Glossolalia, um termo teológico que descreve o fenômeno de falar em línguas, tem sido objeto de fascínio e debate no cristianismo, especialmente dentro do protestantismo.

Este dom espiritual, mencionado em diversas passagens bíblicas, é compreendido de diferentes maneiras, desde uma linguagem divinamente inspirada até uma expressão extática.

Neste artigo exploraremos as nuances da glossolalia, suas manifestações no Novo Testamento e sua interpretação ao longo da história da igreja.

Ouça nosso podcast sobre este termo teológico.


A Glossolalia no Novo Testamento

As Escrituras Sagradas são a fonte primária e fundamental para compreendermos o fenômeno da glossolalia, também chamado de “dom de línguas”.

Dois livros bíblicos se destacam por oferecerem relatos detalhados e diretrizes cruciais sobre o tema: o livro de Atos dos Apóstolos e a Primeira Carta de Paulo aos Coríntios.

Em Atos, observamos a manifestação inicial e pública do dom no dia de Pentecostes, quando os discípulos falaram em línguas compreensíveis a diferentes povos.

Já em 1 Coríntios, Paulo aborda a prática e a importância das línguas na igreja, oferecendo instruções sobre seu uso adequado e sua relação com outros dons espirituais.

Representação do falar em línguas (Glossolalia)
Representação do falar em línguas (Glossolalia)

O Pentecostes e o Dom de Línguas

O relato mais proeminente da glossolalia ocorre no Dia de Pentecostes, conforme descrito em Atos 2. Neste evento, os discípulos de Jesus estavam reunidos quando:

“de repente veio do céu um som, como de um vento muito forte, e encheu toda a casa onde estavam assentados.

E viram línguas, como de fogo, que se repartiam, e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem”

Atos 2:2-4

A característica marcante deste evento é que os presentes, judeus devotos de diversas nações que estavam em Jerusalém, ouviam os discípulos falarem “na sua própria língua” (Atos 2:6). A multidão ficou perplexa, perguntando:

“Não são galileus todos estes homens que estão falando? Então, como os ouvimos, cada um de nós, em nossa própria língua materna?”

Atos 2:7-8

Este tipo de manifestação, onde as línguas faladas são compreendidas por ouvintes que as reconhecem como línguas humanas existentes, é frequentemente chamado de xenoglossia, uma variação da glossolalia.

O propósito primordial aqui foi o de testemunho e evangelização, permitindo que a mensagem do Evangelho fosse compreendida imediatamente por pessoas de diferentes origens linguísticas [1]. Pedro aproveita este momento para pregar, resultando na conversão de cerca de três mil pessoas (Atos 2:41]).

A glossolalia na comunidade de Corinto

A Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, especificamente os capítulos 12 a 14, oferece uma discussão mais detalhada e diretrizes sobre a glossolalia e outros dons espirituais.

Ao contrário do Pentecostes, onde as línguas eram compreendidas, em Corinto, parece que o falar em línguas não era imediatamente inteligível para todos.

Paulo indica que “quem fala em língua não fala aos homens, mas a Deus; pois ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1 Coríntios 14:2).

Esta passagem sugere que a glossolalia em Corinto era uma linguagem de oração ou louvor dirigida a Deus, que exigia interpretação para ser edificante para a comunidade.

Paulo afirma que “maior é o que profetiza do que o que fala em línguas, a não ser que também as interprete, para que a igreja receba edificação” (1 Coríntios 14:5).

A falta de interpretação tornava o dom ineficaz para a assembleia, pois “se, pois, toda a igreja se reunir e todos falarem em línguas, e entrarem alguns indoutos ou incrédulos, não dirão que estais loucos?” (1 Coríntios 14:23).

A discussão de Paulo visa trazer ordem e propósito ao uso dos dons, enfatizando a edificação da igreja acima da exaltação individual [2].

Apóstolo Paulo pregando o Evangelho (Vida de Paulo, de perseguidor à apóstolo)
Apóstolo Paulo pregando o Evangelho (Vida de Paulo, de perseguidor à apóstolo)

Compreendendo a glossolalia: Dom do Espírito ou Linguagem Eclesiástica?

A interpretação da glossolalia variou significativamente ao longo da história da igreja. É fundamental distinguir entre as diferentes manifestações e propósitos atribuídos a este dom.

Xenoglossia e glossolalia

Como mencionado, o evento de Pentecostes em Atos 2 é frequentemente associado à xenoglossia, a capacidade sobrenatural de falar uma língua humana existente que o falante nunca aprendeu [3].

Este foi um sinal para os incrédulos, demonstrando o poder de Deus e a universalidade da mensagem do Evangelho.

Por outro lado, a glossolalia, como aparece em 1 Coríntios, é frequentemente compreendida como uma linguagem extática ou sobrenatural que não é uma língua humana reconhecível, a menos que seja interpretada. É uma “língua dos anjos” ou uma comunicação direta com Deus que transcende a linguagem humana comum (1 Coríntios 13:1).

Enquanto a xenoglossia tem um propósito evangelístico e apologético, a glossolalia coríntia parece ter um propósito de edificação pessoal e, com interpretação, de edificação comunitária.

Perspectivas teológicas sobre a Glossolalia

Diversas tradições teológicas protestantes abordam a glossolalia de maneiras distintas, geralmente centradas em seu propósito e validade nos dias atuais.

Edificação Pessoal e Comunitária

Paulo enfatiza a função da glossolalia para a edificação pessoal do falante: “quem fala em língua edifica-se a si mesmo” (1 Coríntios 14:4).

Este aspecto sugere uma dimensão devocional e íntima do dom, onde o crente se comunica diretamente com Deus em oração ou louvor profundo.

No entanto, para a edificação da comunidade, a interpretação é indispensável. Sem interpretação, a congregação não compreende a mensagem e não é fortalecida espiritualmente.

A ausência de interpretação anula o benefício coletivo do dom, tornando-o meramente uma experiência pessoal [4].

Lugar acolhedor para não-cristãos Transformando sua Igreja (Glossolalia)
Ilustração de uma igreja acolhedora

O Caráter de Sinal

Para muitos, a glossolalia é um sinal do batismo no Espírito Santo, conforme evidenciado em Atos, onde o falar em línguas acompanha a vinda do Espírito (Atos 10:46, 19:6).

Neste sentido, é visto como uma evidência inicial da presença do Espírito em um crente. Em algumas denominações, o falar em línguas é considerado uma manifestação válida e contínua do poder de Deus, servindo como um lembrete do sobrenatural e da presença ativa do Espírito.


Orientações de Paulo sobre a Glossolalia

A preocupação principal de Paulo em 1 Coríntios 14 não é proibir a glossolalia, mas sim regulamentá-la para que sirva ao propósito de Deus na igreja. Ele valoriza o dom, afirmando: “Eu gostaria que todos vós falassem em línguas” (1 Coríntios 14:5), mas impõe limites claros para seu uso público.

Ordem e Decoro no Culto

Paulo instrui que, se houver falar em línguas na assembleia, deve haver um intérprete. Se não houver, o falante deve manter silêncio ou falar apenas para si mesmo e para Deus (1 Coríntios 14:28).

Além disso, ele estabelece um limite de “dois ou, no máximo, três” falantes em línguas por reunião, e “um de cada vez” (1 Coríntios 14:27).

Estas diretrizes visam preservar a ordem e evitar confusão, garantindo que o culto seja compreensível e edificante para todos os presentes, inclusive para os não crentes que possam estar visitando [5].

Foto do interior da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil no Rio de Janeiro, Barra da Tijuca
Foto do interior da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil no Rio de Janeiro, Barra da Tijuca

A Prioridade da Profecia

Ao longo de 1 Coríntios 14, Paulo consistentemente eleva a profecia acima da glossolalia quando se trata de edificação comunitária. Ele argumenta que a profecia “fala aos homens para edificação, exortação e consolação” (1 Coríntios 14:3), o que a torna diretamente útil e compreensível para todos.

Enquanto a glossolalia edifica o indivíduo, a profecia edifica a igreja inteira. Sua conclusão é clara: “Portanto, irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar e não proibais o falar em línguas” (1 Coríntios 14:39), mantendo o equilíbrio entre a liberdade do Espírito e a necessidade de ordem e inteligibilidade.


História da Glossolalia na Igreja

A presença e a interpretação da glossolalia têm variado consideravelmente ao longo dos séculos, refletindo diferentes compreensões teológicas e movimentos espirituais.

A Igreja Primitiva

Há evidências de que a glossolalia era praticada na Igreja Primitiva além dos eventos de Atos e Corinto. Historiadores da igreja, como Irineu de Lyon (século II), mencionam crentes que “falam em todas as espécies de línguas” [6].

Contudo, após os primeiros séculos, a prática da glossolalia parece ter diminuído na maioria das comunidades cristãs, com o foco mudando para a edificação através do ensino e da liturgia.

Algumas interpretações sugerem que, à medida que a igreja se consolidava e o cânon bíblico era estabelecido, a necessidade de “dons de sinal” diminuiu [7].

Quadro de Rembrandt, O Batismo do Eunuco por Filipe, de 1626
Quadro de Rembrandt, O Batismo do Eunuco por Filipe, de 1626

O Movimento Pentecostal e Carismático

No final do século XIX e início do século XX, a glossolalia ressurgiu como uma manifestação central no que viria a ser conhecido como o Movimento Pentecostal.

Charles Fox Parham e, posteriormente, William J. Seymour no Avivamento da Rua Azusa (1906-1915) defenderam que o falar em línguas era a evidência inicial do batismo no Espírito Santo, um segundo trabalho da graça após a salvação [8].

Esta crença impulsionou o crescimento explosivo das denominações pentecostais em todo o mundo.

A partir da década de 1960, o Movimento Carismático levou a glossolalia para dentro das denominações protestantes históricas (como batistas, metodistas, presbiterianos, luteranos, católicos romanos e outras), bem como para muitas denominações não-denominacionais.

Neste contexto, a glossolalia é vista como um dom contínuo do Espírito, disponível para todos os crentes, com o propósito de edificação pessoal, oração e, em alguns casos, intercessão [9]. A ênfase é frequentemente colocada na experiência pessoal com o Espírito e na renovação espiritual.

William J. Seymour, líder do avivamento da Rua Azusa
William J. Seymour, líder do avivamento da Rua Azusa

Etimologia e significado de Glossolalia

O termo “glossolalia” deriva de duas palavras gregas: glossa (γλῶσσα) e lalia (λαλιά).

  • Glossa (γλῶσσα): Significa “língua”, podendo se referir tanto ao órgão anatômico na boca quanto a um idioma ou linguagem. No Novo Testamento, glossa é usada para descrever línguas estrangeiras (como em Atos 2) ou uma linguagem não humana, sobrenatural, ou extática (como em 1 Coríntios 14) [10].
  • Lalia (λαλιά): Significa “fala”, “discurso” ou “ato de falar”.

Combinadas, as palavras formam “glossolalia”, que literalmente significa “falar em línguas” ou “discurso de línguas”.

O termo foi cunhado mais tarde (século XIX) em estudos teológicos para descrever o fenômeno, não sendo uma palavra usada diretamente na Bíblia, mas sim uma construção acadêmica para se referir ao dom de línguas bíblico.


Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] GLOSSOLALIA & XENOGLOSSIA – Professor Responde 72. Prof. Jonathan Matthies.


Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com suas respectivas respostas, acerca deste termo tão usado nas igrejas pentecostais.

O que é glossolalia?

É um fenômeno vocal em que a pessoa emite sons e sílabas ininteligíveis, que não correspondem a uma língua conhecida. Em contextos religiosos, é frequentemente associado ao “dom de línguas”, considerado uma manifestação espiritual.

O que é a glossolalia na Bíblia?

Na Bíblia, o termo é associado ao “falar em outras línguas”, um dom do Espírito Santo. É mencionado principalmente em Atos e 1 Coríntios, descrevendo tanto a fala em idiomas estrangeiros compreensíveis (xenolalia) quanto a fala extática e ininteligível.

Qual a diferença entre xenolalia e glossolalia?

Xenolalia é falar em uma língua estrangeira que o orador nunca aprendeu, mas que é compreendida por outros. Glossolalia é a emissão de sons ininteligíveis, que não correspondem a nenhuma linguagem humana conhecida, sendo uma fala extática.

O que quer dizer xerebecanto?

É um termo informal e, por vezes, pejorativo, usado para se referir à glossolalia ou ao “falar em línguas estranhas” no meio pentecostal, especialmente quando soa como uma repetição de sílabas sem sentido aparente.

Quais são as línguas estranhas no meio pentecostal?

São manifestações de glossolalia, consideradas um dom espiritual. Para os pentecostais, é uma linguagem de oração e louvor, onde o espírito fala diretamente com Deus, podendo ser tanto sons ininteligíveis quanto a “língua dos anjos”.

O que é linguagem glossolalia?

É a própria glossolalia, ou seja, uma vocalização que se assemelha à fala, mas não possui uma estrutura linguística ou significado compreensível para quem ouve. É vista como uma linguagem espiritual ou um fenômeno psicológico.

O que significa a palavra sharamanai?

“Sharamanai” e variações como “sharamanaia” não possuem um significado definido em nenhuma língua conhecida. São exemplos de sílabas frequentemente ouvidas durante a glossolalia em cultos pentecostais e carismáticos, sendo parte da manifestação das “línguas estranhas”.

O que significa labassurionderrá?

Assim como “sharamanai”, “labassurionderrá” não tem um significado traduzível. É outra expressão que exemplifica a glossolalia, consistindo em uma sequência de sons proferidos durante a manifestação do dom de línguas em contextos religiosos.

A Bíblia menciona a língua dos anjos?

Sim, a “língua dos anjos” é mencionada uma única vez, em 1 Coríntios 13:1. O apóstolo Paulo a usa de forma hipotética para enfatizar que, mesmo com os dons espirituais mais elevados, o amor é superior a todos eles.


Fontes

[1] Vine, W. E. Vine’s Expository Dictionary of New Testament Words. Nashville, TN: Thomas Nelson, 1996.

[2] Fee, Gordon D. The First Epistle to the Corinthians. The New International Commentary on the New Testament. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1987.

[3] Carson, D. A. Showing the Spirit: A Theological Exposition of 1 Corinthians 12-14. Grand Rapids, MI: Baker Books, 1987.

Demais fontes

[4] Grudem, Wayne A. Systematic Theology: An Introduction to Biblical Doctrine. Grand Rapids, MI: Zondervan, 1994.

[5] Blomberg, Craig L. 1 Corinthians. The NIV Application Commentary. Grand Rapids, MI: Zondervan, 1994.

[6] Irenaeus. Against Heresies, Book V, Chapter VI. In Ante-Nicene Fathers, Vol. 1. Edited by Alexander Roberts and James Donaldson. Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1885.

[7] MacArthur, John F. Charismatic Chaos. Grand Rapids, MI: Zondervan, 1992.

[8] Blumhofer, Edith L. Restoring the Faith: The Assemblies of God, Pentecostalism, and American Culture. Urbana, IL: University of Illinois Press, 1993.

[9] McDonnell, Kilian, and George T. Montague. Christian Initiation and Baptism in the Holy Spirit: Evidence from the First Eight Centuries and from the Twentieth Century. Collegeville, MN: Liturgical Press, 1991.

[10] Thayer, Joseph Henry. A Greek-English Lexicon of the New Testament. Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 2004.

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