Maria Madalena

Maria Madalena foi uma fiel discípula que apoiou o ministério de Jesus, testemunhou sua morte e foi a primeira a anunciar a ressurreição.

Ilustração de Maria Madalena

Maria Madalena é uma das personagens mais marcantes do Novo Testamento, frequentemente cercada por interpretações históricas incorretas. Ela se destacou como uma discípula dedicada de Jesus, presente em momentos decisivos de seu ministério, morte e ressurreição.

Este artigo analisa seu contexto histórico, sua real trajetória descrita nos Evangelhos, o significado de seu nome e sua importância teológica para a igreja cristã.

História de Maria Madalena

Os textos bíblicos não registram informações sobre a família de Maria Madalena, como o nome de seus pais, irmãos ou se ela foi casada. Sua identificação principal está associada à sua cidade natal, Magdala, na Galileia [1].

Local de nascimento de Maria Madalena

Magdala era uma próspera vila de pescadores e um movimentado centro industrial de salga de peixes no primeiro século, situada às margens do mar da Galileia [2].

Essa associação geográfica sugere que ela tinha certa independência financeira e social. O fato de ser chamada pelo nome de sua cidade, e não pelo nome de um marido ou pai, era incomum para a época.

Isso reforça a ideia de que ela era uma mulher autônoma, que possuía recursos próprios para apoiar financeiramente o ministério de Jesus [1].

Ilustração de Maria Madalena
Ilustração de Maria Madalena

Libertação de Maria Madalena

O Evangelho de Lucas apresenta Maria Madalena no início do ministério galileu de Jesus de forma direta. O texto afirma que ela foi liberta de sete demônios pelo poder de Cristo (Lucas 8:2).

e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios;

Lucas 8:2 | NVI

Essa condição espiritual anterior indica um período de profundo sofrimento físico, emocional e mental, do qual ela foi completamente resgatada pelo poder de Jesus [3]. A libertação gerou nela uma profunda gratidão e a levou, imediatamente, a ser seguidora de Cristo.

Ela foi, ativamente, seguidora de Jesus pela Judeia e Galileia. Lucas registra que ela, juntamente com Joana, Susana e outras mulheres, servia ao Cristo e seus discípulos, com seus próprios bens (Lucas 8:3).

O termo grego para “servir” (diakoneo) aponta para um suporte prático, mostrando que essas mulheres financiavam as viagens e as necessidades básicas do ministério do Messias [4].

A conversão de Maria Madalena (c. 1548) de Paolo Veronese
A conversão de Maria Madalena (c. 1548) de Paolo Veronese

A fidelidade de Maria Madalena na crucificação e ressurreição

A fidelidade de Maria Madalena se destacou no momento de maior abandono de Jesus por seus seguidores próximos.

Enquanto a maioria dos discípulos homens fugiu com medo da prisão e da crucificação romana, ela permaneceu perto da cruz. Os Evangelhos registram sua presença ao lado de outras mulheres, testemunhando a agonia e a morte do Salvador no Calvário (Marcos 15:40) [5].

Ela também observou atentamente onde o corpo do Senhor foi sepultado por José de Arimateia naquela mesma tarde (Mateus 27:61).

Maria Madalena e a ressurreição de Cristo

No primeiro dia da semana, bem cedo, ela retornou ao sepulcro para ungir o corpo com especiarias aromáticas preparadas [3]. Essa atitude corajosa mostra que seu compromisso prático com Jesus superava o medo das autoridades romanas e judaicas instaladas em Jerusalém.

No jardim do sepulcro, ela se tornou a primeira testemunha da ressurreição de Jesus Cristo. João relata o encontro onde o Salvador ressuscitado a chama pelo nome (João 20:16).

¹⁶ — Maria! — disse Jesus.

Então, voltando-se para ele, Maria exclamou em hebraico:

— Raboni! — que significa “Mestre!”

João 20:16 | NVI

Ela se tornou historicamente conhecida na tradição antiga como a anunciadora da ressurreição [5].

Morte de Maria Madalena

Não há um relato bíblico sobre a morte de Maria Madalena, o que abriu espaço para duas grandes tradições históricas divergentes.

Tradição oriental

No Oriente, a tradição mais antiga aponta que ela se retirou para Éfeso (atual Turquia) junto com Maria, mãe de Jesus, e o apóstolo João. Maria Madalena teria falecido de causas naturais e sido sepultada na entrada de uma caverna na cidade [63].

No século IX, seus supostos restos mortais foram transferidos para o Mosteiro de São Lázaro, em Constantinopla [63].

Tradição ocidental

Já no Ocidente, a lenda medieval francesa, eternizada na Lenda Dourada, afirma que ela viajou de barco até o sul da França [67].

Maria Madalena teria vivido seus últimos trinta anos como eremita em uma caverna na Provença. Ao sentir a proximidade da morte, recebeu a Eucaristia do bispo Maximino, chorou de alegria e faleceu pacificamente [67].

Maria Madalena vista como prostituta

A representação popular de Maria Madalena como uma prostituta teve início no ano de 591, quando o Papa Gregório I, em um sermão de Páscoa, uniu a história de Maria Madalena (mencionada em Lucas 8:2) com Maria de Betânia (Lucas 10:39) e com a “mulher pecadora” anônima que ungiu os pés de Jesus em Lucas 7:36–50.

Essa interpretação errada resultou na crença generalizada no Ocidente de que ela teria sido uma prostituta arrependida ou uma mulher promíscua [7].

Lendas medievais

A partir disso, surgiram lendas medievais elaboradas na Europa Ocidental, que narravam histórias romantizadas sobre sua suposta riqueza, beleza e uma eventual viagem ao sul da Gália (atual França).

Essa fusão identitária gerou grande controvérsia nos anos que antecederam a Reforma Protestante, sendo rejeitada por diversos líderes reformadores.

Posteriormente, durante a Contrarreforma, a Igreja Católica reforçou a imagem de Maria Madalena como o principal símbolo da penitência [8][9].

Madalena penitente de Tintoretto (1598-1602)
Madalena penitente de Tintoretto (1598-1602)

Correção histórica

Essa distorção histórica só começou a ser corrigida oficialmente em 1969, quando o Papa Paulo VI removeu a identificação de Maria Madalena com Maria de Betânia e a “mulher pecadora” do Calendário Romano Geral.

Apesar da retificação teológica, a visão dela como uma ex-prostituta ainda permanece muito arraigada na cultura popular contemporânea [7][10].

Referências em escritos apócrifos

Para além dos textos canônicos do Novo Testamento, a figura de Maria Madalena gerou profundos desdobramentos na literatura cristã primitiva e nos debates teológicos dos primeiros séculos [10].

Escritos apócrifos e gnósticos

Os chamados escritos apócrifos mencionam Maria Madalena de forma recorrente. Embora alguns desses textos tenham sido citados como escrituras por comunidades cristãs isoladas, eles nunca foram admitidos no cânone oficial do Novo Testamento, sendo amplamente rejeitados pelas tradições católica, ortodoxa e protestante [10].

Escritos em períodos muito tardios em relação à vida da histórica Madalena, esses registros não são validados por historiadores e biblistas contemporâneos como fontes fidedignas de sua biografia [11].

O consenso acadêmico reintera que o material apócrifo é majoritariamente lendário e mitológico, restando pouquíssimos elementos que possam remontar faticamente ao período de Jesus [10][11].

Apesar do caráter tardio, as obras modernamente têm sido promovidas em narrativas sensacionalistas a respeito de um suposto relacionamento íntimo entre Jesus e Maria [11].

Nos textos de vertente gnóstica, como o Diálogo do Salvador (século IV), o Pistis Sophia (século II), o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe e o Evangelho de Maria, ela assume um papel de centralidade [12].

Nestas tradições, ela é retratada como a discípula favorita e uma visionária com sabedoria superior, o que frequentemente a coloca em embates intelectuais e de liderança contra o apóstolo Simão Pedro [12][13].

Diálogo do Salvador

Datado do século IV e encontrado fragmentado em Nag Hammadi, este texto gnóstico traz um diálogo entre Jesus, Maria, Tomé e Mateus [15][16].

Na fala 53, a obra atribui diretamente a Maria três aforismos que no Novo Testamento pertencem a Jesus, elogiando-a como uma “mulher que entendia tudo” [16].

Fragmento de um texto apócrifo do século IV, Diálogo do Salvador
Fragmento de um texto apócrifo do século IV, Diálogo do Salvador

Pistis Sophia

Este tratado do século II é o mais extenso manuscrito gnóstico sobrevivente e apresenta diálogos de Jesus com seus seguidores [13][17][18]. Maria Madalena realiza 39 das 64 perguntas feitas ao mestre [13].

No escrito, Jesus exalta seu privilégio espiritual, chamando-a de “bendita” e mais “abençoada do que todas as mulheres” [13][18].

Esse destaque desperta o ressentimento de Pedro, que protesta contra o domínio dela na conversação, levando Maria a relatar que teme a hostilidade do apóstolo contra o gênero feminino, embate que Jesus pacifica garantindo proteção a ela [18].

Evangelho de Tomé

Composto por 114 ditos e datado entre os séculos I e II, este texto de Nag Hammadi traz paralelos com os evangelhos canônicos e provérbios inéditos que alguns pesquisadores associam ao Jesus histórico [19][20][21][22]. Maria é mencionada nominalmente duas vezes [20].

No dito 21, ela faz uma pergunta simples sobre os discípulos [23]. Já o dito 114 registra uma forte controvérsia: Pedro pede a expulsão de Maria por julgar que as mulheres “não são dignas da vida”, e Jesus responde afirmando que a guiaria para torná-la “macho” (um espírito vivente), concluindo que a mulher que se fizer homem entrará no reino dos céus [23][24].

Códice II , um dos escritos gnósticos mais proeminentes encontrados na biblioteca de Nag Hammadi. Aqui estão mostrados o final do Apócrifo de João e o início do Evangelho de Tomé
Códice II , um dos escritos gnósticos mais proeminentes encontrados na biblioteca de Nag Hammadi. Aqui estão mostrados o final do Apócrifo de João e o início do Evangelho de Tomé

Evangelho de Filipe

Apresenta Maria como koinônos (companheira ou parceira) de Jesus [12]. Na teologia gnóstica, o termo assume conotação de parceria espiritual e reunificação da alma com o reino divino, distanciando-se de noções estritamente românticas [12][14].

O texto também alude ao ato de Jesus beijá-la, uma prática comum de saudação fraternal na igreja primitiva conhecida como o “beijo da paz”, que simbolizava a transmissão da verdade e do conhecimento espiritual entre os crentes [14].

Evangelho de Maria

Destaca-se por ser o único apócrifo sobrevivente que traz o nome de uma mulher em seu título [13]. Nele, Maria consola e lidera os apóstolos após a ressurreição, sendo defendida por Mateus contra as contestações de Pedro e André a respeito de sua autoridade doutrinária [13].

Irmã, sabemos que o Salvador te amou mais do que as outras mulheres. Diga-nos as palavras do Salvador que você lembra e conhece, mas nós não as conhecemos, nem as ouvimos”.

Maria respondeu e disse: “O que está escondido de você eu te anunciarei”. E ela começou a falar com estas palavras: “Eu”, disse ela, “vi o Senhor numa visão e disse-lhe: Senhor, hoje te vi numa visão”.

Trecho do apócrifo Evangelho de Maria, p. 74

Visão dos borboritas

Os borboritas (ou fibionitas) constituíam uma seita gnóstica do final do século IV que possuía diversos escritos focados em Maria Madalena, tais como As Perguntas de Maria, As Maiores Perguntas de Maria, As Perguntas Menores de Maria e O Nascimento de Maria [11][27].

Embora nenhum desses textos tenha sobrevivido, eles foram documentados pelo heresiólogo Epifânio de Salamina em sua obra Panarion [11][28].

As Maiores Perguntas de Maria de Epifânio

De acordo com o relato de Epifânio, o texto As Maiores Perguntas de Maria continha uma narrativa chocante e mística na qual Jesus, após a ressurreição, levava Maria ao topo de uma montanha, manifestava uma mulher de seu próprio lado e interagia sexualmente com ela, consumindo o próprio sêmen como um ato ritualístico de vida [11][27][28].

O choque da visão fazia Maria desmaiar, sendo repreendida por Jesus sobre sua pouca fé [27][28].

Historicamente, essa narrativa fundamentava o controverso ritual eucarístico dos borboritas, que supostamente incluía orgias litúrgicas e o consumo de fluidos corporais como representação do corpo e sangue de Cristo [27][29].

Contudo, historiadores modernos como Bart Ehrman questionam fortemente a precisão dos relatos de Epifânio, apontando que tais descrições assemelham-se muito aos boatos difamatórios comuns espalhados contra sociedades secretas na Antiguidade [28].

O Panarion de Epifânio. Uma fonte documental sobre as seitas heréticas do século IV
O Panarion de Epifânio. Uma fonte documental sobre as seitas heréticas do século IV

Perspectivas teológicas sobre Maria Madalena

A maioria dos primeiros Padres da Igreja fez menções breves ou omitiu Maria Madalena em seus tratados [15]. O registro visual mais antigo preservado de sua figura provém de um afresco datado de aproximadamente 240 d.C., localizado na Igreja de Dura Europo, retratando as mulheres aproximando-se do túmulo selado com tochas e jarros de mirra [11].

Na literatura patrística, os primeiros séculos debateram intensamente seu papel [15]. Críticos pagãos do cristianismo, como o filósofo Celso (c. 170-180 d.C.), tentaram desqualificar o testemunho cristão alegando que Maria Madalena era apenas uma “mulher histérica” que sofrera alucinações no jardim [15].

Essa acusação foi rebatida teologicamente por Orígenes, que ressaltou a validade do duplo testemunho contido nos Evangelhos [15].

Defesa contra críticas pagãs

Entre 170 e 180 d.C., o filósofo pagão Celso atacou o cristianismo em sua obra A Verdadeira Palavra, desqualificando Maria Madalena como uma “mulher histérica” que sofria de alucinações ou que inventou uma “história fantástica” sobre a ressurreição para impressionar os outros [37].

No século III, Orígenes defendeu a fé cristã em Contra Celso, apontando que Mateus 28:1 oferece um segundo testemunho ao mencionar “a outra Maria” ao lado de Madalena [38].

Orígenes também descartou as alegações de Celso de que grupos cristãos seguiam os ensinamentos de uma suposta “Mariamme” (identificada como Madalena) [39, 40].

Origem do estigma da prostituição

Embora os evangelhos canônicos jamais sugiram que Maria Madalena tenha sido prostituta ou que vivesse em pecado [41, 42], o cristianismo ocidental consolidou essa reputação devido à fusão de sua figura com Maria de Betânia e com a pecadora sem nome de Lucas 7 [41, 43].

O início do estigma (Século III)

Essa confluência começou cedo, ganhando contornos marcantes já no século III.

Ao citar o toque da “mulher pecadora” para provar a natureza física de Jesus, Tertuliano deu os primeiros indícios de uma confusão inicial de identidades entre as figuras bíblicas [38].

Pouco depois, um sermão da mesma época atribuído a Hipólito de Roma (Pseudo-Hipólito) aproximou definitivamente as trajetórias de Maria de Betânia e Maria Madalena no jardim da ressurreição [44].

O autor do texto as chamou de “segunda Eva” por sua obediência [30, 31] e utilizou o termo “apóstolas dos apóstolos” [45, 46, 47, 48], gerando uma forte associação litúrgica que influenciou diretamente a posterior comemoração de Madalena no dia 22 de julho no Missal Romano [35].

Afresco de Hipólito de Roma
Afresco de Hipólito de Roma

A consolidação do estigma (Século IV)

Essa fusão de identidades consolidou-se e deu um passo decisivo no século seguinte com os escritos de Efrém, o Sírio. Foi ele quem trouxe a primeira identificação clara de Madalena sob o estigma de uma pecadora redimida [49, 50].

Essa caracterização acabou sendo fortemente reforçada pela má fama da própria cidade natal da personagem, Magdala, que na época era amplamente associada à licenciosidade e aos excessos pelos comentadores [51].

Divergências teológicas sobre a real identidade de Maria Madalena

Os grandes teólogos do século IV e V divergiam sobre a real identidade de Madalena:

Gregório de Nissa

Gregório de Nissa focou o papel restaurador de Maria Madalena, definindo-a como a primeira testemunha da ressurreição, enviada para endireitar, pela fé, o que havia sido revertido pela transgressão feminina original [52].

Ambrósio

Ambrósio rejeitou a fusão das três mulheres bíblicas [53] e chegou a propor que a Bíblia retratava duas “Marias Madalenas” distintas: uma que descobriu o túmulo vazio e outra que conversou com Cristo ressuscitado [53, 54].

Agostinho de Hipona

Agostinho aceitou a possibilidade de que Maria de Betânia e a pecadora fossem a mesma pessoa [55], mas isolou Maria Madalena desse grupo [56], elogiando-a por possuir um amor extraordinariamente mais ardente do que o das outras seguidoras [56].

Agostinho de Hipona discutindo com os donatistas. Por Charles-André van Loo.
Agostinho de Hipona discutindo com os donatistas. Por Charles-André van Loo.

Visões na Idade Média

Durante a Idade Média a imagem de pecadora arrependida se misturou com a lenda de Maria do Egito (uma prostituta que virou eremita) e foi incorporada à liturgia da Missa Tridentina [60]. Esse retrato moldou a teologia e a arte do Ocidente por séculos, ajustando-se à centralidade da penitência medieval [59].

Em contrapartida, as Igrejas Ortodoxas Orientais nunca aceitaram essa fusão, mantendo Maria exclusivamente como discípula fiel [61].

Mesmo no Ocidente, a aceitação não foi universal: a Ordem de São Bento preservou celebrações separadas para as duas Marias [61] e teólogos como Ambrósio de Milão sugeriram que Madalena era virgem [62].

Tradições locais na Europa

As rotas de devoção criaram uma divisão geográfica nítida. A tradição oriental afirmava que ela havia se retirado para Éfeso com a mãe de Jesus, local de seu sepultamento antes de suas relíquias serem levadas a Constantinopla [63].

No Ocidente, o culto se consolidou a partir do século VIII [59], mas foi na Alta Idade Média que surgiram extensas biografias ficcionais para atender ao gosto popular por santos nobres, retratando-a como uma aristocrata rica que cometeu adultério e tornou-se pecadora pública antes de se isolar no deserto como asceta [64].

Em paralelo, pensadores como Pedro Abelardo resgataram sua autoridade teológica com o título de Apóstola dos Apóstolos [65].

O mito francês e a Lenda Dourada

Paralelamente, o Ocidente desenvolveu lendas de que Madalena viveu e morreu no sul da França [66].

A Abadia de Vézelay alegou ter descoberto seu esqueleto em 1050, mas a exclusividade foi contestada em 1279 por outra descoberta em Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, que ganhou a preferência papal e popular [66].

O relato mais importante dessa fase veio da Lenda Dourada (c. 1260), que a descreve como uma mulher belíssima que renunciou à riqueza e foi lançada ao mar em um barco sem leme, chegando a Marselha [67].

A obra narra que ela passou seus últimos trinta anos em uma caverna na Provença, sendo elevada por anjos a cada hora canônica [67].

Leitura de Maria Madalena (c. 1500 – 1510) de Piero di Cosimo
Leitura de Maria Madalena (c. 1500 – 1510) de Piero di Cosimo

Papel social na Idade Média

No plano social, a imagem de Madalena se tornou intimamente ligada aos leprosos devido à fusão com a família de Lázaro (associado ao mendigo leproso do Evangelho) e ao banquete na casa de Simão, o Leproso [68]. Por conta disso, ela virou a padroeira das colônias de leprosaria na Europa [68].

Essa percepção de pecadora regenerada inspirou campanhas de reabilitação social a partir do século XII na França, resultando na criação de conventos de caridade dedicados ao acolhimento de ex-prostitutas arrependidas (as chamadas convertite), movimento impulsionado por uma bula do Papa Gregório IX em 1227 [68].

Apesar da correção teológica feita pelo Vaticano, o mito da prostituta arrependida e novas teorias conspiratórias mantiveram forte presença na cultura de massa [69]. Recentemente, a música, o cinema e a literatura continuaram a disputar essa narrativa através de três vertentes principais:

Maria Madalena no cinema e teatro

O entretenimento musical e cinematográfico do século XX optou por manter viva a imagem da pecadora ligada à sexualidade, explorando o drama do arrependimento e da tensão afetiva [69]:

  • A Última Tentação de Cristo (Romance e Filme de 1988): Reforçou o estigma clássico da prostituta ao humanizar excessivamente a relação biográfica [69].
  • Jesus Cristo Superstar (Ópera Rock de 1971): Através da icônica canção “I Don’t Know How to Love Him”, a obra explorou abertamente uma forte tensão física e romântica entre Madalena e Jesus [70].
  • “Judas” de Lady Gaga (Música de 2011): No cenário pop contemporâneo, a cantora resgatou a persona tradicional ao retratar explicitamente a santa como uma prostituta que se considera além do arrependimento [71].

Menção à Maria Madalena no O Código Da Vinci

Em 2003, o best-seller O Código Da Vinci, de Dan Brown, massificou uma série de visões historicamente errôneas que ganharam enorme tração no imaginário popular [72]:

  • Linhagem Sagrada: O livro alegou sem evidências que Madalena pertencia à tribo de Benjamim, casou-se com Jesus e estava grávida na crucificação, gerando uma linhagem real [72].
  • O Código na Pintura: Popularizou a tese de que a figura feminina à direita de Cristo na Última Ceia de Leonardo da Vinci seria Madalena disfarçada [73].
  • A Refutação da Arte: Historiadores da arte contestam o livro apontando que a figura é o apóstolo João (pintado de forma andrógina pelo estilo de Leonardo) e que não haveria motivo para disfarçá-la, já que ela era amplamente reverenciada pelos dominicanos como Apóstola dos Apóstolos [74].

Etimologia e significado de Maria Madalena

O nome Maria é a forma grega (Maria ou Mariam) do nome hebraico Miriam, que remonta à irmã de Moisés no Antigo Testamento. Embora a etimologia exata de Miriam seja debatida, os significados mais prováveis incluem “rebelde”, “senhora” ou “aquela que é amada” [6].

No contexto do Novo Testamento, era o nome feminino mais comum na Judeia do primeiro século [2].

O sobrenome “Madalena” funciona como um adjetivo pátrio, derivado do termo aramaico Magdala, que significa “torre” ou “fortaleza” [6].

Teologicamente, essa designação combina de forma perfeita com sua trajetória pessoal. De uma mulher atormentada por espíritos malignos, ela foi transformada em uma coluna de fé, firme como uma torre, cuja confissão da ressurreição ajudou a estabelecer o testemunho da igreja primitiva [4].

Perguntas comuns

Veja abaixo as principais perguntas, com suas respectivas respostas, que as pessoas fazem sobre Maria Madalena.

Qual é a história da Maria Madalena?

Ela era uma mulher de Magdala curada por Jesus de sete demônios. Tornou-se uma de suas seguidoras mais fiéis, financiou o ministério dele, testemunhou a crucificação e foi a primeira pessoa a ver e anunciar Jesus ressuscitado.

Quem foi Maria Madalena?

Uma das discípulas mais importantes de Jesus no Novo Testamento. Ela liderava o grupo de mulheres que apoiava o movimento cristão primitivo e é reconhecida como a “Apóstola dos Apóstolos” por anunciar a ressurreição.

Qual Maria era apaixonada por Jesus?

A Bíblia não diz que nenhuma Maria era apaixonada romanticamente por Jesus. Tanto Maria Madalena quanto Maria de Betânia demonstravam profunda devoção, amor espiritual e gratidão religiosa por ele, mas sem teor romântico.

Como Jesus chamava Maria Madalena?

Nos textos bíblicos originais, Jesus a chamava pelo seu nome, “Maria” (ou Mariam, em aramaico). No momento da ressurreição, ao ouvi-lo pronunciar seu nome de forma familiar, ela o reconheceu imediatamente.

Porque Maria Madalena tinha 7 demônios?

A Bíblia (Lucas 8:2) menciona apenas que Jesus expulsou sete demônios dela, o que na época indicava sofrimento extremo, possivelmente associado a graves doenças físicas ou mentais, e não a pecados morais.

Qual é a frase famosa de Maria Madalena?

“Vi o Senhor!” (João 20:18). Esta é a sua frase mais célebre, dita aos apóstolos ao retornar do túmulo vazio, tornando-se o primeiro anúncio da ressurreição de Cristo.

Qual foi o erro de Maria Madalena?

Historicamente, nenhum “erro” grave é registrado na Bíblia. O maior erro associado a ela foi um equívoco histórico da própria Igreja, que a confundiu por séculos com uma pecadora anônima e prostituta.

Maria Madalena era rica?

Há fortes indícios de que Maria Madalena fosse rica. Lucas 8:3 afirma que ela e outras mulheres usavam “seus próprios bens” para sustentar Jesus e os doze apóstolos, sugerindo que possuía posses e independência financeira.

Qual foi o final de Maria Madalena?

A Bíblia não registra sua morte. Tradições orientais dizem que ela foi para Éfeso com Maria, mãe de Jesus, e lá faleceu. Tradições ocidentais francesas dizem que ela evangelizou o sul da França.

Qual papa difamou Maria Madalena?

O Papa Gregório I (Gregório Magno), no ano 591. Em uma homilia, ele unificou erroneamente Maria Madalena, a pecadora de Lucas 7 e Maria de Betânia em uma única pessoa, rotulando-a de prostituta.

Como Jesus achou Maria Madalena?

O texto bíblico não detalha o primeiro encontro geográfico, mas relata que Jesus a encontrou em um estado de profunda aflição espiritual e física, libertando-a dos sete demônios que a atormentavam.

Qual é a salmo de Maria Madalena?

Não existe um salmo escrito por ela ou oficialmente dela na Bíblia. Contudo, na tradição litúrgica, o Salmo 63 (“Ó Deus, tu és o meu Deus, ansiosamente te busco”) é frequentemente associado à sua busca por Jesus no sepulcro.

Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] Rodrigo Silva analisa a vida de Maria Madalena. Rodrigo Silva Arqueologia.

Fontes

[1] BAUCKHAM, Richard. Gospel Women: Studies of the Named Women in the Gospels. Grand Rapids: Eerdmans, 2002.

[2] KEENER, Craig S. The IVP Bible Background Commentary: New Testament. Downers Grove: InterVarsity Press, 2014.

[3] GREEN, Joel B. The Gospel of Luke (New International Commentary on the New Testament). Grand Rapids: Eerdmans, 1997.

[4] FRANCE, R. T. The Gospel of Matthew (New International Commentary on the New Testament). Grand Rapids: Eerdmans, 2007.

Demais fontes

[5] CARSON, D. A. The Gospel According to John (Pillar New Testament Commentary). Grand Rapids: Eerdmans, 1991.

[6] BROMILEY, Geoffrey W. (Ed.). The International Standard Bible Encyclopedia (ISBE). Grand Rapids: Eerdmans, 1986.

[7] ALMADA, P. Gonçalo Portocarrero de. Maria Madalena: a apóstola dos apóstolos. Observador, 22 de julho de 2017.

[8] EL PAÍS. Maria Madalena era “uma mulher rica”, não uma prostituta. Disponível em portais de notícias El País.

[9] MEYERS, Carol L. Women in Scripture: A Dictionary of Named and Unnamed Women in the Hebrew Bible, the Apocryphal/Deuterocanonical Books, and the New Testament. Boston: Houghton Mifflin, 2000.

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[11] EHRMAN, Bart D. Lost Christianities: The Battles for Scripture and the Faiths We Never Knew. Oxford: Oxford University Press, 2003.

[12] MEYERS, Carol L. Women in Scripture: A Dictionary of Named and Unnamed Women in the Hebrew Bible. Grand Rapids: Eerdmans, 2000. (Referência duplicada ajustada para o contexto do afresco).

[13] PAGELS, Elaine. Os Evangelhos Gnósticos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

[14] KING, Karen L. The Gospel of Mary of Magdala. Santa Rosa: Polebridge Press, 2003.

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[17] MEAD, G. R. S. Pistis Sophia: A Gnostic Miscellany. London: John M. Watkins, 1921.

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[24] GARTNER, Bertil. The Theology of the Gospel According to Thomas. New York: Harper & Brothers, 1961.

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[56] HERZOG, William R. Prophet and Teacher: An Introduction to the Historical Jesus. Westminster John Knox Press, 2005.

[57] Homilia do Papa Gregório I (591) e a fusão das três figuras bíblicas.

[58] Transformação dos sete demônios nos sete pecados capitais na teologia medieval.

[59] Consolidação do culto ocidental e a associação do pecado feminino à sexualidade (cf. Beda e Victor Saxer).

[60] Incorporação da imagem composta na Missa Tridentina e fusão com a hagiografia de Maria do Egito.

[61] Rejeição oriental à imagem composta e distinção litúrgica mantida pela Ordem Beneditina.

[62] Defesa da virgindade de Madalena na patrística por Ambrósio de Milão e João Crisóstomo.

[63] Tradição de Éfeso e Constantinopla sobre o sepultamento e translado das relíquias no Oriente.

[64] Biografias ficcionais da Alta Idade Média sobre a nobreza e o adultério de Madalena (Odão de Cluny e Honório de Autun).

[65] Uso e consolidação do título apostolorum apostola por Pedro Abelardo e outros abades.

[66] Disputas de relíquias e sepultamentos na França entre as abadias de Vézelay e Saint-Maximin.

[67] Narrativa da viagem e isolamento na Provença segundo a Legenda Áurea de Giácomo de Voragine.

[68] Padroado das colônias de leprosos (“casas de Maudlin”) e fundação dos conventos para as convertite.

[69] Repercussão cultural moderna e permanência do estigma em A Última Tentação de Cristo (Nikos Kazantzakis / Martin Scorsese).

[70] Caracterização romântica e recepção de Madalena na ópera rock Jesus Christ Superstar (Andrew Lloyd Webber).

[71] Apropriação e releitura pop da figura de Madalena na faixa contemporânea “Judas” de Lady Gaga.

[72] Mitos sobre casamento, gravidez e linhagem sagrada no romance O Código Da Vinci de Dan Brown.

[73] Alegações e debates sobre a identidade e o suposto disfarce de Maria Madalena no afresco da Última Ceia.

[74] Refutação de historiadores da arte (como Ross King) com base na iconografia de João Evangelista e no papel de Madalena junto aos dominicanos.

[75] Análise crítica, proposta histórica e desconstrução de estigmas no filme Maria Madalena (2018).

[76] Uso de literatura extracanônica e recepção do público ao Evangelho Gnóstico de Maria no cinema atual.

Diego Pereira do Nascimento
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