Dagom é uma divindade pagã de origem fenícia, adorada por diferentes povos cananeus e mesopotâmicos. No Antigo Testamento da Bíblia, essa foi a principal divindade cultuada pelos filisteus.
Frequentemente retratado como uma divindade com corpo humano e com calda de peixe, similar as sereias. Era associado a agricultura e pescaria, principal fonte de riquezas dos povos cananeus e mesopotâmicos, sendo considerado o deus da prosperidade pelos povos que o cultuavam.
Neste artigo apresentamos a história deste deus pagão, assim como as características de adoração a ele.
Você também pode ouvir nosso podcast sobre Dagom.
Mitologia fenícia e surgimento de Dagom
A religião fenícia se caracterizava pelo politeísmo e pela descentralização, onde cada cidade cultuava suas próprias deidades.
Embora a influência de Dagom fosse ampla, espalhando-se entre cananeus e mesopotâmicos, sua identidade variava muito.
Por exemplo, enquanto os hurritas reverenciavam Dagom como o “pai dos deuses” com esposa e filhos (Shalash, Hadad e Hebat) [1], os filisteus o adoravam de forma isolada.
Curiosamente, divindades como Baal e Astarote eram frequentemente mais disseminadas, mas Dagom manteve um papel de destaque, especialmente na região filisteia.

Genealogia: De El a Hadad
A genealogia de Dagom possui divergências entre os textos e inscrições antigas. Em algumas versões ele colocado como filho de El, o principal deus fenício e pai de todos os demais, e irmão de Baal. Em outras versões ele possui dois irmãos, Baal e Mot.
Alguns povos, como os Hurritas, descreviam Dagom como tendo esposa e filhos. Sua esposa seria Shalash e seus filhos Hadad e Hebat [1].
Culto e adoração: Rituais de prosperidade
Sendo uma divindade agrícola, Dagom estava associado à fertilidade e à colheita abundante. Os fenícios acreditavam que ele tinha o poder de conceder prosperidade, abundância de alimentos e sucesso na colheita.
Por possuir características de peixe, ele também foi associado aos mares. Sendo considerado o “deus” dos mares e dos peixes e reverenciado pelos pescadores/navegantes.
Rituais de culto
Os rituais de culto envolviam sacrifícios nos templos, oferendas e cerimônias de agradecimento das colheitas.
Templos de adoração foram construídos em diversas cidades fenícias e mesopotâmicas, mesmo sendo uma divindade menos cultuada do que Baal e Astarote, por exemplo.
A Bíblia nos relata que um grande para adoração a Dagom existiu na cidade de filisteia de Asdode.

Relatos bíblicos sobre Dagom
Os relatos bíblicos de Dagom, estão associados a culto realizado a ele pelo povo filisteu em suas cidades.
Sansão e Dagom
A primeira menção a Dagom na Bíblia, ocorre no capítulo 16 do livro de Juízes. No qual Sansão, então juiz israelita, foi capturado pelos filisteus e levado para o templo de adoração a este deus na cidade de Gaza.
Sansão foi humilhado, teve seus olhos furados e ficou acorrentado a duas colunas do templo, enquanto os chefes filisteus comemoravam sua captura.
O texto nos diz que o juiz pediu força a Deus uma última vez. O Senhor lhe concedeu força e Sansão fez com que o templo desmoronasse sobre os filisteus, matando todos.
Acredita-se que essa derrota do juiz Sansão sobre os filisteus fez com que os exércitos inimigos reduzissem consideravelmente, diminuindo por alguns anos os conflitos entre os israelitas e as cidades filisateias.

Arca da aliança levada para o templo de Dagom
Outra referência bíblica muito importante ocorre no capítulo 15 de 1 Samuel. Nele, os filisteus capturam a Arca da Aliança dos israelitas e a levam para o templo de Dagom na cidade de Asdode.
Em Asdode a estátua do deus cai diversas vezes perante a Arca da Aliança e Deus envia pragas e doenças sobre o povo da cidade. A arca é levada posteriormente a diversas outras cidades filisteias até ser devolvida para Israel.
Os relatos bíblicos evidenciam a relevância e adoração que os filisteus davam a sua divindade, do mesmo modo que exaltam a superioridade de Deus ante os deuses pagãos, provando que eles não possuíam poder.

Herança de Dagom: Influência em Israel e povos locais
A adoração a Dagom deixou uma marca não apenas histórica, mas também geográfica em Israel.
O nome da divindade é preservado em alguns topônimos (nomes de lugares), servindo como um lembrete físico da antiga presença filisteia e cananeia.
A cidade de Bete-Dagom [7], mencionada no Antigo Testamento, provavelmente era um centro de culto ao deus-peixe, mantendo a memória da adoração mesmo após a ocupação israelita.
Essa permanência aponta para a dificuldade de erradicar completamente a influência cultural e religiosa dos povos anteriores, reforçando a constante luta de Israel contra a idolatria, que era um desafio não apenas espiritual, mas também territorial.

Sincretismo na diáspora
O culto a Dagom pode ter tido repercussões até mesmo no judaísmo da Diáspora e no período helenístico. Com a ascensão da cultura grega, as divindades locais eram frequentemente identificadas com deuses gregos (sincretismo).
Alguns estudiosos sugerem que a iconografia deste deus pagão (o homem-peixe) pode ter se misturado com representações de Poseidon ou de outras divindades marítimas, mantendo uma forma latente de adoração entre os descendentes dos povos cananeus [8].
Este sincretismo mostra como a influência pagã se transformava e persistia no mundo mediterrâneo, sendo um desafio contínuo ao judaísmo que tentava se manter puro em um contexto multicultural e helenizado.
Dagom e Poseidon
É comum associarem Dagom a Poseidon devido às suas ligações com a água [11]. A principal razão é a iconografia de Dagom: ele é frequentemente retratado como uma criatura metade homem e metade peixe, similar a Tritão, filho de Poseidon [12]. Por essa semelhança visual, ele é ligado ao panteão marítimo grego, governado por Poseidon.
Contudo, suas origens são diferentes. Poseidon era o deus primário do mar e das tempestades [11]. O deuses filisteu, por outro lado, era originalmente o deus dos grãos (dagan) [11]. Ele só adquiriu a forma de peixe e os atributos marítimos após ser adotado pelos Filisteus, um “Povo do Mar” [9].
Não há prova de que Dagom influenciou a mitologia mais antiga de Poseidon. As semelhanças icônicas são resultado de um sincretismo cultural comum e independente no Mediterrâneo, onde as culturas adaptavam e trocavam deuses [10].
| Característica | Dagom (Cananeu/Filisteu) | Poseidon (Grego) |
| Domínio Primário | Agricultura (Grãos) e Pesca/Mar. | Mar, Terremotos, Cavalos e Águas. |
| Iconografia Típica | Metade Homem, Metade Peixe (Sereia/Merman); ou deus barbado. | Homem barbado e forte com Tridente. |
| Função de Fertilidade | Deus dos grãos (dagan); associado à colheita e subsistência. | Ligado à fertilidade da terra (pode fazer brotar água do solo) e patrono dos cavalos. |
| Poder Destrutivo | Traz pragas e doenças como castigo (1 Samuel 5). | Ira violenta que causa terremotos e tempestades no mar. |
| Posição no Panteão | Pai de Baal (em algumas culturas cananeias); principal deus dos Filisteus. | Um dos Três Governantes do Cosmos (com Zeus e Hades). |
| Sincretismo Comum | Às vezes comparado a Poseidon/Netuno devido à sua forma de homem-peixe e domínio marítimo. | Equivalente romano é Netuno; sincretizado com divindades marítimas locais. |
Dagom e Enki
A associação entre Dagom e Enki se deu devido suas muitas semelhanças, e por serem cultuados praticamente pelos mesmo povos.
Enquanto Dagom era originalmente o deus dos grãos [9] e se tornou um deus do mar salgado (homem-peixe) com a adoção filisteia (1 Samuel 5), Enki era o deus da sabedoria e das águas doces subterrâneas (Abzu) [13]. Essa associação de ambos a água, fez com que fossem confundidos em alguns momentos.
Segundo a mitologia suméria, Enki tinha a função de criador e organizador, sendo vital para a irrigação e a agricultura mesopotâmica [14]. Dagom, ao contrário, representava o poder cananeu diretamente confrontado por Yahweh. Ambos eram vistos como fontes de sustento, mas em ecossistemas e panteões distintos.
| Característica | Dagom (Cananeu/Filisteu) | Enki (Mesopotâmico/Sumério) |
| Domínio Primário | Agricultura (Grãos/Cereal) e Pesca/Mar. | Águas Doces (Abzu), Sabedoria, Magia e Artesanato/Criação. |
| Iconografia Típica | Metade Homem, Metade Peixe. | Deus barbado com águas fluindo de seus ombros; acompanhado de cabras e golfinhos. |
| Função de Criação/Ordem | Traz a ordem para a agricultura e a pesca, garantindo a subsistência. | Organizador do mundo, criou rios (Tigre e Eufrates) e canais de irrigação, sendo essencial para a civilização. |
| Fertilidade/Sexualidade | Ligado à fertilidade da terra (colheitas). | Deus da fertilidade masculina; seu domínio sobre o Abzu (água subterrânea) é vital para a irrigação. |
| Posição no Panteão | Divindade ancestral, por vezes colocada acima de Baal. | Um dos Três Deuses Supremas (com Anu e Enlil); detentor da sabedoria e das leis (meh). |
| Sincretismo Comum | Sua forma de peixe é o ponto central da sua iconografia. | Equivalente acadiano é Ea; associado ao deus-peixe Oannes em alguns contextos tardios. |
Referências a Dagom na cultura popular
Dagom influenciou diversas obras da cultura popular. No entanto, é notável que muitas delas se baseiam mais na especulação em torno do deus peixe do que em fontes primárias e investigações modernas.
Entre os exemplos mais proeminentes estão os poemas:
- “Samson Agonistes” e “Paraíso Perdido” de John Milton;
- “Dagon” e “A Sombra Sobre Innsmouth”, obras de H.P. Lovecraft;
- “Middlemarch” de George Eliot;
- “King of Kings” de Malachi Martin. [5]
Curiosamente, até mesmo uma espécie extinta de baleia de bico pré-histórica, denominada Dagonodum mojnum, foi batizada com o nome desta divindade. [6]
Origem e significado de Dagom
O nome Dagom, é uma latinização do palavra dagan utilizada em registro fenícios e hebraicos. O significado desta palavra é muito debatido entre os historiadores, não tendo um consenso real sobre o significado do nome. As traduções mais aceitas associam o nome ao mar e as colheitas.
Uma das hipóteses menos aceitas diz que o nome tem origem no termo das línguas semíticas “dgn”, que daria a interpretação dele ser uma divindade do clima [2]. Essa hipótese é pouco aceita porque os artefatos arqueológicos sempre associam essa divindade a colheita e a pesca.
Outra possível tradução do nome, diz que seu nome deriva do termo fenício “dag”, que significa peixe. Entretanto a tradução do nome dagan do hebraico significa “grão”, o que dificulta a aceitação desta hipótese [3].
O mais aceito com base na tradução do hebraico e nos escritos do autor fenício Sanchuniathon é que este nome signifique “grão” [4]. Dando a entender que esta divindade estava relacionada a colheita, plantio e prosperidade vindo da agricultura.
Aprenda mais
[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.
[Vídeo] Quem era Dagom na Bíblia? A HISTÓRIA DOS deuses FILISTEUS NA BÍBLIA. Histórias da Bíblia.
[Vídeo] Dagom. Teológico | Bíblia & Teologia.
Fontes
[1] Schwemer, Daniel (2007). “The Storm-Gods of the Ancient Near East: Summary, Synthesis, Recent Studies Part I” (PDF). Journal of Ancient Near Eastern Religions.
[2] Hutter, Manfred (1996). Religionen in der Umwelt des Alten Testaments I. Köln: Kohlhammer.
[3] Dagon. Infopédia.
Demais fontes
[4] Singer, Itamar (1992). “Towards the image of Dagon, the god of the Philistines”. Syria.
[5] Martin, Malaquias, Rei dos Reis: um romance da vida de David , Simon e Schuster, Nova York, 1980
[6] “Sønderjysk oldtidshval skal hedde ‘Mojn’” . 11 de outubro de 2016.
[7] Josué 15:41
[8] Clifford, Richard J. (1975). The Cosmic Mountain in Canaan and the Old Testament.
[9] Pope, M. H. (1955). El in the Ugaritic Texts.
[10] Clifford, Richard J. (1975). The Cosmic Mountain in Canaan and the Old Testament.
[11] Hesíodo. Teogonia.
[12] Apolônio de Rodes. Argonáuticas.
[13] Kramer, Samuel Noah (1963). The Sumerians.
[14] Black, Jeremy & Green, Anthony (1992). Gods, Demons and Symbols.
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