A Antroposofia é uma filosofia espiritual e prática desenvolvida por Rudolf Steiner no início do século XX, que buscava integrar o conhecimento espiritual com a ciência, a arte e a vida cotidiana, algo similar a teosofia.
Ela propõe que o ser humano pode compreender o mundo físico e espiritual por meio de uma abordagem consciente e intuitiva, promovendo o desenvolvimento pessoal e social em harmonia com a natureza e o cosmos.
Neste artigo apresentamos um pouco da origem e história desta filosofia, assim como seus fundamentos e críticas.
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História da antroposofia
A Antroposofia como filosofia foi criada por Rudolf Steiner, um filósofo, cientista, educador e esoterista austríaco cuja obra marcou profundamente o pensamento espiritual e cultural do século XX.
Steiner nasceu na cidade de Kraljevec, quando ainda existia o Império Austro-Húngaro. Segundo os autores, quando jovem ele demonstrava bastante interesse em filosofia, ciências naturais e misticismo. [1]
Com este interesse um tanta vasto, ele ingressou na Universidade Técnica de Viena para estudar matemáticas, física e filosofia. Focando seu estudo nas ideias holísticas de Johann Wolfgang von Goethe. [1]
A abordagem holística de Goethe, que via a natureza como uma unidade orgânica e espiritual, tornou-se uma base fundamental para as ideias de Steiner, que buscava integrar ciência, arte e espiritualidade. [1]

Influências da Teosofia
Antes de organizar as ideias que dariam origem a Antroposofia, Steiner dedicou tempo ao estudo da Teosofia, um movimento esotérico criado no fim do século XIX por Helena Petrovna Blavatsky na cidade de Nova York. [2]
Em 1902 Steiner passou a fazer parte da Sociedade Teosófica, trabalhando como secretário geral da sociedade na Alemanha. Ele era visto como um palestrante carismático, apaixonado pelas ideias teosóficas. [2]
Com o tempo ele passou a reinterpretar a teosofia, escrevendo textos que se propunham a trazer uma visão mais racional e alinhada a cultura ocidental as ideias teosóficas. [2]
Em 1904 ele publicou seu livro Teosofia: Uma Introdução à Ciência Espiritual, que apesar de tratar sobre a teosofia, já trazia alguns ideias do que viria a ser a Antroposofia.
Neste livro ele falava da importância de existir um método científico para compreender o mundo espiritual. [3]

Steiner deixa a Sociedade Teosófica
Por conta de seu afastamento com as ideias teosóficas e debates internos na Sociedade Teosófica, ele veio a se desvincular da sociedade no ano de 1912 [3]. Em suas obras seguintes, ele passou a criticar a Teosofia, em especial, sua relação tão profunda com as religiões orientais, Budismo e Hinduísmo.
Para Steiner, a espiritualidade deveria ser acessada por meio de uma investigação consciente, rigorosa e adaptada às demandas da modernidade ocidental [3].
Fundação da Sociedade Antroposófica
Em 1913, Steiner fundou a Sociedade Antroposófica em Dornach, Suíça, marcando o nascimento formal do movimento antroposófico.
A criação da Sociedade foi uma resposta à necessidade de um espaço dedicado à disseminação de suas ideias, que combinavam espiritualidade, ciência e aplicações práticas. [4]
No mesmo ano, Steiner iniciou a construção do Goetheanum, um centro cultural em Dornach que simbolizava sua visão de integração entre arte, espiritualidade e ciência.
O primeiro Goetheanum, concluído em 1920, era uma estrutura de madeira com formas orgânicas, inspirada na arquitetura expressionista e projetada para refletir os princípios espirituais da Antroposofia. [4]

A destruição de Goetheanum
Este edifício foi destruído por um incêndio em 1922, possivelmente de origem criminosa. Steiner liderou a reconstrução, resultando no segundo Goetheanum, uma estrutura de concreto concluída após sua morte, em 1928, que permanece até hoje como sede mundial da Sociedade Antroposófica [4].
O Goetheanum não era apenas um espaço físico, mas um símbolo da missão de Steiner de criar um ponto de encontro para o desenvolvimento espiritual, cultural e social da humanidade.
Ele servia como palco para palestras, apresentações artísticas (como a euritmia, uma forma de movimento desenvolvida por Steiner) e conferências sobre temas que iam desde agricultura até educação e medicina [5].
Expansão e impacto cultural
A Antroposofia ganhou força rapidamente na Europa, especialmente na Alemanha, Suíça e Áustria, atraindo intelectuais, artistas, educadores e profissionais de diversas áreas.
Na década de 1920, o movimento começou a se expandir para outros continentes, incluindo as Américas, a Austrália e partes da Ásia.
A influência de Steiner foi amplificada por sua abordagem prática, que aplicava os princípios antroposóficos a diversos campos, resultando em legados como:
- Educação Waldorf;
- Agricultura Biodinâmica;
- Medicina Antroposófica.
Fundamentos da antroposofia
Os fundamentos da Antroposofia se baseiam na ideia de que o ser humano é um ser tripartido, composto por corpo, alma e espírito, e que o desenvolvimento espiritual é essencial para a realização plena.
Alguns princípios centrais incluem:
- Ciência espiritual;
- Educação Waldorf;
- Agricultura biodinâmica;
- Medicina antroposófica;
- Cosmologia e reencarnação;
- Valorização das artes.

Ciência Espiritual
Steiner propôs que o conhecimento espiritual pode ser acessado por meio de uma observação consciente e treinada, combinando intuição e rigor científico. Ele acreditava que a ciência materialista era limitada, pois ignorava dimensões espirituais do universo. [4]
Educação Waldorf
Um dos pilares práticos da Antroposofia, as escolas Waldorf enfatizam o desenvolvimento holístico da criança, integrando aspectos intelectuais, artísticos e espirituais. O currículo é adaptado às fases do desenvolvimento humano, respeitando a individualidade de cada aluno. [6]
Agricultura Biodinâmica
Introduzida por Steiner em 1924, essa prática agrícola considera a fazenda como um organismo vivo, utilizando métodos naturais e espirituais para promover a fertilidade do solo e a sustentabilidade. [7] [9]

Medicina Antroposófica
Essa abordagem integra a medicina convencional com práticas espirituais, considerando a saúde como um equilíbrio entre corpo, alma e espírito. Usa remédios naturais e terapias holísticas, como a euritmia curativa. [8]
Cosmologia e reencarnação
A Antroposofia acredita na reencarnação e no carma, sugerindo que a vida humana é parte de um ciclo espiritual maior, influenciado por ações de vidas passadas. [10]
Valorização das artes
A Antroposofia também valoriza a arte, a música e o movimento (como a euritmia) como formas de expressão espiritual e desenvolvimento pessoal. Steiner via essas práticas como caminhos para conectar o indivíduo ao cosmos. [11]
Críticas cristãs à antroposofia
A Antroposofia recebeu críticas importantes dos teólogos cristãos, católicos e protestantes, desde sua fundação. As ideias de Steiner, como a reencarnação e sua visão esotérica de Cristo como um ser cósmico, foram consideradas heréticas por muitos. [12]
A Igreja Católica, por exemplo, criticou a Antroposofia por desviar-se dos ensinamentos bíblicos tradicionais e por promover uma perspectiva panteísta ou gnóstica. [12]
Em 1919, o teólogo católico Emil Felden publicou uma crítica contundente, acusando Steiner de criar uma “religião artificial” que misturava elementos cristãos com esoterismo oriental, afastando-se da ortodoxia cristã. [12]
Protestantes também expressaram preocupações, particularmente com as Escolas Waldorf.
Eles alegaram que essas escolas, embora apresentadas como seculares, incorporavam elementos espirituais antroposóficos no currículo, o que poderia confundir ou influenciar crianças de forma inadequada. [13]
Um relatório de 1923 da Igreja Luterana Alemã destacou que as práticas educacionais de Steiner poderiam minar os valores cristãos tradicionais. [13]

Diferença de teosofia e antroposofia
A Antroposofia é filha da Teosofia, por isso muitos dos seus conceitos se confundem. Por conta disto, abaixo criamos uma tabela comparando as duas correntes de pensamento.
| Aspecto | Teosofia | Antroposofia |
|---|---|---|
| Origem | Fundada por Helena Blavatsky no final do séc. XIX (1875, Sociedade Teosófica). | Fundada por Rudolf Steiner no início do séc. XX (1913, após romper com a Teosofia). |
| Definição | Sistema filosófico-espiritual que busca a verdade universal por meio de conhecimento esotérico, combinando religiões orientais e ocidentais. | Filosofia espiritual que enfatiza o desenvolvimento humano através da ciência espiritual, com foco na autonomia e observação empírica do espírito. |
| Objetivo Principal | Unir ciência, religião e filosofia para compreender as leis do universo e a evolução espiritual da humanidade. | Promover o autoconhecimento e o desenvolvimento humano através de práticas espirituais, educação e ciência espiritual. |
| Cosmologia | Baseada em conceitos orientais (hinduísmo, budismo) como karma, reencarnação e hierarquias espirituais (mestres ascensionados). | Também aceita karma e reencarnação, mas foca na evolução espiritual individual e no papel do Cristo como força cósmica central. |
| Método | Estudo de textos esotéricos, meditação e busca pelos “Mestres da Sabedoria”. | Observação científica do espiritual, meditação prática e desenvolvimento da consciência individual. |
| Práticas | Meditação, estudo de escrituras (ex.: A Doutrina Secreta), rituais esotéricos. | Pedagogia Waldorf, agricultura biodinâmica, medicina antroposófica, euritmia. |
| Visão da Ciência | Integra ciência e espiritualidade, mas com ênfase no conhecimento esotérico. | Busca uma “ciência espiritual” que combina observação empírica com fenômenos espirituais. |
| Educação | Não possui um sistema educacional formal próprio, mas promove estudo autônomo. | Criou a Pedagogia Waldorf, focada no desenvolvimento holístico (corpo, alma, espírito). |
| Liderança Espiritual | Enfatiza mestres espirituais (Mahatmas) como guias da humanidade. | Steiner rejeitou a dependência de mestres externos, incentivando a autonomia espiritual. |
| Relação com Religião | Ecumênica, busca unificar elementos de todas as religiões, sem dogma fixo. | Valoriza o cristianismo esotérico, com ênfase na figura do Cristo cósmico. |
| Aplicações Práticas | Foco em estudo teórico e prática espiritual individual. | Aplica princípios em educação (Waldorf), agricultura (biodinâmica), medicina e artes. |
| Organização | Sociedade Teosófica, com sede em Adyar, Índia, e filiais globais. | Sociedade Antroposófica, com sede em Dornach, Suíça (Goetheanum). |
Etimologia e significado de antroposofia
A palavra “Antroposofia” deriva do grego anthropos (homem) e sophia (sabedoria), significando “sabedoria do ser humano”.
Aprenda mais
[Vídeo] Antroposofia e teosofia: Muitos absurdos, pouca filosofia| Carlos Orsi (Diretor do IQC). Prof. Daniel Gontijo.
Perguntas comuns
Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com suas respectivas respostas, acerca deste termo.
O que é Antroposofia waldorf?
A antroposofia de Waldorf é uma filosofia centrada no ser humano que explora as questões espirituais profundas da humanidade, promovendo uma relação consciente com o mundo, baseada na liberdade, em julgamentos e decisões próprias.
Qual a religião de Rudolf Steiner?
Rudolf Steiner não criou uma religião, mas sim uma filosofia espiritual chamada de Antroposofia.
O que é Antroposofia aplicada à saúde?
A Medicina Antroposófica, ou Antroposofia aplicada à saúde, é um sistema terapêutico que expande a medicina convencional com uma perspectiva holística. Ela aborda o ser humano em suas dimensões física, emocional, psíquica e espiritual, considerando também suas interações com o meio ambiente e sua trajetória biográfica.
O que é terapia antroposófica?
A abordagem terapêutica farmacológica da Medicina Antroposófica utiliza medicamentos fitoterápicos, homeopáticos, homotoxicológicos e antroposóficos, priorizando substâncias naturais que estimulam os processos de autocura do indivíduo.
Quem trouxe a Antroposofia para o Brasil?
A Antroposofia foi introduzida no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, por imigrantes europeus no início do século XX. Em São Paulo, o movimento se fortaleceu e se consolidou, influenciando e guiando diversas práticas profissionais.
Fontes
[1] Lachman, G. (2007). Rudolf Steiner: An Introduction to His Life and Work. New York: TarcherPerigee.
[2] Zander, H. (2007). Anthroposophie in Deutschland. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht.
[3] Steiner, R. (1904). Teosofia: Uma Introdução à Ciência Espiritual. São Paulo: Antroposófica.
Demais fontes
[4] Paull, J. (2018). The First Goetheanum: A Centenary for Organic Architecture. Journal of Fine Arts, 1(2), 1–11.
[5] Steiner, R. (1923). Antroposofia: Uma Introdução. Dornach: Goetheanum Press.
[6] Ullrich, H. (2008). Rudolf Steiner’s Pedagogy of Freedom. London: Continuum.
[7] Paull, J. (2011). Biodynamic Agriculture: The Journey from Koberwitz to the World. Journal of Organic Systems, 6(1), 27–41.
[8] Kienle, G. S., & Kiene, H. (2007). Complementary Medicine: Anthroposophic Medicine. Medical Clinics of North America, 91(5), 943–959.
[9] Paull, J. (2011). Biodynamic Agriculture: The Journey from Koberwitz to the World. Journal of Organic Systems, 6, 27–41.
[10] Steiner, R. (1910). A Ciência Oculta. São Paulo: Antroposófica.
[11] Steiner, R. (1921). Arte e Conhecimento Espiritual. Dornach: Goetheanum Press.
[12] Felden, E. (1919). Die Anthroposophie Rudolf Steiners: Eine Kritik. Freiburg: Herder Verlag.
[13] Relatório da Igreja Luterana Alemã (1923). Antroposofia e Educação Cristã. Berlim: Arquivos Eclesiásticos.
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