A Teologia Apofática se refere a uma abordagem teológica que busca descrever Deus por meio da negação, afirmando o que Ele não é, em vez do que Ele é. Este método, também conhecido como teologia negativa, reconhece a transcendência inefável de Deus, que está além da compreensão e da capacidade da linguagem humana.

A prática apofática surge da convicção de que Deus é tão fundamentalmente diferente da criação que qualquer tentativa de defini-Lo com termos finitos e limitados é inadequada e pode levar à idolatria ou a uma compreensão equivocada de Sua natureza.

Neste artigo apresentamos um pouco deste termo tão pouco conhecido da Teologia.

Ouça nosso podcast sobre este termo teológico.


Compreendendo a teologia apofática

A Teologia Apofática parte do princípio de que Deus é incomensurável, transcendente e completamente “Outro” em relação à criação. Assim, não podemos capturar a Sua essência ou totalidade por meio de categorias ou atributos humanos.

Qualquer afirmação positiva sobre Deus (teologia catafática) é, por sua natureza, limitada e analógica, sempre aquém da Sua realidade plena.

A principal premissa da teologia apofática é que, ao afirmar o que Deus não é, nos aproximamos de uma verdade mais profunda sobre Ele do que ao tentar definir o que Ele é [1].

Por exemplo, em vez de dizer “Deus é bom” (uma afirmação positiva que pode ser mal interpretada através de nossa própria compreensão limitada de “bom”), a abordagem apofática poderia dizer “Deus não é mal”, ou até mesmo “Deus não é ‘bom’ da mesma forma que um ser humano é bom”, reconhecendo uma bondade que transcende nossa experiência [1].

Este caminho leva à humildade intelectual e espiritual, incentivando a reverência diante do mistério divino [1].

Teologia Apofática
Ilustração de um monge estudando teologia

O mistério de Deus

A teologia apofática reforça que Deus não é um objeto que pode ser analisado ou compreendido exaustivamente pela razão humana. O Senhor revela-se, mas nunca de forma completa, de modo que sua natureza íntima continue sendo um mistério insondável.

Textos bíblicos apoiam essa visão, como Isaías 55:8-9, onde Deus declara:

“Pois os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos são os meus caminhos […] assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.”

Essa passagem ressalta a vasta diferença entre a mente divina e a mente humana.

Limites da linguagem humana

A linguagem humana é intrinsecamente criada para descrever realidades finitas e acessíveis aos nossos sentidos e intelecto. Quando tentamos aplicá-la a um ser infinito e transcendente como Deus, suas limitações se tornam evidentes.

A teologia apofática reconhece que nossas palavras sobre Deus são, na melhor das hipóteses, analógicas e, na pior, podem reduzir Deus a uma imagem humana ou conceitual. Para evitar essa redução, ela propõe a purificação do conceito de Deus através da negação, removendo as imperfeições e limitações inerentes à nossa linguagem [2].

A Criação de Adão de Michelangelo (1512)
A Criação de Adão de Michelangelo (1512)

Teologia apofática e teologia catafática

É importante entender que a Teologia Apofática não é necessariamente uma oposição à Teologia Catafática, mas um complemento.

Compreensão da teologia catafática

A teologia catafática é a abordagem que descreve Deus através de afirmações positivas sobre Seus atributos, como “Deus é amor” (1 João 4:8), “Deus é justo” (Salmo 7:11) ou “Deus é soberano” (Salmo 103:19). Estas afirmações são baseadas na revelação de Deus, especialmente nas Escrituras.

Ambas as abordagens são consideradas importantes na tradição cristã. A teologia catafática nos dá uma base para conhecer e nos relacionar com Deus através de Suas ações e revelações específicas. Ela nos permite falar sobre Deus de forma significativa e adorá-Lo com base no que Ele nos revelou sobre Si mesmo.

Contraponto apofático

No entanto, sem o contraponto apofático, há o risco de confinarmos Deus dentro de nossas próprias categorias, perdendo de vista Sua transcendência.

A Teologia Apofática serve como um corretivo, lembrando-nos que, embora Deus se revele e se comunique, Ele permanece fundamentalmente maior do que nossa capacidade de compreendê-Lo ou descrevê-Lo. Ela nos impede de construir um Deus à nossa imagem e semelhança. Muitos teólogos históricos consideraram essas duas abordagens como as duas asas pelas quais a teologia ascende ao conhecimento de Deus [3].


Raízes históricas e perspectivas

Embora a Teologia Apofática possa parecer um conceito complexo, suas raízes se estendem profundamente na história da filosofia e da teologia cristã e judaica.

No Pensamento Antigo

A ideia de uma divindade suprema que transcende toda descrição positiva já existia em filósofos gregos como Platão e Plotino, onde o “Uno” ou a “Fonte” era tão transcendental que não podia ser adequadamente nomeado. Este pensamento filosófico influenciou os primeiros teólogos cristãos.

Desenvolvimento Cristão

Na tradição cristã, figuras como os Padres Capadócios (Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa) no século IV foram proponentes da teologia apofática.

Eles enfatizaram a distinção entre a essência (ousia) de Deus, que é inacessível e incognoscível, e Suas energias (energeiai), através das quais Ele se relaciona com o mundo e é conhecido pelos seres humanos [4].

Mais tarde, o pensador conhecido como Pseudo-Dionísio, o Areopagita (séculos V-VI), popularizou a teologia negativa em seus escritos, especialmente em “Nomes Divinos” e “Teologia Mística”.

Ele argumentava que, ao negar que Deus é qualquer coisa que possamos conceber, nos aproximamos mais da verdade sobre Ele, pois Ele transcende todas as categorias do ser e do não-ser. Seu trabalho teve uma influência profunda na teologia medieval, tanto no Oriente quanto no Ocidente [1].

Gregório de Nazianzo
Gregório de Nazianzo

Na teologia protestante

A Teologia Apofática não é tipicamente um termo central ou uma metodologia explícita na maioria das tradições protestantes, que tendem a enfatizar a revelação proposicional de Deus nas Escrituras (uma forma de teologia catafática).

Contudo, os princípios subjacentes à teologia apofática estão presentes na teologia protestante de maneira implícita e por vezes explícita.

Pensamentos de João Calvino

Reformadores como João Calvino, embora focados na revelação de Deus através da Palavra, frequentemente destacavam a majestade e a transcendência de Deus, que estão além de nossa plena compreensão.

Calvino afirmava que, mesmo ao se revelar, Deus permanece incompreensível em Sua essência e que qualquer conhecimento humano de Deus é sempre parcial e analógico.

Ele escreve em suas “Institutas da Religião Cristã” que “a infinita essência de Deus é tal que transcende todo o sentido humano” [5].

Esta ênfase na inacessibilidade da essência divina e na necessidade de humildade intelectual reflete um aspecto apofático.

Retrato de João Calvino de 1550
Retrato de João Calvino de 1550

Influências na doutrina protestante

Da mesma forma, a doutrina protestante da soberania de Deus, que afirma que Ele governa todas as coisas segundo Sua vontade insondável, carrega ressonâncias apofáticas.

Ela reconhece que os caminhos de Deus são frequentemente misteriosos e imperscrutáveis para a mente humana, levando à adoração e à confiança, mesmo quando não compreendemos plenamente Suas razões.


Fundamento bíblico da Teologia Apofática

A própria Bíblia oferece numerosas passagens que servem de base para a Teologia Apofática, ao descrever a inefabilidade, a transcendência e a incompreensibilidade de Deus.

Esses textos não apenas afirmam que Deus é grande, mas que Ele é tão grande que transcende nossas categorias e capacidades. Eles incentivam uma postura de humildade e adoração diante do mistério divino, que é a essência da Teologia Apofática.

Êxodo 33:20

Deus diz a Moisés: “Você não poderá ver a minha face, porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo.” Esta passagem estabelece a ideia de que Deus, em Sua plenitude, é muito glorioso e santo para ser contemplado diretamente pelos seres humanos.

1 Timóteo 6:16

Paulo descreve Deus como “o único que possui imortalidade e habita em luz inacessível, a quem ninguém viu nem pode ver.” A “luz inacessível” é uma metáfora poderosa para a transcendência e a impossibilidade de acesso direto à essência de Deus.

Romanos 11:33-34

“Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos! Pois quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?”

Esta passagem de Paulo expressa a admiração pela incompreensibilidade dos pensamentos e caminhos de Deus, reforçando a ideia de que a mente divina está além do alcance humano.

Jó 11:7-9

Sofar questiona Jó:

“Poderás descobrir os desígnios de Deus? Poderás penetrar os limites do Todo-Poderoso? São mais altos que o céu – o que poderás fazer? Mais profundos que o Sheol – o que poderás saber? O seu comprimento é maior que a terra, e a sua largura, maior que o mar.”

Aqui, a vastidão e profundidade de Deus são comparadas a elementos naturais grandiosos, apontando para a impossibilidade de se medir ou compreender Sua totalidade.


Etimologia e significado de Teologia Apofática

O termo “apofático” deriva do grego antigo apophasis (ἀπόφασις), que significa “negação”, “declaração negativa” ou “rejeição”. A palavra é composta por apo (ἀπό), que significa “de”, “longe de” ou “afastado de”, e phanai (φάναι), que significa “dizer” ou “falar”.

Dessa forma, a tradução mais precisa do termos seria “apofático” se refere a um discurso que se afasta ou nega algo.


Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] A História do Cristianismo Como Você Nunca Viu | Episódio 01. Escola do Discípulo.


Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com suas respectivas respostas, acerca deste termo pouco conhecido na Teologia.

O que significa teologia apofática?

A teologia apofática, também conhecida como “teologia negativa”, descreve Deus pelo que Ele não é (infinito, imutável, invisível). Ela afirma que Deus transcende a linguagem, sendo impossível defini-lo com termos positivos, pois isso o limitaria a conceitos humanos.

O que é a via apofática?

Via apofática é o método prático da teologia apofática. Um caminho espiritual que busca a Deus através do silêncio e do esvaziamento da mente de todos os conceitos e imagens, para tentar experimentar o mistério divino diretamente, sem definições.

O que são teologia catafática e apofática?

São duas abordagens opostas para falar de Deus. Catafática (positiva) afirma o que Deus é (“Deus é amor”). Apofática (negativa) afirma o que Deus não é (“Deus não é finito”), corrigindo as limitações da linguagem humana.


Fontes

[1] Pseudo-Dionysius the Areopagite. The Mystical Theology. C. 5º-6º século.

[2] Lossky, Vladimir. The Mystical Theology of the Eastern Church. St Vladimir’s Seminary Press, 1976.

[3] Barth, Karl. Church Dogmatics. Vol. II/1: The Doctrine of God. T&T Clark, 2004. (Barth, embora não apofático no sentido clássico, enfatiza a “totalmente Outro” de Deus).

[4] Gregório de Nissa. Life of Moses. Século IV.

[5] Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. Livro I, Capítulo 5, Seção 1.

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Diego Pereira do Nascimento
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