jael o mata com um martelo e um prego, que lhe furou o crânio.

Monarquia israelita
Conforme se passaram os anos, os queneus migraram para diversas regiões de Canaã, até se estabelecerem nas terras dos amalequitas.
Durante o reinado de Saul, primeiro rei de Israel, houve guerra entre os israelitas e os amalequitas. Apesar do conflito entre esses povos, os queneus foram poupados, pois Saul se lembrou da bondade que demonstraram para com os israelitas durante o êxodo.
“Retirem-se, saiam do meio dos amalequitas para que eu não os destrua junto com eles; pois vocês foram bondosos com os israelitas, quando eles estavam vindo do Egito”
1 Samuel 15:6 (NVI)
Posteriormente, também durante uma guerra entre os israelitas e amalequitas, o então rei de Israel, Davi, enviou despojos de guerra para as cidades dos queneus, em um gesto de gratidão pela boa relação entre os povos (1 Sm 30:26–31).
Desaparecimento dos queneus
Não é possível dizer com certeza quando o povo queneu deixou de existir, ou mesmo em que período da história desapareceram.
É provável que com o crescimento das nações vizinhas e as constantes invasões/dominações de Canaã por povos estrangeiros, como Assírios, Babilônicos e Sírios, sua cultura tenha sido assimilada por essas nações e/ou seu povo tenha sido escravizado em outras terras, como os israelitas.
Alguns creem que a maldição de Balaão se cumpriu e eles foram derrotas e levados escravos pelos Assírios.
Queneus e o povo Kinaidokolpitai
A proposta de que o povo bíblico dos Quenitas (ou Queneus) possa ter dado origem aos Kinaidokolpitai é uma hipótese levantada por alguns estudiosos da história do Oriente Médio, com base em registros geográficos e históricos da Arábia Antiga.
Embora não seja um consenso amplamente estabelecido na historiografia, ela oferece uma perspectiva sobre a mobilidade e a influência dos clãs semitas na transição entre o Bronze Tardio e o Ferro.
Contexto histórico
O nome hebraico, Qēynī, tem sido etimologicamente ligado à palavra para “ferreiro” ou “metalúrgico” (possivelmente de qayin, significando “lança” ou “trabalho de metal”), sugerindo que esta era a principal ocupação do clã [4].
A presença quenita é notável por sua relação pacífica com Israel (Moisés casou-se com Zípora, filha de Jetro, um sacerdote/líder quenita). O povo era conhecido por sua habilidade em metalurgia e sua participação nas rotas de comércio de cobre da região, como as minas de Timna [4].
Sua migração, por vezes, levava membros para o norte, como atestam Jael e sua família que se estabeleceram perto de Quedes, no território de Naftali. Essa mobilidade é um ponto-chave para a hipótese de sua ligação com povos árabes do sul.
Identificação dos Kinaidokolpitai
O nome Kinaidokolpitai é uma designação encontrada em textos gregos e romanos, principalmente na Geografia de Ptolomeu (século II d.C.) [5].
Este povo era localizado em uma região costeira do Mar Vermelho, na parte ocidental da Arábia, que hoje corresponde aproximadamente à área de Yanbu ou Al-Wajh, no território da Arábia Saudita.
A tradução literal do termo grego é crucial: Kolpitai significa “habitantes do Golfo” ou da baía, e Kinaidos pode ser traduzido como “homem sinuoso”, “danzarino” ou, mais pejorativamente, “afeminado” [6]. No entanto, a sugestão mais aceita para a conexão Quenitas-Kinaidokolpitai não se baseia na tradução pejorativa, mas sim numa transcrição fonética do nome do clã semita.

Conexão linguística e geográfica
A principal tese para ligar os Quenitas aos Kinaidokolpitai reside na equivalência fonética proposta e na rota migratória.
Correspondência fonética
Acredita-se que o nome grego Kinaidokolpitai é uma helenização (adaptação grega) do nome árabe ou semita Qēynī (Quenita) [7]. A pronúncia semita do nome, possivelmente ligada à raiz para ferreiro (qyn), teria sido percebida pelos geógrafos gregos como Kinai ou Kinaidos [7].
Assim, Kinaidokolpitai seria uma forma grega de se referir aos “Quenitas do Golfo”.
Continuidade geográfica
A arqueologia demonstrou que as atividades de metalurgia do cobre, que eram a marca dos Quenitas (Aravá/Neguebe), estendiam-se ao longo da margem leste do Mar Vermelho, em uma região conhecida por rotas de caravanas e comércio [7].
A migração de clãs seminômades do Aravá para a Arábia ocidental (a região de Hejaz) era um fenômeno comum. Esta rota para o sul explicaria a presença de um grupo com um nome distintivo de “Quenitas” na costa do Mar Vermelho [7].
Associação com midianitas
Os quenitas são frequentemente associados aos Midianitas na Bíblia, e os Midianitas são conhecidos por terem exercido grande influência no noroeste da Arábia [8].
Se os Midianitas e Quenitas tinham laços estreitos e compartilhamento de rotas, é plausível que o clã quenita tenha se estabelecido na mesma área que mais tarde foi registrada por Ptolomeu.
Etimologia e significado de Queneu
O significado do nome queneu também é incerto, mas existem algumas possibilidades com base em sua etimologia e simbologia. Uma delas é este nome signifique algo como “ferreiro” ou “metalúrgico”. Pois o nome queneu, no hebraico Qēinī (קֵינִי), possui sua raiz na palavra hebraica qyn (קין), que significa “forjar” ou “fabricar”.
Dessa forma um possível significado do nome é “povo da forja”.
Aprenda mais
[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.
[Vídeo] Qual a origem dos povos? Árabes, Israelitas, Moabitas, Filisteus e muito mais!. Israel com Aline.
[Vídeo] Evidências – Religião Hebraica e Cananita. Evidências com Rodrigo Silva.
[Vídeo] Queneus. Teológico | Bíblia & Teologia.
Perguntas comuns
Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com suas respectivas respostas, sobre este antigo povo cananeu.
Quem era o queneu que era sogro de Moisés?
O sogro de Moisés era Jetro, também conhecido como Reuel ou Hobabe (este último sendo seu cunhado em algumas passagens), e ele é identificado nas Escrituras como um queneu e sacerdote de Midiã (Êxodo 3:1; Juízes 1:16).
O que é queneu na Bíblia?
Os queneus eram uma tribo nômade ou seminômade que vivia na região do Sinai e do sul de Canaã. Eram conhecidos pela metalurgia e pastoreio, mantendo relações geralmente amigáveis e de aliança com os israelitas.
Quem em Juízes é descrito como queneu?
Em Juízes, Héber e sua esposa, Jael, são descritos como queneus (Juízes 4:11). Jael é famosa por ter matado o comandante cananeu Sísera, que havia fugido para sua tenda.
Quem são os queneus hoje?
Não há um grupo étnico ou povo identificável como os queneus modernos. Eles eram uma tribo nômade que se assimilou e foi incorporada aos israelitas ou a outras populações vizinhas ao longo do tempo, como sugerem as referências aos recabitas.
Fontes
[1] Strong’s Concordance #7014 Archived 2014-02-22 at the Wayback Machine.
[2] Leuenberger, Martin (2017). “Queneus I. Bíblia Hebraica/Antigo Testamento” . Em Helmer, Christine; McKenzie, Steven L.; Romer, Thomas; Schroter, Jens; Dov Walfish, Barry; Ziolkowski, Eric J (eds.). Enciclopédia da Bíblia e sua recepção . Vol. 15 Kalam – Lectio Divina. Walter de Gruyter. pág. 112.
[3] Sayce, AH (1899). “Kenitas”. Em James Hastings (ed.). Um Dicionário da Bíblia. Vol. II. pág. 834.
Demais fontes
[4] Sayce, A. H. (1899). Dicionário Bíblico de Hastings.
[5] Ptolomeu. Geografia. (Século II d.C.).
[6] Liddell, H. G., & Scott, R. (1940). A Greek-English Lexicon.
[7] Hitti, P. K. (1970). History of the Arabs. Palgrave Macmillan.
[8] Bienkowski, P., & Millard, A. (Eds.). (2000). Dictionary of the Ancient Near East. University of Pennsylvania Press.
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