Sem filho de Noé, é uma dos personagens bíblicos mais importantes da genealogia de Gênesis, reverenciado como o ancestral da linhagem messiânica e o pai dos povos semitas. Como um dos oito sobreviventes do Dilúvio, ele serve como uma ponte fundamental entre o mundo pré-diluviano e a nova humanidade.
Apesar de sua menção relativamente breve, sua conduta piedosa, a bênção profética que recebeu e seu papel como predecessor de Abraão o tornam um personagem de profundo interesse na tradição judaico-cristã e em diversos escritos extrabíblicos.
Neste artigo, apresentamos a vida deste importante patriarca, sua família e sua relevância para a história da redenção.
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Nascimento e família de Sem filho de Noé
A vida de Sem está registrada em Gênesis, capítulos 5 a 11. Ele nasceu antes do Dilúvio, em uma época em que a maldade humana havia atingido seu ápice.
Ele foi um dos três filhos que ajudaram seu pai, Noé, na monumental tarefa de construir a arca que preservaria a vida na Terra.
A Bíblia relata que ele tinha 100 anos quando gerou seu primeiro filho, Arfaxade, dois anos após o Dilúvio.
Ele viveu um total de 600 anos, servindo como um patriarca para a nova era da humanidade [1]. Sua vida representa a continuidade da fé e da promessa de Deus em um mundo recém-purificado.

E abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra.
Gênesis 9:1 (ACF)
Noé, pai
Noé foi o décimo patriarca desde Adão, um homem “justo e perfeito em suas gerações” que “andava com Deus”. Através de sua obediência, sua família foi salva do Dilúvio, e ele se tornou o novo progenitor de toda a humanidade.
Cam, irmão
Cam, um dos três grandes progenitores da humanidade pós-diluviana, tem sua história marcada por um ato de desrespeito que quebrou a honra familiar.
Sua zombaria diante da vulnerabilidade de seu pai resultou em uma maldição profética que recaiu não sobre ele, mas sobre seu filho, Canaã, prenunciando os futuros conflitos na Terra Prometida.
Cam tornou-se o ancestral de civilizações poderosas e influentes, incluindo os egípcios, os etíopes e, de forma crucial para a história de Israel, os cananeus.

Jafé, irmão
Jafé, em nítido contraste com seu irmão Cam, destacou-se por sua conduta honrosa. Ao se unir a Sem em um ato de piedade e respeito filial para cobrir a vergonha de seu pai, ele demonstrou lealdade.
Como resultado, Jafé recebeu uma bênção profética de “alargamento”, prevendo que seus descendentes se espalhariam e prosperariam por vastos territórios. Tradicionalmente, ele é considerado o patriarca dos povos que se estabeleceram na Europa e em partes da Ásia Menor.
Arfaxade, filho
Arfaxade dá continuidade a linhagem messiânica continua. A genealogia de Gênesis 11 e Lucas 3 traça a descendência de Abraão, e consequentemente do Rei Davi e de Jesus Cristo, diretamente a partir de Arfaxade.
Elão, filho
Elão é listado como o primogênito de Sem em Gênesis 10. Ele é tradicionalmente considerado o ancestral do povo elamita, que formou uma das mais antigas e poderosas civilizações do Oriente Próximo. O reino de Elam estava localizado a leste da Mesopotâmia, onde hoje fica o sudoeste do Irã, e sua capital era a famosa cidade de Susa.
Assur, filho
Assur é o segundo filho de Sem e o patriarca do povo assírio. Seus descendentes fundaram a Assíria, uma das nações mais influentes e temidas da antiguidade, com capitais em Assur e Nínive. O Império Assírio desempenhou um papel crucial na história de Israel, sendo responsável pela conquista e exílio do Reino do Norte em 722 a.C.
Arfaxade, filho
Arfaxade é o filho através de quem a linhagem messiânica continua. A genealogia de Gênesis 11 e Lucas 3 traça a descendência de Abraão, e consequentemente do Rei Davi e de Jesus Cristo, diretamente a partir de Arfaxade, tornando-o uma figura central na história da redenção.
Lude, filho
Lude é um dos filhos de Sem, e seus descendentes são frequentemente identificados pelos historiadores com o povo lídio.
Os lídios habitaram a região da Anatólia, na atual Turquia, e foram um reino próspero, conhecido por sua riqueza e por suas habilidades militares. Profetas como Isaías e Ezequiel os mencionam como guerreiros e arqueiros habilidosos.
Arã, filho
Arã é o patriarca do povo arameu, que se estabeleceu na região ao norte de Israel, correspondendo em grande parte à Síria moderna, com Damasco sendo sua cidade principal.
Além da importância geopolítica, o legado mais duradouro dos arameus foi sua língua, o aramaico, que se tornou o idioma internacional do Oriente Próximo e a língua comum falada pelos judeus na época de Jesus.
História de Sem filho de Noé
A história de Sem é marcada por um ato de honra que definiu seu futuro e o de seus descendentes.
A bênção de Noé
Após o Dilúvio, Noé se embriagou e ficou nu em sua tenda. Enquanto seu irmão Cam zombou da situação, Sem e Jafé tomaram uma capa, andaram de costas e cobriram seu pai não olhando para sua vergonha (Gênesis 9:23). Por este ato de respeito, Noé proferiu uma bênção profética sobre ele, dizendo:
“Bendito seja o Senhor Deus de Sem…”
Gênesis 9:26
Esta bênção é única. Noé não abençoa seu filho diretamente, mas abençoa o Senhor em relação a Sem filho de Noé.
Isso é interpretado como a designação dele e sua linhagem para ter um relacionamento pactual especial com Deus, o que se cumpre na escolha de Abraão e do povo de Israel [2].
A linhagem messiânica
O principal papel de Sem na história da redenção é ser o ancestral do povo escolhido. A “Tabela das Nações” em Gênesis 10 detalha seus descendentes, que formaram os povos semitas.
Dentre eles, a linhagem de Arfaxade e Eber (de quem deriva o termo “hebreu”) é destacada, levando diretamente a Abraão, o pai da fé.

Novo Testamento
Sem é mencionado no Novo Testamento na genealogia de Jesus em Lucas 3:36, confirmando sua posição como um ancestral fundamental do Messias.
Relatos extrabíblicos de Sem filho de Noé
Textos judaicos extrabíblicos expandem enormemente o papel de Sem, retratando-o como um grande sacerdote e profeta que transmitiu a sabedoria de Deus para as gerações pós-diluvianas.
Literatura rabínica e a identificação com Melquisedeque
Uma das tradições rabínicas mais fortes e persistentes, encontrada nos Targums e no Midrash, identifica Sem filho de Noé com Melquisedeque, o misterioso rei e sacerdote de Salém que abençoou Abraão em Gênesis 14 [3].
Os argumentos para esta identificação incluem o fato de que as cronologias bíblicas permitem que a vida de Sem e Abraão tenham se sobreposto por muitos anos.
Como o patriarca mais reverenciado de sua época, faria sentido que Sem ocupasse uma posição sacerdotal.
O Livro de Jasher
O Livro de Jasher, um texto hebraico não canônico, retrata Sem filho de Noé como um mestre e profeta.
A obra narra que Abraão estudou com Sem e seu bisneto Éber em uma academia, e que Sem transmitiu as tradições e os mandamentos de Deus que havia aprendido com Noé [4].

Sem em outras religiões
Sem é reverenciado como uma figura justa e importante em outras tradições abraâmicas.
Islamismo
No Islamismo, Sem filho de Noé, do árabe Sām, é considerado um profeta e o filho justo de Nūḥ (Noé).
Embora não seja mencionado pelo nome no Alcorão, os historiadores e exegetas islâmicos, como al-Tabari e Ibn Kathir, o descrevem como o herdeiro da profecia de seu pai.
A tradição islâmica o considera o ancestral dos árabes e dos hebreus e, portanto, de muitos profetas, incluindo Ibrahim (Abraão) e Maomé [5].

Mandaísmo
Nas escrituras mandeicas, como o Ginza, Sem filho de Noé é chamado de Shum. Ele é reconhecido como o filho justo do herói do dilúvio, Nu (Noé) [6].
Gnosticismo
No Gnosticismo, Sem filho de Noé é radicalmente reinterpretada, especialmente em um texto conhecido como “A Paráfrase de Sem”. Esta obra, com ensinamentos únicos dentro da literatura gnóstica, eleva Sem a um status de redentor cósmico.
Diferente de muitas tradições gnósticas que viam Sete como o ancestral de sua linhagem espiritual, este texto coloca Sem como o verdadeiro progenitor dos gnósticos.
Ele é apresentado como o primeiro ser na Terra, que recebe uma revelação divina — um conhecimento secreto e universal (gnosis) — de uma figura salvadora chamada Derkedeas.
A missão de Sem filho de Noé é, então, trazer este ensinamento libertador para a humanidade.
Nesta versão, a história do Dilúvio é invertida: não é um juízo divino contra o pecado, mas uma tentativa das forças da escuridão de destruir o mundo para impedir que a sabedoria dele se espalhasse.

Interpretações sobre a identidade de Sem
A identidade de Sem filho de Noé é o foco de um debate teológico fascinante, principalmente em torno de sua possível associação com Melquisedeque.
A Teoria Sem-Melquisedeque
A tradição que equipara Sem filho de Noé a Melquisedeque busca dar uma identidade histórica ao misterioso rei de Salém.
Sendo Sem o patriarca da linhagem abençoada, ele teria a autoridade natural para abençoar seu descendente, Abraão. Esta visão foi popular entre os estudiosos judeus por séculos.
No entanto, a maioria dos teólogos cristãos rejeita essa identificação, baseando-se na carta aos Hebreus no Novo Testamento.
O autor de Hebreus argumenta que Melquisedeque é um tipo de Cristo precisamente porque sua genealogia é desconhecida (“sem pai, sem mãe, sem genealogia…”, Hebreus 7:3).
Se Melquisedeque fosse Sem filho de Noé, sua genealogia seria bem conhecida, o que enfraqueceria o argumento tipológico do autor [7].

Legado de Sem filho de Noé
O legado de Sem filho de Noé, é imenso e perdura até hoje, principalmente através da linguagem e da identidade cultural de uma vasta porção da humanidade. Sua figura transcende a narrativa de Gênesis para se tornar o ponto de origem de um dos ramos mais influentes da família humana.
Pai dos povos semitas
O nome de Sem filho de Noé é a origem etimológica do termo “semita”. Esta designação foi formalmente cunhada no final do século XVIII por historiadores e linguistas europeus para categorizar um grupo de povos e línguas do Oriente Próximo com características comuns [9].
A base para esta classificação é a “Tabela das Nações” em Gênesis 10, que descreve Sem como o ancestral de povos como os elamitas, os assírios (descendentes de Assur), os arameus (descendentes de Arã) e, crucialmente, os hebreus, através de seu filho Arfaxade e seu descendente Éber [1].

A família das línguas semíticas
Modernamente, o termo “semita” é usado principalmente por linguistas para descrever uma das mais importantes famílias de línguas do mundo. As línguas semíticas compartilham uma estrutura gramatical e um vocabulário que apontam para uma origem comum.
Elas são famosas por seu sistema de raízes consonantais, onde uma raiz de três consoantes (ex: K-T-B) carrega um significado básico (neste caso, “escrever”), que é então modificado por vogais para formar diferentes palavras (katab – ele escreveu; kitab – livro) [10].
Esta família linguística inclui algumas das línguas mais importantes da história humana, tanto antigas quanto modernas:
- Línguas Antigas: O acadiano (língua da Babilônia e Assíria), o fenício, o ugarítico, o amonita e o aramaico, que foi a língua franca do Oriente Médio por séculos e a língua falada por Jesus e seus discípulos.
- Línguas Modernas: O árabe (falado por centenas de milhões de pessoas), o hebraico (revivido como a língua oficial de Israel), o amárico (língua oficial da Etiópia) e o tigrínia (falado na Etiópia e Eritreia).
Contribuições culturais e religiosas
O impacto dos povos semitas na história mundial vai muito além da linguagem.
A invenção do alfabeto, um sistema de escrita onde cada símbolo representa um som, é creditada a povos de fala semítica na região do Levante por volta de 1800 a.C.
Este sistema revolucionário, adotado e adaptado pelos fenícios, gregos e romanos, é o ancestral direto da maioria dos alfabetos usados hoje no mundo [11].
Mais importante ainda, o contexto cultural semita foi o berço do monoteísmo ético.
As três grandes religiões monoteístas do mundo — Judaísmo, Cristianismo e Islamismo — nasceram e se desenvolveram entre os povos semitas.
A revelação de um Deus único, pessoal e moralmente justo, que age na história e estabelece uma aliança com a humanidade, é a maior contribuição teológica da tradição semita para o mundo [12].

Uso moderno e o termo “antissemitismo”
É crucial fazer uma distinção importante. Embora “semita” seja um termo linguístico e etnográfico amplo que se refere a muitos povos, incluindo árabes e etíopes, o termo “antissemitismo” tem um significado muito específico.
Ele foi cunhado no século XIX para descrever o preconceito, a discriminação e o ódio dirigidos exclusivamente contra os judeus. Hoje, o termo continua a ser usado com este significado preciso e não se refere a preconceito contra outros povos de língua semítica [13].
Etimologia e significado de Sem
O nome Sem filho de Noé é uma transliteração do hebraico Šēm (שֵׁם). Seu significado é direto e poderoso.
A palavra šēm em hebraico significa literalmente “nome”. No entanto, no pensamento hebraico, um “nome” é muito mais do que uma etiqueta; ele representa a reputação, a fama, a autoridade e o caráter de uma pessoa. Assim, o nome Sem carrega as conotações de “renome” ou “fama” [8].
Este significado se encaixa perfeitamente na bênção que ele recebeu e em seu legado. Sua linhagem se tornou a mais renomada da história, pois foi através dela que o “Nome” de Deus foi revelado ao mundo através de Israel e, finalmente, na pessoa de Jesus Cristo.
Aprenda mais
[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.
[Vídeo] A HISTÓRIA DE NOÉ: A ARCA E O GRANDE DILÚVIO (Rodrigo Silva). PrimoCast.
[Vídeo] A descendência dos filhos de Noé – Evidências. Rafael de Souza Araujo.
Perguntas comuns
Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre este personagem bíblico tão importante para a história da humanidade.
Quem era o povo de Sem filho de Noé?
O povo de Sem, conhecido como “semitas”, são os descendentes listados em Gênesis 10. Eles se estabeleceram principalmente no Oriente Médio e incluem os ancestrais de povos como os hebreus (através de Éber), arameus, assírios, elamitas e vários povos árabes.
Quais povos são descendentes de Sem filho de Noé?
De acordo com Gênesis 10, os descendentes de Sem incluem os elamitas, assírios (de Assur), arameus (de Arã) e, através de Arfaxade, os hebreus e alguns povos árabes. A partir deles se originaram as nações proeminentes do Crescente Fértil, como Israel e a Assíria.
Quem foi a esposa de Sem filho de Noé?
A Bíblia não menciona o nome da esposa de Sem. Textos extrabíblicos, como o Livro dos Jubileus, tentam preencher essa lacuna, nomeando-a como Sedeqetelebab. No entanto, esta informação não faz parte do cânone bíblico e pertence à tradição.
Quem foi Sem filho de Noé na Bíblia?
Sem foi um dos três filhos de Noé que sobreviveram ao Dilúvio na arca. Ele é conhecido por seu ato de honra ao pai, recebendo a bênção principal da linhagem da promessa. Através de seu filho Arfaxade, ele se tornou o ancestral de Abraão e de Jesus Cristo.
O que significa “Sem filho de Noé”?
A frase identifica Sem como um dos três progenitores da humanidade após o Dilúvio. Ser “filho de Noé” significa que ele foi salvo na arca e recebeu a bênção para repovoar a Terra, sendo escolhido para dar continuidade à linhagem piedosa que levaria a Abraão.
O que Abraão era de Sem filho de Noé?
Abraão era um descendente direto de Sem. A genealogia em Gênesis 11 mostra que Abraão nasceu nove gerações depois de Sem, através da linhagem de seu filho Arfaxade. Sem é, portanto, o patriarca ancestral de Abraão e de todo o povo hebreu.
Quem foi o neto de Noé e o primeiro filho de Sem?
O primeiro filho de Sem listado na linhagem principal de Gênesis 11 é Arfaxade. Ele nasceu dois anos após o Dilúvio e é o neto de Noé através de quem a genealogia que leva a Abraão continuou. Gênesis 10 também lista outros filhos, como Elão e Assur.
Fontes
[1]. Bíblia Sagrada, Gênesis 11:10-11.
[2]. Wenham, Gordon J. (1987). Genesis 1–15, Word Biblical Commentary.
[3]. Talmud Babilônico, Nedarim 32b; Gênesis Rabá 43:6.
Demais fontes
[4]. O Livro de Jasar, Capítulo 9.
[5]. Al-Tabari, “História dos Profetas e Reis”, Volume 1.
[6]. Ginza Rabba (O Grande Tesouro), texto sagrado do Mandaísmo.
[7]. Bíblia Sagrada, Hebreus, Capítulo 7.
[8]. Gesenius, Wilhelm. Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scriptures.
[9]. Baasten, Martin F. J. (2003). “A Note on the History of ‘Semitic’”. Em Hamlet on a Hill: Semitic and Greek Studies.
[10]. Huehnergard, John (2004). “Semitic Languages”. Em The Cambridge Encyclopedia of the World’s Ancient Languages.
[11]. Daniels, Peter T. (1996). The World’s Writing Systems. Oxford University Press.
[12]. Smith, Mark S. (2002). The Early History of God: Yahweh and the Other Deities in Ancient Israel. Eerdmans.
[13]. Lipstadt, Deborah E. (2019). Antisemitism: Here and Now. Schocken.
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