A homilética é uma disciplina fundamental da Teologia Prática. Ela estuda rigorosamente a arte e a ciência da pregação cristã. Seu foco é a composição, preparação e entrega de sermões ou discursos religiosos [1].

Ela não se limita a ser um manual de oratória. A homilética investiga como a mensagem bíblica pode ser comunicada de forma eficaz. O objetivo é que a Palavra de Deus seja apresentada com clareza, fidelidade e poder.

Essa disciplina busca capacitar o preletor, ou pregador, com as melhores ferramentas. O desafio é apresentar o Evangelho de Cristo a públicos diversos. Cada audiência possui necessidades e contextos únicos que o pregador deve considerar [2].

Neste artigo apresentamos a história desta disciplina, características, conceitos relacionados e importância para Teologia.

Ouça nosso podcast sobre este termo teológico.

História da homilética: A Evolução da Pregação

A homilética, como disciplina formal, não nasceu no vácuo. Ela se baseia profundamente na retórica clássica, a arte de falar bem em público.

Os gregos e romanos antigos desenvolveram esta arte com grande sofisticação [5].

O objetivo da retórica era determinar as melhores técnicas. Buscava-se tornar um discurso o mais claro, persuasivo e compreensível possível.

Ilustração representando o estudo da homilética
Ilustração representando o estudo da homilética

Platão, Aristóteles e a Retórica

Inicialmente, filósofos como Platão desconfiavam da retórica. Eles temiam que ela pudesse ser usada para manipular a verdade. No entanto, foi seu aluno, Aristóteles, quem sistematizou a retórica como uma disciplina legítima [5].

Em sua obra “Retórica”, Aristóteles definiu os três pilares da persuasão. O primeiro é o Logos, o apelo à lógica e à razão do argumento.

O segundo pilar é o Pathos. Este é o apelo às emoções da audiência, buscando conectar-se com seus sentimentos e valores.

O terceiro pilar é o Ethos. Este se refere ao caráter e à credibilidade do orador. Para Aristóteles, este era o elemento mais importante da persuasão [6].

Busto de Platão. Cópia em mármore do busto de Platão feito por Silanião, 370 AC
Busto de Platão. Cópia em mármore do busto de Platão feito por Silanião, 370 AC

Cícero e Quintiliano

Em Roma, grandes oradores como Cícero e Quintiliano refinaram a retórica. Cícero, em suas obras como “De Oratore”, enfatizou a necessidade de o orador ser um homem de vasto conhecimento e integridade moral.

Quintiliano, por sua vez, focou na formação do orador desde a infância. Esses princípios retóricos (lógica, emoção e caráter) foram posteriormente absorvidos pelos pregadores cristãos [7].

A pregação na Patrística (Pais da Igreja)

Nos primeiros séculos do cristianismo, a homilética começou a se formar. Os chamados Pais da Igreja (Período Patrístico) viram a necessidade de adaptar a retórica clássica para a pregação.

Eles precisavam defender a fé contra heresias. Além disso, precisavam instruir e edificar os novos fiéis no Império Romano. A retórica grega foi a ferramenta escolhida para essa tarefa [2].

Pais da Igreja - Clemente de Alexandria, Orígenes, Crisóstomo e Agostinho. Homilética
Pais da Igreja – Clemente de Alexandria, Orígenes, Crisóstomo e Agostinho

Orígenes e a interpretação alegórica

Orígenes de Alexandria (c. 184–c. 253) foi uma figura central. Ele era um erudito que aplicou métodos filosóficos gregos ao estudo da Bíblia. Orígenes popularizou o método alegórico de interpretação.

Esse método buscava significados espirituais e ocultos por trás do texto literal. Embora controverso, seu método influenciou a pregação por séculos. Ele buscava tornar a Bíblia relevante para questões filosóficas da época [8].

João Crisóstomo: O “boca de ouro”

João Crisóstomo (c. 347–407), Patriarca de Constantinopla, é talvez o maior exemplo de pregador patrístico. Seu apelido, “Crisóstomo”, significa literalmente “Boca de Ouro”, dado por sua eloquência inigualável [9].

Ele dominava a retórica grega, mas seu foco era a exegese cuidadosa das Escrituras. Seus sermões eram práticos, bíblicos e corajosos. Ele não hesitava em confrontar o pecado, mesmo na corte imperial.

Crisóstomo exemplificou o poder de uma pregação que combina fidelidade bíblica com excelência retórica. Ele buscava a aplicação prática da fé na vida diária dos ouvintes.

Agostinho de Hipona e o “De doctrina christiana

Agostinho de Hipona (354–430) foi o elo definitivo entre a retórica clássica e a homilética cristã. Ele mesmo fora professor de retórica antes de sua conversão [10].

Em sua obra “De Doctrina Christiana” (Sobre a Doutrina Cristã), ele debateu se era lícito usar a retórica “pagã”. Ele concluiu que sim.

Agostinho argumentou que, se a retórica podia ser usada para defender a falsidade, com muito mais razão deveria ser usada. Deveria ser usada para defender a Verdade.

Ele “batizou” a retórica, adaptando-a para o serviço da pregação [10].

Agostinho de Hipona, por Antonio Rodríguez
Agostinho de Hipona, por Antonio Rodríguez

O declínio na Idade Média

Durante a Idade Média (c. 500–1500), a pregação genuína do evangelho sofreu um declínio considerável. Vários fatores contribuíram para isso.

A Igreja Católica Romana tornou-se a instituição dominante. A missa era celebrada em latim, uma língua que o povo comum não compreendia mais [11]. O foco mudou da proclamação da Palavra para a celebração dos sacramentos.

Os sermões que existiam eram frequentemente focados em temas moralistas. Abundavam sermões sobre a vida dos santos, relíquias ou os dogmas da igreja. A pregação bíblica e expositiva tornou-se rara.

Os católicos da época buscavam prender os fiéis aos dogmas da igreja. Isso, muitas vezes, os distanciava da compreensão direta de quem é Jesus Cristo. A salvação e outros ensinos bíblicos centrais eram ofuscados [11].

O Renascimento da pregação na Reforma Protestante

Com a Reforma Protestante no século XVI, a pregação foi redescoberta e colocada no centro do culto cristão. Os reformadores resgataram a autoridade suprema das Escrituras (Sola Scriptura) [12].

Para eles, a pregação não era um acessório do culto; era o evento central. Era o meio principal pelo qual Deus falava ao seu povo.

Martinho Lutero e a “Sola Scriptura

Martinho Lutero (1483–1546) enfatizou a justificação pela fé (Sola Fide). Ele compreendeu que essa fé vinha pelo ouvir da Palavra de Deus. Portanto, a pregação era essencial.

Lutero traduziu a Bíblia para o alemão. Ele insistia que os sermões fossem pregados na língua do povo. O sermão deveria ser claro, cristocêntrico e baseado diretamente no texto bíblico [13].

Martinho Lutero em 1529 por Lucas Cranach, o Velho
Martinho Lutero em 1529 por Lucas Cranach, o Velho

João Calvino e a pregação expositiva

João Calvino (1509–1564), em Genebra, levou a pregação expositiva ao seu auge. Ele pregava sistematicamente, livro por livro, verso por verso, através da Bíblia.

Calvino via a pregação como a própria voz de Deus falando à congregação. Ele enfatizou a soberania de Deus, a graça redentora e a necessidade de uma explicação fiel e genuína do texto [14].

Ulrich Zwinglio e a prática sequencial

Ulrich Zwinglio (1484–1531), em Zurique, foi outro pilar. Ele chocou as autoridades da igreja ao abandonar o lecionário (leituras pré-selecionadas).

Em vez disso, começou a pregar sequencialmente através do Evangelho de Mateus.

Esse retorno à Bíblia marcou uma mudança radical. A homilética protestante nasceu desse movimento. Ela focava em sermões expositivos, explicando e aplicando as Escrituras na vida das pessoas [12].

Estátua de Ulrico Zuínglio em frente à igreja Wasserkirche em Zurique
Estátua de Ulrico Zuínglio em frente à igreja Wasserkirche em Zurique

Pós-reforma e os grandes avivamentos

Após a Reforma, a homilética continuou a evoluir. Os Puritanos, nos séculos XVI e XVII, desenvolveram um estilo de pregação “simples” (plain style).

Esse estilo era logicamente denso, textual e focado na aplicação à consciência. Eles buscavam uma pregação que informasse a mente, movesse o coração e mudasse a vontade [15].

Nos séculos XVIII e XIX, os Grandes Avivamentos viram pregadores como John Wesley e George Whitefield. Eles levaram a pregação para fora dos púlpitos, pregando ao ar livre para grandes multidões. Seus sermões eram apaixonados e evangelísticos [16].

Período contemporâneo

Desde o século XIX, a homilética tornou-se uma disciplina acadêmica formal nos seminários teológicos. Ela passou a estudar diversos métodos, teorias e abordagens sobre a pregação.

O século XX viu o surgimento de gigantes da pregação, como D. Martyn Lloyd-Jones, que revitalizou a pregação expositiva consecutiva. Também viu o desenvolvimento de novas formas, como a pregação narrativa [17].

Hoje, a disciplina enfrenta novos desafios, como a era digital e a cultura pós-moderna.

Foto de Martyn Lloyd-Jones
Foto de Martyn Lloyd-Jones

O pregador: O instrumento da Mensagem

A homilética não estuda apenas a mensagem; ela também estuda o mensageiro. A eficácia da pregação está intrinsecamente ligada à vida e ao caráter do pregador.

A vocação e o caráter (Ethos)

Como Aristóteles apontou, o Ethos (caráter) do orador é crucial. Na pregação, isso é ainda mais verdadeiro. O pregador não é um ator recitando um roteiro; ele é uma testemunha [6].

A congregação deve perceber que o pregador é um homem ou mulher de integridade. A mensagem que ele prega deve ser visivelmente praticada em sua própria vida.

A autenticidade é vital. Um caráter falho ou hipócrita pode anular a mensagem mais eloquente. A congregação ouve o sermão, mas observa a vida do pregador [18].

A preparação espiritual

Antes da preparação intelectual do sermão, vem a preparação espiritual do pregador. A homilética enfatiza que a pregação é um ato espiritual, não apenas acadêmico.

Isso envolve uma vida de oração e devoção. O pregador deve buscar a Deus antes de buscar o sermão. Ele precisa da unção e da orientação do Espírito Santo.

Muitos teóricos da homilética afirmam que o tempo gasto em oração pelo sermão é tão importante quanto o tempo gasto em seu estudo e escrita [19].

Rapaz cristão orando (Mortificação)
Ilustração de um rapaz cristão orando

A preparação intelectual

A preparação espiritual não exclui o rigor intelectual. A homilética exige estudo contínuo. O pregador deve ser um estudante diligente da Bíblia e do mundo ao seu redor.

Isso inclui o domínio das línguas originais (hebraico e grego), se possível. Envolve também o conhecimento da história, da teologia, da filosofia e da cultura contemporânea [2].

O pregador deve ser capaz de construir pontes. Ele precisa conectar o mundo antigo da Bíblia ao mundo moderno de seus ouvintes.

Tríade da homilética: Hermenêutica, Teologia e Retórica

A preparação de um sermão eficaz repousa sobre três pilares interconectados.

Hermenêutica: A ponte do texto ao sermão

O primeiro pilar é a hermenêutica, a ciência da interpretação. Antes de pregar um texto, o pregador deve entendê-lo corretamente. A pregação deve fluir da exegese, não da eisegese [20].

Exegese é extrair o significado do texto. O pregador pergunta: “O que o autor original quis dizer aos seus ouvintes originais?”

Eisegese é impor um significado no texto. É quando o pregador usa o texto como um pretexto para dizer o que ele já quer dizer. A homilética condena essa prática.

O pregador deve analisar o contexto histórico, cultural e literário do texto. Ele deve entender o gênero (poesia, narrativa, epístola) e a gramática. Apenas com uma hermenêutica sólida o sermão será fiel à Bíblia [20].

John Wesley pregando
John Wesley pregando

Conteúdo teológico

O segundo pilar é o conteúdo teológico. Cada sermão, mesmo que baseado em um único texto, deve estar de acordo com o todo da revelação bíblica.

O pregador deve ter uma compreensão robusta da Teologia Sistemática. Como este texto se encaixa na doutrina de Cristo (Cristologia)? Na doutrina da salvação (Soteriologia)?

Isso impede que o pregador tire conclusões estranhas ou heréticas de um único versículo. O sermão deve ser teologicamente consistente e rico [2].

Retórica: A estruturação da comunicação

O terceiro pilar é a retórica, a arte da comunicação eficaz. Não basta ter o significado correto (hermenêutica) e o conteúdo correto (teologia). É preciso comunicá-lo bem.

Aqui, o pregador organiza as ideias de forma lógica e coerente. Ele pensa na melhor maneira de apresentar a verdade para sua audiência específica [21].

Apóstolo Paulo pregando o Evangelho (Vida de Paulo, de perseguidor à apóstolo)
Apóstolo Paulo pregando o Evangelho (Vida de Paulo, de perseguidor à apóstolo)

Características de um sermão

A homilética fornece um processo claro para a construção do sermão.

A seleção do texto e do tema

O processo começa com a escolha de uma passagem bíblica. Alguns pregadores seguem a pregação expositiva consecutiva, pregando livro por livro. Outros escolhem textos baseados nas necessidades da congregação ou no calendário litúrgico [17].

Uma vez escolhido o texto, o pregador deve, através da exegese, definir o tema central. O que este texto está dizendo? Qual é a sua mensagem principal?

A importância da “Grande Ideia”

Muitos homiletas modernos, como Haddon Robinson, enfatizam a necessidade de uma “Grande Ideia”. O sermão deve ser redutível a uma única frase declarativa e memorável [22].

Todo o sermão (pontos, ilustrações, conclusão) deve servir para explicar e aplicar essa única “Grande Ideia”. Isso garante unidade, clareza e impacto.

Estrutura e o esboço de um sermão

Definida a ideia central, o pregador elabora o esboço. Esta é a organização lógica do sermão. Um esboço tradicional tem três partes: introdução, desenvolvimento e conclusão [21].

Introdução: Capturando a atenção

A introdução tem dois objetivos: capturar o interesse do ouvinte e apresentar o tema do sermão.

O pregador deve “construir uma ponte” da realidade do ouvinte para o texto bíblico. Pode-se usar uma pergunta, uma história, uma estatística chocante ou uma citação [1].

Desenvolvimento: Pontos principais e transições

O desenvolvimento é o corpo do sermão. Aqui, a “Grande Ideia” é dividida em pontos principais. Geralmente, são dois a quatro pontos lógicos que fluem do texto.

Cada ponto deve ser explicado, ilustrado e aplicado. As transições entre os pontos devem ser claras, ajudando o ouvinte a seguir o raciocínio [21].

Ilustração de uma estrutura de sermão
Ilustração de uma estrutura de sermão

Conclusão: O apelo à ação

A conclusão é vital. Ela não deve ser apenas um resumo. Deve ser um apelo. A conclusão responde à pergunta: “E agora?”

O pregador deve aplicar a verdade do sermão à vida prática do público. Deve haver um chamado à fé, ao arrependimento, à mudança de comportamento ou à adoração. A conclusão deve ser poderosa e direcionada [1].

A arte da ilustração

Ilustrações são “janelas” que trazem luz ao sermão. Elas tornam o abstrato em concreto. Podem ser exemplos, histórias, citações, analogias ou fatos da atualidade [3].

A homilética ensina que as ilustrações devem servir ao texto, e não o contrário. Elas devem esclarecer o ponto, e não apenas entreter. O uso de histórias pessoais ou eventos atuais torna o sermão mais vivo e compreensível.

A aplicação: Relevância prática

A aplicação é onde a ética entra na homilética. A pregação não é apenas para informar, mas para transformar.

O pregador deve mostrar a relevância e a utilidade do sermão para a vida prática. Como essa verdade bíblica de 2000 anos se aplica ao meu trabalho na segunda-feira? Ao meu casamento? Às minhas finanças? [18].

A aplicação deve ser específica, prática e redentora, sempre apontando para a graça de Deus em Cristo.

Homem pregando no meio da rua (Teologia Pública)
Homem pregando no meio da rua (Teologia Pública)

A entrega do sermão (Oratória)

Finalmente, o sermão deve ser apresentado oralmente. A homilética estuda os recursos da oratória para maximizar o impacto da mensagem [1].

Isso inclui o uso da voz (tom, ritmo, volume, pausas). Inclui a postura e os gestos. Um pregador que fica imóvel e lê um manuscrito em tom monótono diminui o poder da mensagem.

O contato visual é essencial. O pregador deve se conectar com a audiência, falando “aos” ouvintes, e não “para” eles. A paixão e a sinceridade na entrega são fundamentais [21].

Tipos de sermões

O estudo da homilética desenvolveu diversas abordagens. A escolha do tipo de sermão depende do texto, do público e do objetivo do pregador.

Pregação expositiva

Este é considerado por muitos o método ideal, especialmente após a Reforma [17]. A pregação expositiva busca expor o significado de uma passagem bíblica específica.

O sermão extrai seus pontos principais e sua estrutura diretamente do texto. O objetivo é permitir que o texto defina a agenda do sermão.

Pregação temática

A pregação temática aborda um tema ou tópico específico (ex: perdão, ansiedade, graça).

O pregador usa vários textos bíblicos que se relacionam com o tema. O desafio é abordar o tema biblicamente, sem distorcer os textos usados. É útil para abordar questões atuais [3].

Pregação textual

O sermão textual é um híbrido. Ele usa um texto bíblico curto (geralmente um ou dois versículos) como base.

Os pontos principais do sermão são extraídos das frases ou palavras desse texto. É mais focado que o temático, mas menos profundo que o expositivo [1].

Pregação narrativa

Esta é uma abordagem mais recente. Ela foca em contar uma história bíblica, usando elementos do enredo, personagens e cenário.

O pregador conta a história de forma vívida, permitindo que a audiência “entre” nela. A mensagem é transmitida através da própria narrativa, destacando a emoção e a lição de vida [23].

Pregação biográfica

Este tipo de sermão apresenta a vida de um personagem bíblico (ex: Davi, Ester, Pedro).

O pregador usa os fatos, desafios e conquistas do personagem. O objetivo é destacar sua fé, seu caráter e seu exemplo (positivo ou negativo) para os ouvintes [3].

Objetivo da homilética: Kerygma e didache

A pregação, objeto de estudo da homilética, cumpre duas funções essenciais no Novo Testamento. Essas funções são conhecidas pelos termos gregos Kerygma e Didache.

O Kerygma refere-se à proclamação. É o anúncio público e urgente das boas novas da salvação em Cristo. Foca no “o quê” da fé: a morte e ressurreição de Jesus [4].

O Didache refere-se ao ensino. É a instrução e edificação dos que já creram. Foca no “como” viver a fé cristã. A homilética, portanto, equilibra ambos os aspectos. O pregador deve tanto proclamar quanto ensinar.

Desafios contemporâneos da homilética

A homilética hoje enfrenta desafios únicos.

Pregando em uma cultura pós-moderna

A cultura pós-moderna é frequentemente cética em relação a grandes narrativas e reivindicações de verdade absoluta.

O pregador de hoje deve comunicar a verdade bíblica de forma autêntica. Ele deve demonstrar como a fé é vivida, e não apenas uma lista de doutrinas. A abordagem narrativa e dialogal ganha espaço aqui [24].

A pregação na Era Digital

A competição pela atenção é feroz. As pessoas estão acostumadas a estímulos visuais rápidos e entretenimento constante.

A homilética moderna questiona como manter a profundidade bíblica em uma cultura de “soundbites”.

Alguns pregadores integram multimídia (vídeos, imagens) para engajar a audiência. O desafio é fazer isso sem perder o foco na Palavra [25].

Ilustração de um jovem com vício em celular
Ilustração de um jovem com vício em celular

A relevância em meio ao secularismo

Em muitas sociedades, a influência religiosa diminuiu. O pregador não pode mais presumir que sua audiência compartilha seus valores ou mesmo seu vocabulário.

A homilética deve ensinar o pregador a ser um “tradutor cultural”. Ele deve explicar os termos bíblicos de forma clara e demonstrar a relevância do Evangelho para as questões mais profundas da existência humana [24].

Etimologia e significado de homilética

A palavra “homilética” tem raízes profundas na língua grega. Ela deriva do termo homiletikos, que sugere a ideia de “conversação” ou “ensino em tom familiar”. Isso se conecta com a palavra homilia, que significa um discurso ou uma conversa [3].

Literalmente, “homilética” pode ser entendida como “o estudo do discurso agradável” ou da interação congregacional.

Alguns estudiosos, especialmente de tradições mais clássicas, referem-se à homilética como a “oratória sacra”. Este termo destaca a natureza sagrada do conteúdo. Ao mesmo tempo, sublinha a necessidade de excelência na fala, uma “oratória” [1].

Essa designação diferencia a pregação da oratória secular. A oratória sacra lida com verdades divinas e tem um propósito redentor, não apenas persuasivo.

Aprenda mais

[Podcast] A arte de pregar – BTCast 355. BiboTalk.

[Vídeo] O que é homilética? – Rev. Tarcizio Carvalho. Perguntar Não Ofende.

Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre esta disciplina da teologia.

O que é homilética na Bíblia?

O termo “homilética” não está na Bíblia, mas a prática sim. Refere-se aos exemplos de pregação encontrados nela, como o Sermão do Monte (Jesus), a pregação de Pedro em Pentecostes ou as exortações de Paulo. A homilética estuda como pregar sobre a Bíblia.

O que é homilética?

Homilética é a arte e a ciência da pregação religiosa. É a disciplina teológica que estuda os princípios de preparação, organização, composição e entrega de sermões ou discursos religiosos de forma eficaz.

Quais são os 4 tipos de sermões?

Embora haja variações, os tipos clássicos são: (1) Sermão Expositivo. Explica detalhadamente uma passagem bíblica específica. (2) Sermão Temático (ou Tópico). Desenvolve um assunto ou tema, usando várias passagens. (3) Sermão Textual.Baseia-se em um texto curto (geralmente um ou dois versículos). (4) Sermão Biográfico. Foca na vida e lições de um personagem bíblico.

Qual a diferença entre hermenêutica e homilética?

A hermenêutica é a ciência da interpretação (o que o texto significa). A homilética é a arte da comunicação (como pregar esse significado). Primeiro, usa-se a hermenêutica para entender o texto; depois, usa-se a homilética para pregá-lo.

O que é a disciplina homilética?

É o ramo da teologia prática focado no estudo acadêmico e prático da pregação. Ela ensina metodologias para preparar e entregar sermões relevantes, claros e impactantes, conectando os textos antigos ao público contemporâneo.

Quem é o pai da homilética?

Não há um “pai” único. No entanto, João Crisóstomo (século IV), arcebispo de Constantinopla, é frequentemente citado como a principal figura patrística da pregação, conhecido como “boca de ouro” por sua extraordinária eloquência e habilidade expositiva.

Fontes

[1] Broadus, John A. (2007). Sobre a Preparação e Entrega de Sermões. 4ª ed. (Rev. por Vernon L. Stanfield). São Paulo: Hagnos.

[2] Stott, John R. W. (2002). O Perfil do Pregador. (Trad. G. C. M. de Souza). São Paulo: Vida Nova.

[3] Braga, James. (2005). Como Preparar Sermões. 6ª ed. São Paulo: Editora Vida.

Demais fontes

[4] Ladd, George Eldon. (2003). Teologia do Novo Testamento. (Trad. D. L. de S. e J. L. de S. Neto). São Paulo: Hagnos.

[5] Aristóteles. (2011). Retórica. (Trad. M. A. O. Novaes). 4ª ed. São Paulo: Edipro.

[6] Kennedy, George A. (1998). Classical Rhetoric and Its Christian and Secular Tradition from Ancient to Modern Times. Chapel Hill: University of North Carolina Press.

[7] Cícero, Marco Túlio. (2014). Do Orador. (Trad. A. S. Abranches). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

[8] Olford, Stephen F. (2004). Pregação Expositiva: O Método e o Legado de um Mestre. São Paulo: Editora Batista Regular.

[9] Schaff, Philip. (2000). History of the Christian Church, Vol. III: Nicene and Post-Nicene Christianity. Peabody, MA: Hendrickson Publishers.

[10] Agostinho de Hipona. (2002). A Doutrina Cristã. (Trad. N. A. da Silva). São Paulo: Paulus Editora.

[11] Lopes, Hermisten M. P. (2008). A Pregação na Idade Média. Em: Fides Reformata. Vol. XIII, Nº 1.

[12] George, Timothy. (2004). Teologia dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova.

[13] Bainton, Roland H. (1995). Here I Stand: A Life of Martin Luther. Nashville: Abingdon Press.

[14] Parker, T. H. L. (1993). Calvin’s Preaching. Louisville, KY: Westminster/John Knox Press.

[15] Packer, J. I. (1995). Entre os Gigantes de Deus: Uma Visão Puritana da Vida Cristã. São José dos Campos: Editora Fiel.

[16] Noll, Mark A. (2002). The Old Religion in a New World: The History of North American Christianity. Grand Rapids: Eerdmans.

[17] Lloyd-Jones, D. Martyn. (1995). Pregação e Pregadores. São José dos Campos: Editora Fiel.

[18] Chapell, Bryan. (2009). Pregação Cristocêntrica: Redimindo o Sermão Expositivo. São Paulo: Cultura Cristã.

[19] Bounds, E. M. (2001). Poder pela Oração. São Paulo: Editora Vida.

[20] Osborne, Grant R. (2009). Manual de Hermenêutica. São Paulo: Editora Vida Nova.

[21] Koller, Charles W. (1997). Manual de Pregação. 12ª ed. São Paulo: Editora Batista Regular.

[22] Robinson, Haddon W. (2001). Biblical Preaching: The Development and Delivery of Expository Messages. 2ª ed. Grand Rapids: Baker Academic.

[23] Lowry, Eugene L. (1989). The Homiletical Plot: The Sermon as Narrative Art Form. Louisville: Westminster John Knox Press.

[24] Keller, Timothy. (2014). Pregação: Comunicando a Fé na Era do Ceticismo. São Paulo: Editora Vida Nova.

[25] Kim, Matthew D. (2018). Preaching with Cultural Intelligence: The Sincere, Unbalanced, and Reluctant Paster. Grand Rapids: Baker Academic.

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Diego Pereira do Nascimento
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