O Cronista é o termo teológico dado ao autor ou escola de autores anônimos responsáveis pelos livros de 1 e 2 Crônicas na Bíblia Hebraica, e frequentemente também associado aos livros de Esdras e Neemias [1].

A obra do Cronista oferece uma reinterpretação da história de Israel, cobrindo o período desde Adão até o decreto de Ciro, com uma perspectiva teológica particular destinada à comunidade judaica pós-exílica.

Este artigo explorará a identidade, o propósito e as principais ênfases teológicas da obra do Cronista, destacando sua contribuição singular para a compreensão da fé de Israel.

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História do Cronista

A obra do Cronista surgiu em um período crítico da história de Israel: o pós-exílio babilônico. Após o retorno dos exilados, a comunidade judaica enfrentava o desafio de reconstruir sua identidade, sua fé e sua nação em Judá [2].

Jerusalém estava em ruínas, o Templo havia sido destruído e a monarquia davídica, desfeita.

Nesse cenário, o Cronista buscou oferecer uma narrativa que servisse como encorajamento e guia para um povo desiludido e necessitado de reafirmar sua conexão com as promessas de Deus [3].

Comunidade pós-exílica

Os exilados que retornaram à Judá encontraram uma terra transformada e uma identidade fragmentada.

A perda do Templo e da monarquia davídica, instituições centrais da vida de Israel, exigia uma nova compreensão da aliança e do propósito divino para o povo.

O Cronista, ao recontar a história, direcionou sua mensagem para essa audiência específica, enfatizando a continuidade da aliança e a esperança de restauração, mesmo sob domínio estrangeiro [4].

Ilustração de um Cronista escrevendo em um pergaminho
Ilustração de um Cronista escrevendo em um pergaminho

Datação e autoria

Embora a tradição judaica atribua a autoria dos livros a Esdras, a maioria dos estudiosos modernos concorda que o Cronista é um autor anônimo ou um grupo de autores/editores que operou em algum momento entre o final do século V e meados do século IV a.C. [5].

Essa datação é inferida por referências genealógicas que se estendem até o período pós-exílico e por uma teologia que reflete as preocupações daquela época.


Ênfases teológicas da obra do Cronista

A obra do Cronista não é meramente um registro histórico; é uma teologia da história de Israel, cuidadosamente elaborada para transmitir verdades espirituais essenciais à sua audiência. O autor seletivamente incluiu e omitiu detalhes em comparação com os livros de Samuel e Reis para reforçar suas mensagens [6].

Legitimidade da dinastia davídica

Um dos pilares da teologia do Cronista é a incondicionalidade e a perpétua validade da aliança davídica. Enquanto os livros de Samuel e Reis apresentam os fracassos e pecados de Davi (como o adultério com Bate-Seba e o censo), o Cronista os omite, focando na eleição de Davi por Deus e em sua fidelidade geral [7].

Davi é retratado como o modelo ideal de rei, um arquiteto do Templo (mesmo que Salomão o tenha construído) e um líder que estabeleceu a adoração correta. Esta ênfase servia para inspirar esperança de que a promessa de um rei davídico ainda se cumpriria, talvez na figura do Messias esperado.

Centralidade do Templo e do Culto

O Templo de Jerusalém e suas práticas de adoração são de suma importância para o Cronista. Ele dedica vasto espaço à descrição da organização do sacerdócio, dos levitas, dos músicos e dos porteiros, e da preparação para a construção do Templo [8].

A obediência às leis do culto, a manutenção da pureza do Templo e a celebração das festas são apresentadas como caminhos para a bênção e a restauração.

Para a comunidade pós-exílica, sem um rei davídico, o Templo e o culto se tornaram o centro da identidade nacional e religiosa, um ponto de contato direto com a presença de Deus.

Planta do Templo de Salomão com medidas
Planta do Templo de Salomão com medidas

Teologia da retribuição imediata

O Cronista enfatiza uma teologia da retribuição muito clara e imediata: a obediência a Deus traz bênçãos e sucesso, enquanto a desobediência resulta em punição e desastre [9].

Esta teologia é aplicada rigorosamente aos reis de Judá. Por exemplo, enquanto Acaz e Manassés são retratados de forma muito negativa em Reis, o Cronista destaca momentos de arrependimento (no caso de Manassés) e as consequências diretas de suas ações, mostrando que a mão de Deus opera diretamente na história.

Essa perspectiva tinha a intenção de encorajar a comunidade a viver em retidão e confiança em Deus, pois suas ações teriam consequências diretas na vida do povo.

O papel dos levitas e sacerdotes

Em contraste com os livros anteriores, o Cronista dá grande destaque aos levitas e sacerdotes, descrevendo suas funções, suas linhagens e sua organização detalhada no serviço do Templo [10].

Eles são os guardiões da Torá e os mediadores da adoração, essenciais para a manutenção da relação de aliança entre Deus e seu povo.

Sua proeminência reflete a realidade pós-exílica, onde a autoridade religiosa e cúltica era central na ausência da autoridade real.

Ana apresentando seu filho Samuel ao sacerdote Eli
Gerbrand van den Eeckhout – Ana apresentando seu filho Samuel ao juiz Eli c.  1665

Relação do Cronista com os livros de Samuel e Reis

A obra do Cronista é notável por sua intertextualidade com os livros de Samuel e Reis. O Cronista não escreveu uma história completamente nova, mas reinterpretou e reescreveu a história encontrada nesses livros, utilizando-os como suas principais fontes [11].

Omissões Significativas

O Cronista omite várias narrativas presentes em Samuel e Reis que não se alinhavam com sua agenda teológica ou que poderiam diminuir a imagem de seus heróis, especialmente Davi.

  • Pecados de Davi: Há ausência da história de Davi com Bate-Seba e Urias, bem como a rebelião de Absalão e a crise da sucessão. O Cronista apresenta Davi como um rei quase perfeito, focado na preparação para o Templo [12].
  • História do Reino do Norte: O Reino do Norte (Israel) é em grande parte ignorado ou retratado negativamente. O foco está quase que exclusivamente no Reino do Sul (Judá), que possuía a linhagem davídica e o Templo em Jerusalém. Isso reforça a centralidade de Jerusalém e da dinastia de Davi [13].

Adições e Modificações

Além das omissões, o Cronista adicionou material significativo e modificou narrativas existentes para enfatizar seus temas.

  • Genealogias Extensas: O livro de 1 Crônicas começa com nove capítulos de genealogias que ligam Adão a Davi e às famílias pós-exílicas, estabelecendo a continuidade do povo de Deus e a legitimidade das linhagens sacerdotais e levíticas [14].
  • Discursos e Orações: Há a inclusão de longos discursos e orações atribuídos a figuras como Davi e Salomão, que articulam a teologia do Cronista sobre a aliança, a obediência e a esperança messiânica.
  • Detalhes do Culto: Descrições detalhadas da organização do Templo, dos sacerdotes, levitas, músicos e porteiros, que são muito mais elaboradas do que nos livros de Samuel e Reis.

Propósito do Cronista

O propósito primordial do Cronista era oferecer esperança e direção à comunidade pós-exílica. Ao recontar a história de Israel, o autor buscava:

  • Reafirmar a aliança davídica;
  • Incentivar a adoração correta;
  • Ensinar a responsabilidade individual e coletiva;
  • Promover a unidade.

Reafirmar a aliança Davídica: A chama da esperança monárquica

A espinha dorsal da teologia do Cronista é a aliança de Deus com Davi, a promessa divina de que sua linhagem reinaria para sempre (2 Samuel 7). Para a comunidade pós-exílica, que não tinha um rei descendente de Davi no trono, essa promessa poderia parecer vazia.

O Cronista enfrenta essa crise de fé de frente. Ele reconta a história de Israel de forma a idealizar os reinados de Davi e Salomão, apresentando-os como a era de ouro da nação.

Críticas ao cronista

O autor de Crônicas, ao escrever sobre o Rei Davi, escolheu focar em sua devoção a Deus e seu papel na preparação para a construção do Templo, em vez de narrar seus erros morais, como o adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias

A intenção era mostrar Davi como um exemplo de líder que busca a Deus de todo o coração, especialmente no que diz respeito à adoração.

Essa abordagem visava reforçar a ideia de que a promessa de Deus a Davi (a aliança davídica) era inabalável, mesmo após o exílio e a destruição do reino.

A figura do rei Davi, nesse contexto, serve como um símbolo de esperança para o povo, apontando para a vinda de um Messias, o “Filho de Davi”, que restauraria a glória do reino.

David levanta a cabeça de Golias conforme ilustrado por Josephine Pollard (1899)
David levanta a cabeça de Golias conforme ilustrado por Josephine Pollard (1899)

Incentivar a adoração correta: O Templo como o coração da nação

Para o autor de Crônicas, o Templo de Jerusalém era o centro da vida de Israel. Ele dedicou grande parte de sua escrita para descrever a construção do Templo, a organização de sacerdotes e levitas, e as celebrações religiosas. O objetivo era encorajar o povo a restabelecer a adoração a Deus como a base de sua comunidade.

O Cronista via a fidelidade no culto como um fator diretamente ligado às bênçãos e à presença de Deus. Ele não apenas narrou a história, mas também forneceu um guia para a comunidade pós-exílio, mostrando que a adoração sincera era essencial para buscar a Deus, obter perdão e garantir a prosperidade e segurança da nação.

Ensinar a responsabilidade: A teologia da retribuição imediata

Uma das principais características de Crônicas é a teologia da retribuição imediata.

O autor mostra que a obediência a Deus traz bênçãos imediatas, como paz e prosperidade, enquanto a desobediência resulta em punições rápidas, como derrotas militares. Um exemplo é o rei Manassés, que no livro de Reis é retratado como a causa do exílio de Israel.

No entanto, o Cronista adiciona um detalhe curioso: Manassés se arrepende e é restaurado ao seu trono.

Essa história serve como um poderoso incentivo para o povo pós-exílio, mostrando que o arrependimento sincero pode reverter o julgamento e trazer restauração, e que a obediência a Deus no presente é o que garante um futuro de bênçãos.

O Rei Uzias Acometido de Lepra por Rembrandt de 1635
O Rei Uzias Acometido de Lepra por Rembrandt de 1635

Promover a Unidade: As genealogias e a visão de “Todo o Israel”

Os primeiros nove capítulos de Crônicas, com suas longas genealogias, eram cruciais para a audiência original. Elas serviam para conectar a comunidade que retornava do exílio ao seu passado glorioso e provar que eram os herdeiros legítimos das promessas de Deus.

O autor também usa a expressão “Todo o Israel” e inclui as tribos do norte, mesmo se concentrando no reino do sul, para promover a unidade. A intenção era incentivar todos os descendentes de Jacó a se unirem em torno do Templo de Jerusalém como um único povo com uma identidade e propósito compartilhados.


Etimologia e significado de Cronista

O termo Cronista deriva da palavra grega chronos, que significa “tempo”, e está associado a “crônica”, um registro de eventos em ordem cronológica. No contexto bíblico e teológico, o “Cronista” não é um nome próprio, mas uma designação atribuída pelos estudiosos ao autor anônimo ou à escola redatorial que compilou os livros de 1 e 2 Crônicas.

Em hebraico, os livros são chamados Divrei HaYamim (דברי הימים), que se traduz literalmente como “As Palavras dos Dias” ou “Os Acontecimentos dos Dias”, uma expressão que sublinha a natureza de registro histórico, mas que o Cronista molda para fins teológicos [15].

Essa designação reflete a percepção de que o autor está apresentando uma “crônica” da história de Israel, embora com uma perspectiva e propósito distintos dos historiadores modernos.

O Cronista seleciona, edita e reorganiza o material histórico para comunicar uma mensagem teológica específica sobre a continuidade da aliança de Deus, a centralidade do Templo e a importância da obediência para a comunidade pós-exílica. Portanto, “Cronista” não é apenas um historiador, mas um teólogo que interpreta a história para edificar e instruir o povo de Deus.


Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] Cronista Significado Bíblico | ¿Qué Significa Cronista en la Biblia? Significado Bíblico.

[Vídeo] Estilos literários na Bíblia. Bible Project.


Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com suas respectivas respostas, acerca deste termo.

O que é ser cronista?

Cronista, atualmente, é a pessoa que registra, analisa e interpreta eventos, buscando extrair lições e conectar o passado com o presente. No período bíblico, este termo é usado para se referir ao autor de Primeira e Segunda Crônicas.

O que faz o cronista?

O cronista seleciona e organiza fatos, muitas vezes de uma perspectiva específica, para construir uma narrativa coerente, ensinar e encorajar uma comunidade.

O que significa cronista?

O termo “cronista” vem do grego khronos (tempo). Literalmente, é um “registrador do tempo”, alguém que narra eventos em ordem cronológica.

O que era cronista na Bíblia?

Na Bíblia a palavra cronista é usada para se referir ao autor dos livros de Crônicas. Ele recontou a história de Israel com foco na adoração, no Templo e na esperança do Messias para encorajar os judeus pós-exílio.


Fontes

[1] Bromiley, G. W. (ed.). The International Standard Bible Encyclopedia, Revised. Grand Rapids: Eerdmans, 1979–1988, s.v. “Chronicles, Books of.”

[2] Longman, Tremper, III and Dillard, Raymond B. An Introduction to the Old Testament. 2nd ed. Grand Rapids: Zondervan, 2006, pp. 201-210.

[3] Dillard, Raymond B. 2 Chronicles. Word Biblical Commentary. Dallas: Word, Incorporated, 1987, pp. xv-xvi.

Demais fontes

[4] Japhet, Sara. I & II Chronicles: A Commentary. Old Testament Library. Louisville: Westminster John Knox Press, 1993, pp. 1-15.

[5] Leithart, Peter J. 1 & 2 Chronicles. Brazos Theological Commentary on the Bible. Grand Rapids: Brazos Press, 2014, pp. 1-10.

[6] Merrill, Eugene H. “The Chronicler’s History: A Look at the Major Issues.” Bibliotheca Sacra 164 (October-December 2007): 403-417.

[7] Allen, Leslie C. 1 & 2 Chronicles. The Old Testament Library. Louisville: Westminster John Knox Press, 2016, pp. 1-10.

[8] Kaiser, Walter C., Jr. Toward an Old Testament Theology. Grand Rapids: Zondervan, 1978, pp. 165-175.

[9] Klein, Ralph W. 1 Chronicles. Hermeneia. Minneapolis: Fortress Press, 2006, pp. 1-20.

[10] Malone, Andrew S. 1 and 2 Chronicles. Tyndale Old Testament Commentaries. Downers Grove: InterVarsity Press, 2018, pp. 10-20.

[11] Mitchell, Christine M. The New Testament and the Chronicler’s History: A Reconsideration of the Relationship between Early Christianity and Jewish Historiography. Tübingen: Mohr Siebeck, 2003.

[12] Mildenhall, F. W. The Chronicler’s Theology: Solomonic Narrative as a Reflection of Israel’s Covenant with God. Lanham, MD: University Press of America, 2009.

[13] Dillard, R. “Chronicles, Books of.” In The New Interpreter’s Dictionary of the Bible. Nashville: Abingdon Press, 2006-2009.

[14] VanGemeren, W. A. (ed.). New International Dictionary of Old Testament Theology & Exegesis. Grand Rapids: Zondervan, 1997, s.v. “דָּוִד (dāwîḏ).”

[15] Strong, James. Strong’s Exhaustive Concordance of the Bible. Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1990.

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