O jansenismo foi um movimento teológico, espiritual e, em certa medida, político que surgiu no século XVII, inicialmente na França, e se espalhou por outras regiões da Europa católica.
Baseado nos ensinamentos do teólogo holandês Cornelius Jansenius, o movimento enfatizava a doutrina da graça divina, a predestinação e a necessidade de uma vida moral rigorosa, frequentemente em oposição às práticas e teologias mais flexíveis, como as defendidas pelos jesuítas.
O jansenismo gerou intensas controvérsias dentro da Igreja Católica, influenciando debates teológicos, políticos e culturais até o século XVIII.
Neste artigo apresentamos um pouco da história e implicações teológicas deste controverso movimento teológico.
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Origem e história do jansenismo
O jansenismo teve suas raízes na Reforma Católica do século XVI, um período de renovação espiritual e debates teológicos intensos após a Reforma Protestante.
Inspirado pelas ideias de Santo Agostinho sobre a graça e o pecado original, o movimento foi sistematizado por Cornélio Jansen (1585-1638), bispo de Ypres, em sua obra póstuma Augustinus. [1]
O livro defendia uma interpretação rigorosa da teologia agostiniana, argumentando que a graça divina é necessária para a salvação e que a humanidade, marcada pelo pecado, é incapaz de alcançar a virtude sem a intervenção divina. [1]
O jansenismo ganhou força na França, especialmente no mosteiro de Port-Royal-des-Champs, perto de Paris, que se tornou o centro intelectual e espiritual do movimento. [2]
Figuras como Jean Duvergier de Hauranne (abade de Saint-Cyran), Antoine Arnauld e Blaise Pascal foram defensores proeminentes, articulando as ideias jansenistas em tratados teológicos e obras literárias, como as Cartas Provinciais de Pascal. [2]

Princípios teológicos do jansenismo
O jansenismo baseava-se em cinco proposições principais, supostamente extraídas do Augustinus, que foram condenadas pela Igreja Católica na bula papal Cum Occasione, emitida pelo Papa Inocêncio X.
Essas proposições, embora debatidas quanto à sua fidelidade ao texto original de Jansen, resumiam os pilares do movimento:
- A necessidade absoluta da graça divina;
- A corrupção da natureza humana;
- A limitação da liberdade humana;
- A graça irresistível;
- A predestinação.
A necessidade absoluta da graça divina
A salvação, segundo o jansenismo, é um dom exclusivo da graça de Deus, concedido apenas aos eleitos predestinados.
Essa visão rejeita qualquer possibilidade de mérito humano independente, enfatizando a dependência total da intervenção divina. Contrapondo ao molinismo jesuíta, que defendia a cooperação do livre-arbítrio com a graça, os jansenistas viam a salvação como um ato soberano de Deus. [5]
A corrupção da natureza humana
Após o pecado original, a humanidade, segundo os jansenistas, tornou-se profundamente corrompida, incapaz de cumprir os mandamentos divinos ou realizar atos virtuosos sem a graça eficaz.
Essa doutrina reforçava a necessidade de penitência e humildade, características centrais da espiritualidade jansenista, mas era vista como pessimista por seus críticos, que a comparavam ao calvinismo. [5]
A limitação da liberdade humana
Para os jansenistas, a vontade humana, enfraquecida pelo pecado, é incapaz de escolher o bem sem a orientação da graça divina.
Essa graça, ao ser concedida, determina as ações dos eleitos, reduzindo o papel do livre-arbítrio. Essa visão contrastava com a teologia jesuíta, que atribuía maior autonomia à vontade humana na busca pela salvação. [5]

A graça irresistível
A graça divina, quando outorgada aos predestinados, é irresistível, garantindo a salvação sem possibilidade de recusa.
Essa doutrina, inspirada em Agostinho, enfatizava a soberania divina, mas gerava críticas por sugerir que os seres humanos carecem de liberdade para rejeitar ou aceitar a graça, um ponto sensível na teologia católica pós-Trento. [5]
A predestinação
O jansenismo defendia que Deus, em sua omnisciência, predestina alguns indivíduos para a salvação e outros para a condenação, independentemente de suas ações ou méritos.
Embora distinta da predestinação calvinista, essa ideia foi controversa, pois parecia limitar a universalidade da redenção cristã, um princípio caro à doutrina católica. [5]

Relação do jansenismo e o poder político
O jansenismo não se limitou à esfera teológica, adquirindo conotações políticas. Na França, o movimento atraiu setores do clero, da nobreza e da burguesia que se opunham à centralização do poder real e à influência dos jesuítas na corte. [6]
Sob Luís XIV (1643-1715), que via o movimento como uma ameaça à unidade religiosa e política, os jansenistas enfrentaram perseguição. O rei ordenou a destruição de Port-Royal em 1710 e pressionou pela aceitação da bula Unigenitus (1713), do Papa Clemente XI, que condenava 101 proposições do teólogo jansenista Pasquier Quesnel. [6]
Apesar da repressão, o movimento encontrou apoio em círculos galicanos, que defendiam a autonomia da Igreja francesa em relação a Roma. Essa aliança reforçou a oposição de alguns jansenistas à autoridade papal e real, transformando o movimento em um símbolo de resistência contra o absolutismo. [7]
Resistência papal e fim do jansenismo
O Jansenismo enfrentou forte oposição da Igreja Católica, que via suas doutrinas como próximas ao calvinismo e potencialmente heréticas. As bulas papais Cum Occasione (1653) e Unigenitus (1713) condenaram formalmente o movimento, enquanto os jesuítas lideraram uma campanha teológica contra os jansenistas.
Na França, a repressão estatal e eclesiástica enfraqueceu o movimento, especialmente após a destruição de Port-Royal e a dispersão de seus membros.
Influências no Século XVIII
No século XVIII, o Jansenismo sobreviveu em formas mais diluídas, influenciando movimentos reformistas na Igreja, como o jansenismo eclesiástico, que defendia reformas litúrgicas e maior participação dos leigos. [3]
Fora da França, o movimento inspirou tendências semelhantes, como o febronianismo na Alemanha e o josefismo no Império Austríaco, que buscavam limitar a influência papal. [3]
O Jansenismo perdeu força no século XIX, com a ascensão do ultramontanismo, que reforçava a autoridade papal, e a consolidação das relações Igreja-Estado após a Concordata de 1801, entre Napoleão e o Papa Pio VII. [4]

Etimologia e significado de jansenismo
A palavra jansenismo deriva do nome de Cornélio Jansen, do latim Cornelius Jansenius, um teólogo holandês e bispo de Ypres.
O termo foi cunhado no século XVII para designar os seguidores das doutrinas de Jansen, que buscavam uma interpretação rigorosa da teologia de Santo Agostinho sobre graça, pecado original e predestinação.
Aprenda mais
[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia
[Vídeo] O que foi o Jansenismo? Marcelo Andrade.
Perguntas comuns
Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com suas respectivas respostas, acerca deste termo.
O que é o jansenismo?
O jansenismo foi um movimento teológico dos séculos XVII e XVIII no catolicismo romano, especialmente na França, que buscava conciliar os conceitos de livre-arbítrio e graça divina em resposta a desenvolvimentos específicos da Igreja Católica.
O que é heresia jansenista?
O jansenismo destaca-se mais pelas intensas controvérsias políticas e disputas de poder que o envolveram do que por sua doutrina herética. Essa heresia pode ser resumida como a negação do papel do livre-arbítrio humano na salvação, com as consequências inevitáveis que disso resultam.
Pascal era jansenista?
Pascal se converteu ao jansenismo em 1646 e teve uma profunda experiência religiosa em 1654. Educado pelo pai, escreveu seus primeiros tratados e ensaios na adolescência e inventou a pascalina, a primeira calculadora mecânica da história.
Fontes
[1] Doyle, W. (2000). Jansenism: Catholic Resistance to Authority from the Reformation to the French Revolution. New York: St. Martin’s Press.
[2] Van Kley, D. K. (1996). The Religious Origins of the French Revolution. New Haven: Yale University Press.
[3] O’Connell, M. R. (1968). The Counter-Reformation, 1559-1610. New York: Harper & Row.
Demais fontes
[4] Aston, N. (2000). Religion and Revolution in France, 1780-1804. Washington, D.C.: Catholic University of America Press.
[5] Sedgwick, A. (1995). Jansenism in Seventeenth-Century France: Voices from the Wilderness. Charlottesville: University Press of Virginia.
[6] Briggs, R. (1991). Early Modern France, 1560-1715. Oxford: Oxford University Press.
[7] McManners, J. (1998). Church and Society in Eighteenth-Century France. Oxford: Clarendon Press.
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