Muralhas de Jericó

Muralhas de Jericó: Descubra como caíram segundo a Bíblia, o que a arqueologia encontrou e quando ocorreu a destruição da cidade.

Ilustração da queda das muralhas de Jericó

A queda das muralhas de Jericó são um dos acontecimento mais conhecidos do livro de Josué e também um dos temas mais discutidos quando a narrativa bíblica é comparada com a arqueologia e a história da região do Levante.

Este artigo apresenta o relato da conquista, explica como eram as antigas fortificações de Jericó, resume as principais escavações e mostra o que as evidências arqueológicas permitem afirmar sobre a queda da cidade.

História das muralhas de Jericó na Bíblia

O relato da conquista aparece principalmente em Josué 6. Depois de atravessar o Jordão, os israelitas chegaram diante de Jericó, uma cidade fortificada. Deus ordenou que o povo marchasse ao redor da cidade durante seis dias, acompanhado pelos sacerdotes que carregavam a arca da aliança.

No sétimo dia, os israelitas deveriam dar sete voltas. Depois do toque das trombetas, todo o povo deveria gritar. O texto afirma que, então, “o muro caiu abaixo” e os israelitas entraram na cidade. A narrativa apresenta a queda das fortificações como uma intervenção de Deus em favor de Israel (Josué 6:1-20). [1]

A conquista também envolve Raabe, que havia escondido os dois espias enviados anteriormente por Josué. Por ter protegido os mensageiros, ela e sua família receberam permissão para sair da cidade antes da destruição. O episódio ocupa parte importante da narrativa e é retomado posteriormente no Novo Testamento (Josué 2:1-21; 6:22-25; Hebreus 11:31). [1]

Depois da destruição, Josué pronunciou uma maldição contra quem reconstruísse Jericó. Séculos depois, durante o reinado de Acabe, Hiel, de Betel, reconstruiu a cidade, e o relato de 1 Reis relaciona a reconstrução à palavra pronunciada por Josué (Josué 6:26; 1 Reis 16:34).

Ilustração da queda das muralhas de Jericó
Ilustração da queda das muralhas de Jericó

A queda das muralhas e a interpretação bíblica

Dentro do próprio relato de Josué, a queda das muralhas não é apresentada como resultado de uma técnica militar empregada pelos israelitas. O texto atribui diretamente o acontecimento à ação de Deus. A marcha, as trombetas e o grito do povo fazem parte da ordem recebida antes da queda das fortificações (Josué 6:2-20). [1]

O episódio também possui importância teológica dentro da narrativa de Josué. Jericó é apresentada como a primeira grande cidade conquistada na entrada de Israel em Canaã, e sua derrota demonstra, segundo o texto, que a vitória não dependeu da capacidade militar dos israelitas.

A narrativa ainda relaciona a conquista à obediência. Israel deveria seguir as instruções dadas por Deus, enquanto Acã posteriormente seria responsabilizado por violar as determinações relacionadas aos objetos destinados à destruição (Josué 6:17-19; 7:1-26). Assim, a queda de Jericó faz parte de uma narrativa maior sobre conquista, obediência e julgamento.

Por que as muralhas de Jericó são tão importantes?

As muralhas de Jericó ocupam uma posição singular porque permitem comparar três conjuntos de informações: o relato bíblico, os vestígios arqueológicos e as diferentes propostas cronológicas. Cada um desses elementos responde a perguntas diferentes.

A Bíblia descreve uma conquista específica e atribui a queda das muralhas à ação de Deus. A arqueologia demonstra a existência de fortificações antigas e várias destruições no local.

Já a cronologia arqueológica procura determinar quando cada estrutura foi construída, modificada ou destruída.

Essa distinção evita dois erros opostos: usar qualquer muralha antiga como prova automática de Josué ou ignorar as evidências arqueológicas simplesmente porque elas não resolvem todas as questões levantadas pelo texto bíblico.

Ilustração da antiga cidade de Jericó
Ilustração da antiga cidade de Jericó

Como eram as muralhas de Jericó?

A arqueologia mostra que Jericó realmente teve sistemas de fortificação muito antigos. O sítio de Tell es-Sultan, associado à antiga Jericó, preserva estruturas defensivas que remontam ao período Neolítico. A UNESCO identifica uma muralha, um fosso e uma torre construídos durante o 9º e o 8º milênio a.C. [2]

As fortificações posteriores também eram complexas. Durante a Idade do Bronze, Jericó possuía sistemas defensivos formados por muros, aterros e estruturas de tijolos de barro. A UNESCO destaca especialmente as fortificações do Bronze Médio, que demonstram técnicas construtivas avançadas para seu período. [2]

Isso é importante porque demonstra que a imagem bíblica de Jericó como uma cidade fortificada possui um contexto histórico plausível. A existência de muralhas antigas, entretanto, não identifica automaticamente quais delas correspondem às estruturas mencionadas no relato de Josué.

Foto das escavações de Tell es-Sultan
Foto das escavações de Tell es-Sultan

As escavações das muralhas de Jericó

As primeiras grandes escavações modernas foram realizadas por Ernst Sellin e Carl Watzinger, entre 1907 e 1909. O trabalho revelou diferentes fases de ocupação e fortificação, mas a interpretação da cronologia permaneceu problemática porque os métodos arqueológicos disponíveis ainda eram limitados. [3]

Escavações de John Garstang

Entre 1930 e 1936, o arqueólogo britânico John Garstang conduziu novas escavações. Ele encontrou restos de muralhas e evidências de destruição por fogo e interpretou parte dessas estruturas como pertencente ao período associado à conquista israelita. Garstang chegou a propor uma data por volta de 1400 a.C. para a destruição. [4]

Escavações de Kathleen Kenyon

Décadas depois, Kathleen Kenyon realizou novas escavações entre 1952 e 1958. Seu trabalho modificou significativamente a interpretação anterior. Kenyon concluiu que algumas das muralhas atribuídas por Garstang à época de Josué pertenciam, na realidade, a períodos anteriores, especialmente à Idade do Bronze Antiga e Média. [3]

As diferenças entre Garstang e Kenyon mostram por que não é suficiente encontrar uma muralha caída e simplesmente associá-la ao relato bíblico.

A arqueologia precisa estabelecer a data, o contexto, a sequência estratigráfica e a relação entre cada estrutura e os demais vestígios encontrados no local.

Foto de escavações no sítio arqueológico em Jericó
Foto de escavações no sítio arqueológico em Jericó

As muralhas de Jericó realmente caíram?

A resposta depende do que se entende por “confirmar”. A arqueologia confirma que Jericó possuía antigas fortificações e que algumas delas foram destruídas em diferentes momentos.

Ela não permite afirmar, de maneira simples, que uma determinada muralha identificada nas escavações seja definitivamente aquela que caiu durante a conquista narrada em Josué.

Discussão cronológica

O problema principal é cronológico. A destruição da cidade no final da Idade do Bronze Médio é atualmente datada por análises de radiocarbono para o final do século XVII ou para o século XVI a.C. [5] Essa cronologia não coincide automaticamente com todas as propostas para a conquista israelita.

As pesquisas também precisam considerar que Tell es-Sultan passou por numerosas fases de ocupação.

A UNESCO registra 29 fases de ocupação arqueológica no sítio, desde os primeiros assentamentos até períodos posteriores. Portanto, diferentes muralhas e estruturas podem pertencer a épocas muito distintas. [2]

Isso explica parte da controvérsia. Garstang interpretou determinados vestígios de maneira favorável à narrativa bíblica, enquanto Kenyon chegou a conclusões diferentes ao analisar a estratigrafia e a cerâmica.

Estudos posteriores continuam examinando os dados arqueológicos e as datações disponíveis.

Foto de John Garstang
Foto de John Garstang

O que a arqueologia confirma sobre Jericó?

A arqueologia confirma que Jericó foi um assentamento muito antigo e que possuía fortificações impressionantes. Tell es-Sultan contém evidências de ocupação desde aproximadamente 10.500 a.C. e apresenta uma longa sequência de desenvolvimento urbano. [2]

Também existem evidências claras de sistemas defensivos durante diferentes períodos. A UNESCO descreve estruturas monumentais do Neolítico e importantes fortificações da Idade do Bronze, demonstrando que a cidade tinha capacidade para construir e manter grandes obras defensivas. [2]

O que a arqueologia não consegue estabelecer com a mesma segurança é a identificação de uma determinada camada de destruição como a queda das muralhas descrita em Josué 6. Para fazer essa identificação seria necessário estabelecer uma correspondência cronológica e histórica muito mais precisa entre os vestígios e o relato bíblico.

Por isso, afirmar que “a arqueologia provou a queda das muralhas de Jericó” vai além das evidências disponíveis. Da mesma maneira, afirmar que “a arqueologia provou que o relato bíblico é impossível” também simplifica um debate que envolve cronologia, interpretação dos textos e diferentes modelos sobre a formação de Israel. [3][4][5]

Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] A cidade mais antiga do mundo: Como é Jericó na Palestina onde Jesus viveu e tem conflito com Israel. Viaje por conta.

[Vídeo] Conhecendo Jericó bíblica! As muralhas de Josué, o monte da Tentação e a Árvore de Zaqueu! Israel com Aline.

Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre esta importante muralha descrita na Bíblia.

Como as muralhas de Jericó caíram?

Segundo o relato de Josué 6, os israelitas marcharam ao redor da cidade durante sete dias. No sétimo dia, depois de sete voltas, os sacerdotes tocaram as trombetas e o povo gritou. Então, as muralhas caíram, permitindo que os israelitas entrassem na cidade.

Quem derrubou as muralhas de Jericó?

A Bíblia atribui a queda das muralhas à ação de Deus. Josué e os israelitas seguiram as instruções recebidas, mas o texto não apresenta a queda como resultado de uma estratégia militar convencional. O acontecimento é descrito como parte da intervenção de Deus na conquista de Jericó.

As muralhas de Jericó realmente existiram?

Sim. Escavações arqueológicas em Tell es-Sultan, sítio associado à antiga Jericó, encontraram diferentes sistemas de fortificação construídos em períodos distintos. A existência de muralhas antigas é bem documentada, embora não seja possível identificar com certeza quais estruturas correspondem às muralhas mencionadas em Josué 6.

A arqueologia confirma a queda das muralhas de Jericó?

A arqueologia confirma que Jericó teve muralhas e passou por episódios de destruição, mas não existe consenso de que os vestígios encontrados correspondam exatamente à conquista descrita em Josué 6. A principal discussão envolve a datação das estruturas e sua relação com a cronologia do relato bíblico.

Quando as muralhas de Jericó caíram?

Não existe uma data arqueológica consensual para a queda das muralhas descritas no livro de Josué. Diferentes pesquisadores propuseram cronologias distintas para a destruição de Jericó, e as interpretações dependem da relação entre evidências arqueológicas, datações e a cronologia atribuída à conquista de Canaã.

Quem construiu as muralhas de Jericó?

As muralhas foram construídas e reconstruídas em diferentes períodos da história de Jericó. Tell es-Sultan apresenta várias fases de ocupação e fortificação, algumas muito anteriores ao período bíblico. Por isso, não é correto atribuir todas as muralhas encontradas no sítio a um único povo ou governante.

Quantas vezes os israelitas rodearam Jericó?

Durante os primeiros seis dias, os israelitas deram uma volta ao redor da cidade a cada dia. No sétimo dia, deram sete voltas. Assim, o relato de Josué 6 descreve treze voltas ao todo antes da queda das muralhas.

O que aconteceu com Jericó depois da queda das muralhas?

Segundo Josué 6, a cidade foi destruída e seus habitantes foram mortos, com exceção de Raabe e de sua família. Josué também pronunciou uma maldição contra quem reconstruísse Jericó. Séculos depois, 1 Reis 16:34 registra a reconstrução da cidade por Hiel, de Betel.

As muralhas de Jericó caíram por causa das trombetas?

O texto bíblico relaciona as trombetas, o grito do povo e a queda das muralhas, mas não afirma que o som das trombetas tenha causado fisicamente o desabamento. A narrativa apresenta o acontecimento como resultado da ação de Deus após Israel cumprir as instruções recebidas (Josué 6:16-20).

Quem foi Raabe na história das muralhas de Jericó?

Raabe era uma mulher que vivia em Jericó e recebeu os dois espias enviados por Josué. Ela os escondeu dos homens da cidade e ajudou-os a escapar. Quando Jericó foi conquistada, Raabe e sua família foram poupadas, conforme Josué 2:1-21 e Josué 6:22-25.

Fontes

[1] Bíblia Sagrada, especialmente Josué 2:1-21; 6:1-27; 7:1-26; 1 Reis 16:34; Hebreus 11:31.

[2] UNESCO World Heritage Centre. Ancient Jericho/Tell es-Sultan. A documentação descreve as fases de ocupação, as fortificações neolíticas e as estruturas da Idade do Bronze. UNESCO World Heritage Centre

[3] Kenyon, Kathleen M. Digging Up Jericho: The Results of the Jericho Excavations, 1952–1956. Praeger, 1957. A obra apresenta os resultados das escavações de Kenyon e sua interpretação das fortificações. eHRAF Archaeology

[4] Encyclopedia.com. Kenyon, Kathleen. Síntese histórica das escavações de Garstang e Kenyon e de suas diferentes interpretações sobre as muralhas de Jericó.

[5] Bruins, Hendrik J.; van der Plicht, Johannes. “Tell es-Sultan (Jericho): Radiocarbon Results of Short-Lived Cereal and Multiyear Charcoal Samples from the End of the Middle Bronze Age”. Radiocarbon, 1995. Cambridge University Press.

[6] Nigro, Lorenzo. “Jericho”. The Oxford Encyclopedia of the Bible and Archaeology. Oxford University Press, 2013. ResearchGate.

[7] Strong’s Hebrew Lexicon, entrada יְרִיחוֹ (Yərîḥô), nº 3405, com as principais propostas etimológicas para o nome Jericó.

Diego Pereira do Nascimento
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