Ao longo do texto bíblico, nos é apresentado uma variedade de deuses pagãos cultuados pelos povos vizinhos a Israel. Essas divindades foram fundamentais na estrutura religiosa dos povos cananeus e mesopotâmicos, e seu estudo nos auxilia a compreender melhor sua religiosidade e cultura.

Neste artigo, exploraremos os deuses pagãos mencionados na Bíblia e como esses elementos mitológicos se encaixam na narrativa religiosa.

Ouça nosso podcast sobre este termo teológico.

Deuses pagãos citados na Bíblia

Abaixo listamos os principais deuses pagãos citados ao longo da Bíblia. A maior parte desses deuses são citados no Antigo Testamento.

Anameleque e Adrameleque

Esses eram deuses cultuados pelos sefarvitas, um povo trazido para Samaria pelos assírios após a queda do Reino do Norte. A Bíblia relata que esses colonos adoravam Anameleque e Adrameleque, chegando a queimar seus próprios filhos como sacrifícios a eles (2 Reis 17:31).

A menção dessas divindades destaca a diversidade de cultos pagãos que se infiltraram em Israel e a gravidade das práticas idólatras que a Lei de Moisés proibia.

Em algumas traduções Adrameleque é citado como Hadrames.

Artemisa (ou Diana)

Artemisa, conhecida pelos romanos como Diana, era a deusa grega da caça, da vida selvagem, do parto e da virgindade. Seu culto era proeminente em Éfeso, na Ásia Menor, onde seu templo era uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.

O livro de Atos descreve um grande tumulto em Éfeso, instigado por ourives que faziam santuários da deusa, temendo perder o negócio devido à pregação do apóstolo Paulo, que ameaçava o culto de Artemisa (Atos 19:23-41).

Aserá (Asherah)

Aserá, frequentemente associada ao culto a Baal, era uma deusa-mãe dos povos cananeus e mesopotâmicos, relacionada à fertilidade, ao amor e, possivelmente, ao mar.

Nos textos bíblicos, seu nome muitas vezes se refere não apenas à divindade, mas também aos objetos sagrados utilizados em sua adoração: um poste ou tronco de árvore, erigido em altares e bosques sagrados.

A Bíblia Hebraica menciona Aserá cerca de 40 vezes, indicando que a sua veneração era profundamente arraigada em Israel e Judá, sendo um obstáculo persistente à reforma religiosa promovida por reis fiéis, como Josias, que destruiu seus símbolos (2 Reis 23).

Astarote (Ashtoreth/Ishtar)

Astarote é outra forma da deusa da fertilidade, da guerra e do amor sexual, cultuada em diversas culturas do Oriente Próximo. Os israelitas a adoraram no período dos juízes e do rei Salomão, que construiu um lugar de culto para ela, chamada de “deusa dos sidônios” (1 Reis 11:5).

A Bíblia frequentemente a menciona no plural (Astarotes), referindo-se aos seus vários altares e imagens.

Azazel (Zaqueu)

Embora não seja um “deus” no sentido de divindade adorada, Azazel é uma figura enigmática mencionada no ritual do Dia da Expiação (Yom Kippur) em Levítico 16. Um dos bodes era “para o Senhor” e o outro “para Azazel”.

O bode “para Azazel” era enviado ao deserto, carregando os pecados do povo. Interpretado de diversas formas, desde um demônio do deserto até um lugar geográfico, Azazel representava uma força ou entidade maligna, demonstrando a necessidade de purificação de Israel do pecado.

Alguns o interpretam como um anjo caído, e até mesmo como um semi-deus ou um deus-menor.

Baal

Baal, cujo nome significa “senhor”, era a principal deidade masculina dos cananeus, cultuado como o deus da chuva, das tempestades e da fertilidade.

Os seguidores acreditavam que ele era responsável pelo ciclo das estações, com sua morte e ressurreição mítica explicando os períodos de seca e abundância. O culto a Baal envolvia rituais lascivos, oferendas e, por vezes, automutilação por parte dos sacerdotes.

A Bíblia registra o conflito entre o profeta Elias e os profetas de Baal no Monte Carmelo (1 Reis 18), um evento que demonstrou o poder de Deus. A adoração a Baal foi uma das maiores transgressões de reis como Acabe, sob influência de Jezabel.

Influência de Baal entre os israelita

Dentre os deuses pagãos, Baal certamente foi o mais presente e influente. Sendo citado diversas vezes no Antigo Testamento. Seu culto entre os israelitas era frequente, sendo motivo de diversos momentos de apostasia.

Estátua de bronze de Baal, datada dos séculos XIV–XII a.C., encontrada em Ras Shamra (antiga Ugarite), perto da costa da Fenícia. Museu do Louvre
Estátua de bronze de Baal, datada dos séculos XIV–XII a.C., encontrada em Ras Shamra (antiga Ugarite), perto da costa da Fenícia. Museu do Louvre

Bel (ou Marduque)

Bel era o deus principal da Babilônia, sinônimo de Marduque, o rei dos deuses no panteão babilônico. Ele era reverenciado como o criador do universo e o patrono da cidade da Babilônia.

Seu nome frequentemente aparece em profecias bíblicas que condenam a idolatria e anunciam a queda da Babilônia e de seus deuses. O profeta Isaías, por exemplo, prediz a humilhação de Bel e Nebo, que seriam levados cativos (Isaías 46:1).

O livro de Jeremias também menciona Bel em seu julgamento contra a Babilônia (Jeremias 50:2).

Belzebu (ou Baal-Zebu)

Belzebu, cujo nome significa “Senhor das moscas”, era uma divindade filisteia adorada na cidade de Ecrom. No Novo Testamento, ele é sinônimo de um príncipe dos demônios ou Satanás (Mateus 10:25; 12:24).

Os fariseus acusaram Jesus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, mostrando a crença popular na época em sua capacidade demoníaca. No Antigo Testamento, o rei Acazias de Israel consultou Baal-Zebu sobre sua doença, demonstrando a apostasia do povo (2 Reis 1:2-6).

Ben-Hadade (Hadad)

Ben-Hadade era o deus das tempestades, trovões e chuva, adorado na Síria e em Canaã, tendo uma função muito similar a Baal. Seu nome compõe títulos de reis arameus, como Ben-Hadade (“Filho de Hadade”), que entraram em frequentes conflitos com Israel e Judá (1 Reis 11:23).

A crença em Hadade como controlador do clima era um dos grandes concorrentes à adoração de Yahweh.

Dagom (Dagon)

Dagom era o deus principal dos filisteus, frequentemente representado com características híbridas de homem e peixe, sugerindo uma ligação com a agricultura e o mar.

Ele é mencionado nos relatos de Sansão, onde os filisteus lhe oferecem sacrifícios em Gaza (Juízes 16:23).

O incidente mais conhecido envolvendo Dagom ocorre quando a Arca da Aliança é capturada pelos filisteus e colocada em seu templo; o ídolo de Dagom é encontrado prostrado e quebrado diante da Arca, simbolizando a impotência do deus perante o Deus de Israel (1 Samuel 5).

Apesar de estar muito associado aos filisteus, este também é um deus muito presente entre os fenícios e alguns povos mesopotâmicos.

Certamente este é um dos principais deuses pagãos citados na Bíblia, em especial do Antigo Testamento durante o período da monarquia israelita.

Ilustração do deus pagão Dagom
Ilustração do deus pagão Dagom

Milcom (ou Malcã)

Milcom era o deus nacional dos amonitas, frequentemente associado a Moloque devido à semelhança de seus cultos, que incluíam sacrifícios de crianças.

O Rei Salomão, em sua velhice, construiu um lugar de culto para Milcom em Jerusalém, uma de suas muitas transgressões que levaram à divisão do reino (1 Reis 11:5, 33). Posteriormente, o Rei Josias destruiu esse altar durante suas reformas religiosas, purificando Judá da idolatria (2 Reis 23:13).

Moloque (Moloch)

Moloque era uma divindade associada ao fogo, tradicionalmente cultuado pelos amonitas, mas também por israelitas desobedientes.

O seu culto é tristemente notório pelo sacrifício de crianças, que eram passadas pelo fogo em rituais de consagração ou como oferendas extremas em vales como o de Hinom (Geena), perto de Jerusalém.

Embora a natureza exata dos rituais ainda seja debatida por estudiosos (se era sacrifício direto ou apenas consagração), a lei mosaica proíbe veementemente essa prática, chamando-a de abominação (Levítico 18:21; 20:2-5).

Nebo (Nabu)

Nebo era uma divindade da Babilônia e da Assíria, reverenciado como o deus da sabedoria, da escrita e do conhecimento. Seu nome aparece em vários nomes de reis babilônicos, como Nabucodonosor (“Nabu, protege a coroa”) e Nabopolassar.

O profeta Isaías o cita ironicamente, anunciando o peso e a queda dos deuses babilônicos Nebo e Bel, que seriam levados como carga no dia do julgamento (Isaías 46:1-2).

Ninrode

Embora a Bíblia não o chame diretamente de “deus”, Ninrode é descrito como um “poderoso caçador diante do Senhor” e fundador de cidades como Babel e Nínive (Gênesis 10:8-12), sendo o antepassado dos babilônicos e assírios.

Na tradição extrabíblica e em interpretações rabínicas, ele é frequentemente associado a um rei-deus ou figura mítica de grande poder, que desafiou a Deus e promoveu a idolatria.

Sua figura representava um tipo de líder que, por sua força e império, podia ser visto como um rival da soberania divina na consciência hebraica.

Nísroque

Nísroque era uma divindade assíria, mencionada na Bíblia como o deus cujo templo foi o local do assassinato de Senaqueribe, rei da Assíria, por seus próprios filhos (2 Reis 19:37; Isaías 37:38).

A identidade exata de Nísroque ainda é debatida entre os estudiosos, mas ele era provavelmente uma deidade ligada à agricultura ou a um deus-águia. Sua menção serve para contextualizar eventos históricos assírios na narrativa bíblica, mostrando a fragilidade dos reis terrenos e seus deuses.

Quemós (Chemosh)

Era o deus nacional dos moabitas, frequentemente chamado de “abominação de Moabe”. Seu culto, que por vezes também exigia sacrifícios humanos, foi introduzido em Jerusalém pelo próprio Rei Salomão, em seus anos de apostasia, construindo um altar para Quemós no Monte das Oliveiras (1 Reis 11:7).

Esse altar permaneceu até ser destruído durante a reforma religiosa do Rei Josias (2 Reis 23:13).

Refrã (ou Rephraim)

Refrã, também conhecido como Refaim, refere-se a um povo antigo de gigantes, mas também pode ser associado a espíritos dos mortos ou a uma divindade do submundo em algumas culturas cananeias.

Em 2 Samuel 23:13, é mencionado o Vale de Refaim. Na Bíblia, a referência aos Refaim (ou Refrã) remete a gigantes e, metaforicamente, a forças do passado ou do submundo.

Remfã (ou Quium)

Remfã é mencionado no Novo Testamento, em Atos 7:43, quando Estêvão cita o profeta Amós (Amós 5:26). Era uma divindade astral, provavelmente um deus-estrela ou planeta (possivelmente Saturno), adorado por povos semitas e introduzido entre os israelitas durante períodos de apostasia.

A citação bíblica serve como um lembrete das repetidas infidelidades de Israel ao longo da história, quando eles se voltaram para o culto de ídolos e imagens celestiais, desobedecendo aos mandamentos de Yahweh.

Tamuz (Tammuz)

Tamuz era uma divindade mesopotâmica associada à vegetação e à fertilidade, que morria e ressuscitava anualmente, simbolizando o ciclo de plantio e colheita.

O profeta Ezequiel, durante o exílio, relata ter visto mulheres israelitas chorando a morte de Tamuz dentro dos portões do Templo em Jerusalém (Ezequiel 8:14), um ato que demonstrava a profundidade da apostasia em Judá.

Israel e os deuses pagãos

A história de Israel é uma narrativa de aliança e, frequentemente, de apostasia. A relação de Israel com os deuses pagãos foi marcada pela atração persistente aos cultos de fertilidade e poder dos povos vizinhos, resultando em sérias consequências para sua identidade religiosa e nacional.

Sedução da fertilidade e da prosperidade

O principal motivador por trás da infidelidade de Israel era o desejo por prosperidade material, algo que os deuses cananeus, como Baal (deus da tempestade e chuva) e Aserá (deusa da fertilidade), prometiam.

Ao se estabelecer em uma sociedade agrária, muitos israelitas adotaram práticas sincretistas.

A compreensão dos mitos de Baal, extraída dos textos de Ugarit [1], revela por que seu culto era tão atraente: ele era o agente que garantia o ciclo da chuva e da fertilidade agrícola.

O culto à deusa Aserá não era apenas externo, pois as Inscrições de Kuntillet Ajrud sugerem que a divindade era venerada por alguns israelitas junto a Yahweh [2].

Ilustração representando dos deuses pagãos
Ilustração representando dos deuses pagãos

As consequências da infidelidade

A consequência mais imediata dessa relação com a idolatria foi a falta de adoração correta a Deus. O monoteísmo estrito exigido pela aliança foi substituído por uma adoração mista.

Profanação do Templo e dos sacerdotes

A adoração pagã chegou ao coração do culto. Reis apóstatas como Manassés promoveram o culto ao “Exército dos Céus” (estrelas e planetas), uma prática mesopotâmica que se infiltrou em Judá [3].

Sacrifícios desumanos e imorais

A prática mais chocante foi o sacrifício de crianças a divindades como Moloque. Os achados arqueológicos em locais de Tofete (como o de Cartago, de origem fenícia/cananeia) atestam que o ritual de queimar crianças era uma prática real no mundo antigo [4].

Fragmentação política e julgamento

A infidelidade religiosa gerou o enfraquecimento da unidade nacional. A destruição do Reino do Norte pela Assíria em 722 a.C. e o Exílio Babilônico em 586 a.C. são eventos históricos registrados em crônicas assírias e babilônicas [5], sendo interpretados na historiografia bíblica como o castigo máximo pela apostasia contínua do povo.

Ameaça à identidade da Aliança

A adoração pagã minava o conceito central de Israel como um povo separado. A construção de santuários para deuses estrangeiros, como fez Salomão para Milcom e Quemós [6], representava uma tolerância política que levava à corrupção religiosa do Estado.


Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] Como eram os sacrifícios pagãos na antiguidade. Evidências com Rodrigo Silva.

Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre os deuses pagãos.

O que é um deus pagão?

Um deus pagão é uma divindade adorada no paganismo, termo que se refere a religiões politeístas (que adoram múltiplos deuses) ou não-abraâmicas. Exemplos incluem os deuses da mitologia grega (como Zeus e Atena), romana (como Júpiter e Vênus) ou nórdica (como Odin e Thor).

O que a Bíblia diz sobre deuses pagãos?

A Bíblia (principalmente o Antigo Testamento) condena a adoração de deuses pagãos, eles são ídolos/falsos deuses que não possuem poder. Ela afirma o monoteísmo, ou seja, a crença em um único Deus verdadeiro, e proíbe o povo de Israel de segui-los.

Fontes

[1] Smith, Mark S. (2009). The Ugaritic Baal Cycle. (Trad. e análise acadêmica dos textos de Ras Shamra sobre o mito de Baal).

[2] Meshel, Ze’ev (2012). Kuntillet ‘Ajrud: An Iron Age II Religious Site in Northern Sinai. (Publicação arqueológica das inscrições hebraicas mencionando “Yahweh e sua Aserá”).

[3] Walton, John H. (2006). Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament. (Análise da adoração astral e sincretismo religioso na Mesopotâmia e sua influência em Judá).

Demais fontes

[4] Mosca, Paul G. (1975). Child Sacrifice in the Old Testament and the Archaeology of the Ancient Near East. (Estudo acadêmico sobre a evidência de sacrifício de crianças e o culto a Moloque/Baal Hammon).

[5] Crônicas Babilônicas (Documentos históricos que registram a queda de Jerusalém para Nabucodonosor); e Análise dos Anais Assírios (Relatos de campanhas militares contra Israel e Judá).

[6] Albright, William F. (1968). Yahweh and the Gods of Canaan. (Estudo seminal sobre a história da religião em Israel e os deuses vizinhos, incluindo Milcom e Quemós).

O que achou deste artigo?

Clique nas estrelas

Média 4.7 / 5. Quantidade de votos: 26

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Diego Pereira do Nascimento
Últimos posts por Diego Pereira do Nascimento (exibir todos)

Comentários do artigo

Inscrever-se
Notificar de
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários