Adão, o primeiro homem da criação, figura central no livro de Gênesis, é o patriarca de toda a humanidade, conforme a narrativa bíblica. Sua história estabelece fundamentais para a compreensão da origem da vida, da natureza humana, do pecado e da promessa de redenção.

O relato de sua existência não apenas descreve o início da civilização, mas também lança as bases para muitas doutrinas teológicas posteriores.

Neste artigo apresentamos um pouco da vida deste personagem bíblico e sua importância para toda história bíblica e história da humanidade.

Você também pode ouvir nosso podcast sobre Adão.


Origem e família de Adão

A origem de Adão é única em toda Criação, ele não nasceu de pais humanos, ele foi criado pelo próprio Deus. O Senhor formou Adão do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida, tornando-o um ser vivente (Gênesis 2:7).

A Bíblia relata que após ele ser criado, Deus o colocou no meio do Jardim do Éden (Paraíso). No Éden ele trabalhou cuidando do jardim e nomeando todos os animais da Terra.

Alguns acreditam que ele também nomeou as plantas, mas a Bíblia não faz esse relato.

Não é possível dizer quanto tempo Adão viveu no Jardim do Éden. Apenas sabemos que ele trabalhou nomeando os animais e em determinado momento Deus notou que ele se sentia sozinho. Com isso o Senhor o fez cair em um profundo sono, tirou parte de suas costelas e delas formou a mulher.

Após cometerem o pecado e serem expulsou do jardim, ele e sua mulher tiverem diversos filhos e filhas, sendo nomeados pela Bíblia apenas Caim, Abel, e depois da morte de Abel, Sete.

Ilustração de Adão no meio do Jardim do Éden
Ilustração de Adão no meio do Jardim do Éden

Eva, esposa

Eva foi criada como auxiliadora idônea do homem, completando a humanidade e estabelecendo o padrão para o casamento (Homem e mulher). Deus a criou após observar a solidão do homem, a formando das costelas de seu marido. Ela foi a primeira mulher registrada da Bíblia, e consequentemente primeira mulher da humanidade.

Eva acabou sendo tentada pela Serpente, comendo do fruto da Árvore da Vida e dando a seu marido. Com isso ambos caíram em pecado e foram expulsos do Éden, levando a Queda da humanidade para o pecado, se tornando os primeiros pecadores do mundo.

Caim, filho

Caim foi o primeiro ser humano a nascer de forma natural, a partir da relação sexual de seus pais. Ele nasceu após a expulsão do Jardim do Éden, nascendo já em um mundo deturpado pelo pecado.

A Bíblia nos relata que ele se tornou o primeiro assassino da humanidade, matando seu irmão por inveja depois de Deus aceitar a oferta de Abel e rejeitar a de Caim.

Após assassinar seu irmão o Senhor colocou uma marca em Caim para que ele se lembrasse de seu pecado e todos o reconhecessem. Ele se mudou para a Terra de Node, formou uma linhagem distante dos caminhos do Senhor e fundou uma cidade com o nome de seu filho, Enoque.

A descendência de Caim possuiu talentos incríveis. Entre os seus descendentes estão Jabal, o pioneiro dos pastoreio nômade, Jubal, que deu início as músicas e aos instrumentos musicais, e Tubalcaim, o precursor da metalurgia.

Representação de Caim estabelecendo a cidade de Enoque, por Julius Schnorr von Carolsfeld
Representação de Caim estabelecendo a cidade de Enoque, por Julius Schnorr von Carolsfeld

Abel, filho

Abel foi o segundo ser humano a nascer de forma natural. Ele foi pastor de ovelhas, sendo o primeiro pastor registrado na Bíblia. Ele é lembrado por ter feito uma ofertas que agradou ao Senhor, feita com fé e do melhor que seu rebanho tinha a oferecer.

Não sabemos quanto tempo ele viveu, apenas que sua vida foi breve. Ele foi assassinado por seu irmão Caim após Deus se alegrar pela oferta dada por Abel e rejeitar a sua.

Sete, filho

Sete foi o precursor de uma linhagem que escolheu adorar ao Senhor, em contraste da linhagem de seu irmão Caim. Ele é lembrado por ser o filho que foi dado a seus pais após a morte de seu irmão Abel.

Se sua linhagem vieram grandes homens, como Enoque, o homem que andou com Deus e foi arrebatado para não conhecer a morte, e Noé, que construiu a Arca e iniciou uma nova Aliança entre o Senhor e a humanidade.

A Bíblia não dá muitas informações a seu respeito, apenas que após o nascimento de seu filho Enos, as pessoas voltaram a invocar o nome de Deus (Gênesis 4:26).

Representação de Sete filho de Adão
Representação de Sete filho de Adão

História de Adão

A história de Adão, o primeiro homem, é fundamental para entendermos a origem da humanidade e a nossa relação com Deus.

Sua vida é inteiramente citada nos primeiros três capítulos do livro de Gênesis, sendo mais citado nos capítulos 2 e 3. Apesar de ser breve, é possível conhecermos os principais pontos sobre sua história, como origem, trabalho, casamento, erros e descendência.

Criação de Adão no Jardim do Éden

No início de tudo, Deus criou Adão a partir do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida, transformando-o em um ser vivente (Gênesis 2:7).

Deus o colocou no Jardim do Éden e lhe deu tarefas importantes. Ele era responsável por “cultivar e guardar” o jardim (Gênesis 2:15), o que significava cuidar da Criação de Deus.

Além de cuidar do Jardim, também recebeu a tarefa de dar nome a todos os animais [1].

'Elohim criou Adão' por William Blake

“Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os a Adão, para que este visse como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a cada ser vivente, isso foi o seu nome”

Gênesis 2:19

A ordem para não comer da Árvore do Bem e do Mal

No meio do jardim havia duas árvores especiais: a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Deus permitiu que Adão comesse de todo fruto do jardim com exceção do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

Diferente do que muitos pensam, essa ordem não era para ser um peso para o primeiro casal, mas uma forma de demonstrar sua confiança e obediência a Deus [2].

“De toda árvore do jardim você pode comer livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerá; porque, no dia em que dela comer, certamente morrerá”

Gênesis 2:16-17

Adão e Eva

Deus, percebendo que Adão se sentia sozinho, decidiu lhe criar uma companheira (Auxiliadora). Então, o Senhor fez Adão cair em um sono profundo e, de uma de suas costelas, criou a mulher, Eva.

A união dos dois representa o início do casamento, uma parceria baseada em ajuda mútua e no amor.

Eles viviam em um estado de pura inocência, pois a Bíblia relata que “ambos estavam nus, e não sentiam vergonha” (Gênesis 2:25). A forma como Eva foi criada simboliza que homem e mulher são iguais e se completam [3].

“Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”

Gênesis 2:18
Adão e Eva por Mabuse, século XVI
Adão e Eva por Mabuse, século XVI

A tentação da Serpente e a desobediência

A paz no Jardim do Éden acabou por causa da Serpente, uma personificação de Satanás (Gênesis). Ela enganou Eva, a fazendo duvidar da ordem do Senhor. A serpente prometeu que, se eles comessem o fruto proibido, seriam como Deus e saberiam a diferença entre o bem e o mal (Gênesis 3:5).

Eva comeu o fruto e deu a seu esposo, que também comeu (Gênesis 3:6). A atitude deles foi uma escolha de desobedecer a Deus. Eles não obedeceram o Senhor e desejaram ser iguais a Ele, e isso foi a causa do primeiro pecado [4].

Com isso não apenas Adão e Eva pecaram, toda a humanidade passou a sofrer as consequências da desobediência dos primeiros humanos, corrompendo toda a natureza humana.

Expulsão do Jardim do Éden

As consequências do primeiro pecado foram imediatas. Adão e Eva se sentiram envergonhados pela sua nudez e se esconderam de Deus (Gênesis 3:8).

Quando questionados por seu pecado, eles tentaram culpar um ao outro, demonstrando que a confiança um no outro foi quebrada.

Deus, então, deu um castigo a cada um. A serpente foi amaldiçoada. Para Eva, o sofrimento no parto aumentaria e haveria conflito com seu marido (Gênesis 3:16). Para Adão, o trabalho na terra se tornaria árduo e cansativo (Gênesis 3:19).

O castigo final foi a expulsão do Jardim do Éden. Deus os expulsou para que não comessem da Árvore da Vida e vivessem para sempre no pecado. Ele colocou querubins na entrada para guardar o caminho (Gênesis 3:24).

Essa expulsão representou a separação entre Deus e a humanidade, trazendo dificuldades e a morte [5].

Expulsão de Adão e Eva (Alexandre Cabanel)
Expulsão de Adão e Eva (Alexandre Cabanel)

Adão fora do Jardim do Éden

Fora do Éden, a vida para Adão e Eva se tornou uma luta pela sobrevivência. A terra, que agora era amaldiçoada, produzia espinhos e ervas daninhas, e eles precisavam trabalhar muito para conseguir alimento. As dores do parto se tornaram a realidade de Eva, e o relacionamento entre eles passou a ter conflitos.

Apesar de tudo, Deus deixou uma pequena pista de esperança. Na maldição da serpente, o Senhor apontou para Cristo, o Salvador, dizendo que o descendente da mulher ferirá a cabeça da Serpente [6].

“Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar”

Gênesis 3:15

A Bíblia não trás detalhes de como foi os anos do casal fora do Jardim, apenas que durante esse período eles tiveram diversos filhos e filhas, além de sofreram as consequências do pecado em sua família.

Filhos de Adão e Eva: Conflitos familiares

Fora do Jardim do Éden, Adão e Eva formaram uma família, tendo dois filhos inicialmente: Caim, que se tornou agricultor, e Abel, pastor de ovelhas.

Caim mata Abel

A Bíblia relata que um dia Caim e Abel ofereceram sacrifícios ao Senhor. Caim apresentou parte de sua colheita e Abel apresentou o melhor de seu rebanho.

Deus se agradou da oferta de Abel e recusou a oferta de Caim (Gênesis 4:4-5). Dominado pelo ciúme, Caim cometeu o primeiro assassinato da história ao matar seu irmão (Gênesis 4:8).

Como punição, Caim foi condenado a viver como um fugitivo (Gênesis 4:12). Ele acabou fugindo para a Terra de Node, fundando uma cidade e sua própria dinastia.

Caim conduzindo Abel à morte, por James Tissot
Caim conduzindo Abel à morte, por James Tissot

Nascimento de Sete e demais filhos

Mais tarde, Eva teve outro filho, Sete, e por meio dele a linhagem humana continuou. A Bíblia relata que após Sete, ela teve ainda muitos outros filhos e filhas.

Morte de Adão

Adão viveu 930 anos e foi pai de muitos outros filhos e filhas (Gênesis 5:4-5), tornando-se o patriarca de toda a humanidade, mas também transmitindo o legado de dor e conflito trazido pelo pecado [7].


Lendas judaicas de Adão: Relatos extra-bíblicos

Além do relato bíblico, muitas outras histórias e interpretações sobre Adão surgiram na tradição judaica. Esses textos, conhecidos como midrash, detalham eventos e que não estão na narrativa original, por conta disto não é possível considerar esses relatos reais.

A lenda de Lilith

Uma antiga lenda judaica diz que Deus criou uma esposa para Adão antes de Eva, uma mulher chamada Lilith. Essa lenda surgiu devido o relato bíblico de Gênesis 1:27, “homem e mulher os criou”.

Segundo a lenda, Deus primeiro criou uma mulher do pó, junto de Adão, e a chamou de Lilith. Eles teriam vivido juntos no Jardim até se separarem em decorrência de uma longa briga.

A briga seria motivada porque Lilith exigia igualdade, se recusando ser submissa a seu marido [9].

Após a separação Lilith teria fugido para fora do Jardim do Éden, e com isso Deus criou Eva como esposa substituta [9].

Lilith como a serpente em pintura de Rafael, em 1508
Lilith como a serpente em pintura de Rafael, em 1508

Criação de Adão: Com dois rostos ou uma pessoa andrógina

Também baseada no relato bíblico de Gênesis 1:27, “homem e mulher os criou”, existe uma lenda que diz que Adão foi criada inicialmente com dois rostos, um masculino e outro feminino, ou como um ser andrógino, com os dois sexos unidos pelas costa.

Deus teria visto que essa forma dificultava a locomoção e a comunicação do ser humano, e por isso os separou [9]. A descrição de Eva ter se formado a partir da costela de seu marido, seria uma metáfora desta separação.

A criação de Adão, segundo Louis Ginzberg

Uma antiga história judaica, contada por Louis Ginzberg, diz que Deus juntou pó dos quatro cantos da Terra para criar Adão. Cada cor de pó tinha um propósito: o vermelho formou o sangue, o preto os órgãos internos, o branco os ossos e o verde a pele [8].

A alma do primeiro homem é vista como um reflexo de Deus. A tradição explica essa semelhança da seguinte forma: assim como Deus preenche o mundo, a alma preenche o corpo; assim como Deus vê tudo, mas não é visto, a alma também vê, mas não pode ser vista; e assim como Deus é puro e habita em segredo, a alma também é [8].

Para Louis Ginzberg, os primeiro seres humanos possuíam um corpo feito de luz,, a mesma luz que Deus criou no primeiro dia [9].

Foto de Louis Ginzberg
Foto de Louis Ginzberg

Adão e as festas de inverno

Uma lenda do Talmude sugere que foi Adão quem começou a tradição de jejuar antes do solstício de inverno e celebrar depois. Ele teria ficado assustado ao ver os dias ficando mais curtos, mas se alegrou quando eles voltaram a ficar mais longos. Com o tempo, essa observância teria se transformado em festas pagãs romanas como a Saturnália [10].

A separação de Adão e Eva

Uma tradição conta que, após serem expulsos do Éden, Adão e Eva se separaram por 130 anos. Durante esse tempo, lendas dizem que ambos tiveram relações com demônios. Finalmente, eles se reencontraram e Eva deu à luz Sete [9].

Para explicar como os filhos do casal tiveram descendentes, o antigo Livro dos Jubileus conta que eles tiveram filhas chamadas Awân e Azura, além de outros nove filhos. Caim teria se casado com Awân, e Sete com Azura.

O arrependimento de Adão

Outros textos antigos, como A Vida de Adão e Eva, contam que Adão se arrependeu de seu pecado e, como recompensa, foi levado para o paraíso celestial, simbolizando o destino de todas as pessoas justas no fim dos tempos [11].

A morte e o sepultamento de Adão

Uma lenda judaica antiga diz que o anjo Miguel esteve presente na morte de Adão, junto com Eva e seu filho Sete. Diz a tradição que ele foi enterrado ao lado de seu filho Abel [9].

O local do sepultamento, de acordo com livro apócrifo Apocalipse de Moisés, seria no Monte Moriá.

O mesmo monte onde posteriormente foi construído o Templo do Senhor em Jerusalém [8]. Alguns creem que este seja o centro do mundo e a entrada para o Jardim do Éden.

Ilustração do sepultamento de Adão
Ilustração do sepultamento de Adão

O livro do Anjo Raziel

O chamado “Livro do Anjo Raziel” (Sefer Raziel HaMalakh) é uma coleção de textos místicos que, segundo a tradição judaica, foi revelado a Adão pelo anjo Raziel [12].

Embora o livro provavelmente tenha sido compilado na Idade Média, algumas de suas partes podem ser muito mais antigas. A obra é dividida em seções que tratam de segredos da Criação, nomes sagrados de Deus, fórmulas para amuletos e feitiços [12].


Adão em outras religiões

Embora Adão seja um personagem citado principalmente nas tradições judaicas e cristãs, ele também aparece em outras religiões e sistemas de crenças, cada um com sua própria interpretação de sua história e importância.

Islamismo

No islamismo, Adão (Ādam) é o primeiro ser humano e profeta, considerado também o primeiro muçulmano.

A tradição conta que Deus (Alá) o criou de um punhado de terra de todas as partes do mundo, justificando a diversidade de cores de pele.

Quando Deus anunciou aos anjos que criaria um representante na Terra, eles questionaram sua escolha, mas Deus afirmou ter um conhecimento que eles não possuíam.

Por isso, Ele ordenou que os anjos se curvassem diante de Ādam em sinal de respeito.

O profeta islâmico Adão e Hawa sendo expulsos do Jardim
O profeta islâmico Adão e Hawa sendo expulsos do Jardim

A queda de Adão e Eva segundo o Islã

A história da queda de Adão e Eva é diferente no Islã. Ambos comeram juntos da Árvore da Imortalidade e compartilham a culpa igualmente. Eva não é responsabilizada pelas dores do parto nem pela tentação, pois a fé islâmica prega que ninguém paga pelos pecados de outro. A corrente xiita, inclusive, nem considera o ato um pecado, já que desobediência só existe na Terra.

Após a queda, a tradição diz que Ādam foi enviado ao Sri Lanka e, de lá, peregrinou até Meca, onde se arrependeu e foi perdoado. Em Meca, ele teria construído a Caaba, o primeiro santuário, e aprendido os rituais da peregrinação.

Visões divergentes do Islã sobre Adão e Eva

Existem outras interpretações, como a da comunidade Ahmadiyya, que vê Ādam não como o primeiro ser humano, mas como o primeiro a receber a revelação divina.

Nasir Khusraw, um estudioso islâmico, o considerava o primeiro “orador” da revelação, iniciando uma linhagem de líderes. Nas tradições islâmicas, Ādam é frequentemente chamado de “Ādam, o Escolhido” por Deus.

Mandaísmo

No Mandaísmo, uma antiga religião do Oriente Médio, Adão não é apenas o primeiro homem, mas também o fundador da fé e seu primeiro profeta.

Ele é visto como aquele que trouxe o manda (o conhecimento divino) e ensinou o verdadeiro caminho para a iluminação [13].

Para os mandeus, ele foi o responsável por espalhar a kushta, que significa a verdade divina. A importância do primeiro homem na tradição mandaísta é tão grande que o calendário mandeu é contado a partir de sua criação.

Por exemplo, o ano de 2022 no calendário gregoriano corresponde ao ano 445.391 “AA” (Após Adão) para eles [13].

Uma cópia do Ginza Rabba em tradução árabe (Escritos do mandaísmo)
Uma cópia do Ginza Rabba em tradução árabe (Escritos do mandaísmo)

Fé drusa (Al-Muwahhidun)

Os drusos, um grupo religioso do Oriente Médio, veem Adão como o primeiro “porta-voz” (natiq), aquele que ajudou a transmitir os ensinamentos essenciais do monoteísmo (a crença em um único Deus) para a humanidade. Ele é considerado um dos sete grandes profetas que apareceram em diferentes períodos da história para guiar as pessoas [15].

Gnosticismo

Para o gnosticismo, uma heresia do primeiro século, Adão é considerado um ser espiritual primordial, nascido da luz de um reino divino. O texto gnóstico Sobre a Origem do Mundo o nomeia como “Adão de Luz” [14].

Segundo a tradição gnóstica, os arcontes, divindade inferiores que governavam o mundo, virão Adão pela primeira vez, o consideraram tão iluminado e puro que o consideraram um deus.

Dessa forma, pensaram que Deus, o Criador (Yaldabaoth), teria mentido para eles e que havia outros deuses além do Criador Único [14].

Com inveja, eles acabaram criando um ser semelhante a Adão em forma física, um ser humano mortal. Segundo eles, este ser físico é o Adão registrado nas Escrituras [14].

Ainda de acordo com essa essa tradição, alma do Adão físico foi entregue por sua contraparte espiritual e não pelo Deus cristão [14].

Uma divindade serpentina com cara de leão encontrada em uma joia gnóstica
Uma divindade serpentina com cara de leão encontrada em uma joia gnóstica

Legado de Adão na cultura

A história de Adão inspirou diversas obras ao longo da história, sendo livros, filmes, séries e etc. Sua vida, em especial sua desobediência e conflitos familiares serviram de inspiração para diversos enredos na cultura popular.

Legado na literatura

As história do primeiro homem da humanidade, assim como referência a ela, podem ser encontradas em diversos livros dos últimos séculos.

Os Diários de Adão e Eva de Mark Twain

Mark Twain, em Os Diários de Adão e Eva, oferece uma visão engraçada e carinhosa do casal, retratando Adão como um homem prático que tenta entender o mundo e a chegada da curiosa Eva. [17]

Paraíso Perdido de John Milton

A representação mais conhecida de Adão na literatura é a de John Milton em seu livro Paraíso Perdido (1667). Milton conta a história bíblica de forma mais detalhada, dando ao primeiro homem uma personalidade complexa.

Ele o mostra como um personagem nobre e trágico, inteligente e apaixonado por Eva, cujas escolhas têm consequências eternas.

O trabalho de Milton não apenas popularizou o primeiro casal, mas também transformou ele em um personagem com profundidade humana. [16]

O Paraíso Perdido capa da primeira edição
O Paraíso Perdido capa da primeira edição

As Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis

Já em As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, os personagens principais são chamados de “filhos de Adão” e “filhas de Eva”, uma forma de nos lembrar que, mesmo em um mundo de fantasia, todos compartilhamos a mesma origem.

Legado nas artes visuais

Visualmente, a história de Adão foi imortalizada na história da arte, se tornando sinônimo da perfeição do corpo humano.

A representação mais icônica é a de Michelangelo no teto da Capela Sistina. Em A Criação de Adão (c. 1512), o momento em que Deus estende a mão para dar vida a um Adão fisicamente impecável é uma das imagens mais reverenciadas da cultura ocidental.

A pequena distância entre os dedos de Deus e de Adão captura a faísca da vida e a conexão entre o divino e o humano [18]. Outros grandes mestres, como Albrecht Dürer e Lucas Cranach, o Velho, também se dedicaram a retratar a história do primeiro homem, explorando temas de inocência, beleza e a harmonia do homem com a natureza.

A Criação de Adão de Michelangelo (1512)
A Criação de Adão de Michelangelo (1512)

Legado no cinema

No cinema e na televisão, o arquétipo de Adão continua a fascinar. Embora apareça em adaptações bíblicas diretas, como no filme A Bíblia… No Início (1966), sua influência é frequentemente mais alegórica.

Ele é muito representado em histórias de ficção científica que exploram a ideia de um “primeiro homem” em um novo planeta ou o último sobrevivente de um apocalipse, recriando o mito da origem para uma nova humanidade.

Legado na televisão

A aclamada série alemã da Netflix, Dark (2017-2020), usa o nome “Adam” para seu principal antagonista, um personagem obcecado pelas origens do tempo e do sofrimento, em uma clara alusão à figura que esteve no início de tudo [19].

Em produções como na série Lúcifer, o primeiro ser humano é reimaginado como uma figura cômica e imperfeita, mostrando como personagens bíblicos podem ser adaptados para o entretenimento moderno, refletindo os valores e o humor de nossa época.


Etimologia e significado de Adão

O nome Adão (em hebraico: אָדָם, ʼādām) possui um profundo significado, refletindo sua origem e natureza. Derivado da palavra hebraica ʼădāmāh (אֲדָמָה), que significa “terra” ou “solo vermelho”, o nome Adão serve como um lembrete constante de sua formação a partir do pó da terra [2].

Além de “homem feito do pó”, ʼādām também é usado genericamente na Bíblia para se referir à “humanidade” ou “ser humano” [2].

Assim, Adão não é apenas o nome de um indivíduo, mas também um termo que engloba toda a raça humana, da qual ele é o progenitor. Ele representa o ser humano em sua totalidade – sua glória inicial, sua capacidade de escolha moral e suas trágicas falhas.


Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] A HISTÓRIA DE ADÃO E EVA: O PRIMEIRO PECADO (Rodrigo Silva) | PrimoCast 428. PimoCast.


Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre este personagem bíblico tão marcante nos primeiros capítulos do Gênesis.

Qual era a missão de Adão na Terra?

Sua missão era cuidar e cultivar o Jardim do Éden, ter domínio sobre os animais e ser o primeiro guardião da Terra, além de gerar a humanidade.

Em que ano Adão viveu?

A Bíblia não especifica o ano em que Adão viveu. A cronologia é baseada em genealogias, e cálculos variam, mas a tradição judaico-cristã o coloca no início da criação do mundo.

O que a Bíblia diz sobre Adão?

A Bíblia o apresenta como o primeiro homem, criado por Deus à Sua imagem a partir do pó da terra. Ele desobedeceu a uma ordem divina, o que resultou na “queda” da humanidade.

Por que Adão não tinha umbigo?

Adão não tinha umbigo porque, segundo a narrativa bíblica, ele foi criado diretamente por Deus, sem ter nascido de uma mulher. O umbigo é a cicatriz do cordão umbilical.

Quem é o pai da humanidade na Bíblia?

Adão é o pai da humanidade na Bíblia, pois foi o primeiro homem criado por Deus e, junto com Eva, deu origem a toda a população da Terra.

O que Deus queria de Adão?

Deus queria que Adão tivesse comunhão com Ele, obedecesse às Suas ordens, administrasse a criação e vivesse em harmonia com Ele e com a natureza.

Quem mais pecou na Bíblia?

A Bíblia não classifica um pecador como “o maior”. O pecado original, que introduziu o mal no mundo, é atribuído a Adão e Eva por sua desobediência a Deus no Jardim do Éden.

Qual a relação entre Adão e Jesus?

A Bíblia, em Romanos 5:12-21, contrasta Adão com Jesus. Adão trouxe o pecado e a morte ao mundo, enquanto Jesus é visto como o “segundo Adão”, que trouxe a justiça e a vida.

O que Adão viu de Deus?

A Bíblia indica que Adão tinha uma relação direta e pessoal com Deus, que andava e falava com ele no Jardim. A forma exata dessa “visão” não é detalhada.

Como era Adão fisicamente?

A Bíblia não fornece detalhes físicos sobre Adão. Ele é descrito como sendo feito à imagem e semelhança de Deus, o que é interpretado como uma semelhança moral e espiritual, não necessariamente física.

O que Deus ordenou a Adão não comer?

Deus ordenou a Adão que não comesse do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, que ficava no meio do Jardim do Éden.

Quem é a esposa de Deus que foi excluída da Bíblia?

Não há registros de uma esposa de Deus que tenha sido excluída da Bíblia. A Bíblia ensina que Deus é um espírito único e não tem uma esposa.

Quem foi a primeira mulher criada por Deus?

A primeira mulher criada por Deus, segundo o livro de Gênesis, foi Eva, feita a partir de uma costela de Adão para ser sua companheira.


Fontes

[1] Hamilton, V. P. (2005). The Book of Genesis, Chapters 1-17. The New International Commentary on the Old Testament. Eerdmans.

[2] Wenham, G. J. (1987). Genesis 1-15. Word Biblical Commentary. Word Books.

[3] Kidner, D. (1967). Genesis: An Introduction and Commentary. Tyndale Old Testament Commentaries. Inter-Varsity Press.

Demais fontes

[4] Agostinho de Hipona. (2009). A Cidade de Deus. Editora Vozes.

[5] Calvino, J. (2007). As Institutas da Religião Cristã. Editora Cultura Cristã.

[6] Sproul, R. C. (2005). The Truth of the Cross. Reformation Trust Publishing.

[7] Von Rad, G. (1972). Genesis: A Commentary. The Old Testament Library. Westminster John Knox Press.

[8] Ginzberg, Louis (1998). As Lendas dos Judeus: Da Criação ao Êxodo: Notas para os Volumes 1 e 2.

[9] Schwartz, Howard (2006).  Árvore das Almas: A Mitologia do Judaísmo . Imprensa da Universidade de Oxford.

[10] TALMUDE. Avodah Zarah. [S. l.]: [s. n.], [entre 200 e 500 d.C.].

[11] Hendel, Ronald S (2000). “Adão”. Em David Noel Freedman (ed.). Dicionário da Bíblia de Eerdman . Eerdmans.

[12] “Livro de Raziel”. Enciclopédia Judaica (1906).

[13] Gelbert, Carlos (2005). Os mandeístas e os judeus . Edensor Park, NSW: Living Water Books.

[14] Marvin Meyer;  Willis Barnstone (30 de junho de 2009). “Sobre a Origem do Mundo e a Realidade dos Governantes (A Hipóstase dos Arcontes)”. A Bíblia Gnóstica. Shambhala.

[15] Dana, Nissim (2008). Os Drusos no Oriente Médio: Sua Fé, Liderança, Identidade e Status . Imprensa da Universidade de Michigan. p. 17.

[16] Milton, J. (2005). Paradise Lost. Penguin Classics.

[17] Twain, M. (1997). The Diaries of Adam and Eve. Oxford University Press.

[18] Vasari, G. (1991). The Lives of the Artists. Oxford University Press.

[19] Power, E. (2020). Dark: A Eerie, Confounding, and Totally Brilliant Final Season. The Irish Times.

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Diego Pereira do Nascimento
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