Naamá, esposa do rei Salomão, foi uma mulher pouco mencionada no texto bíblico, porém muito influente em seu período. Ele é lembrada por ter sido mãe do rei Roboão e filha do rei amonita.
Sua história é retratada no período do apogeu do Reino de Israel, ainda unificado. Ela esteve envolta de muito luxo e tratados políticos, entre os israelitas e amonitas.
Neste artigo apresentamos um pouco sobre sua vida, assim como sua influência na história bíblica.
Família e origem de Naamá
Naamá, esposa de Salomão, possui apenas três menções em todo o Antigo Testamento. Todas as suas menções estão relacionadas a maternidade de seu filho, Roboão. Apesar de sua breve menção, seu contexto histórico tem muito a nos dizer sobre sua vida.
Ela nasceu em Amom, um reino ao leste de Israel. Cerca de 200 anos antes de seu nascimento, no período do juiz Jefté, os amonitas eram inimigos dos israelitas e oprimiram os habitantes da região de Gileade. Pouco anos antes de seu nascimento, durante o reinado de Davi, Amom se tornou um reino vassalo de Israel.
Apesar de não ser dito no texto bíblico, é possível supor que em seus primeiros anos de vida ela tenha convivido com as tramas políticas de seu reino com Israel. Provavelmente ela foi dada em casamento a Salomão para selar algum tratado entre os dois povos.
Mesmo pertencendo a um reino vassalo, sua infância, e até vida adulta, certamente foram marcadas pelo luxo e riqueza.
A Bíblia não registra com quantos anos ela se casou com Salomão, ou mesmo como foi a relacionamento dos dois, apenas sabemos que ela deu a luz a Roboão, primeiro rei de Judá.

Salomão, esposo
Salomão, filho do rei Davi, herdou um reino unido e próspero. Seu reinado foi marcado por uma sabedoria sem precedentes na história, vasta riqueza e grandiosos projetos de construção, incluindo o Primeiro Templo em Jerusalém e o Palácio Real de Israel.
Uma de suas principais estratégias de política externa foi a formação de alianças através de casamentos. O texto de 1 Reis 11:1-3 detalha que ele amou muitas mulheres estrangeiras (moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e heteias). Apesar de ser uma estratégia política relativamente inteligente, ela ia contra os mandamentos do Deus para os israelitas não se casarem com os povos vizinhos (Deuteronômio 7:3-4).
Os diversos casamentos de Salomão acabaram por levá-lo ao distanciamento do Senhor, a Bíblia afirma que “suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses” (1 Reis 11:4), o que se tornou a causa de seu declínio e da futura divisão do reino [1].
Roboão, filho
Roboão foi o único filho de Salomão que o sucedeu no trono. Seu reinado, no entanto, é descrito como um desastre. Ignorando o conselho dos anciãos e adotando uma postura arrogante, ele provocou a rebelião das dez tribos do norte, que formaram o Reino de Israel sob a liderança de Jeroboão (1 Reis 12).
O reino de Davi e Salomão foi permanentemente dividido. A Bíblia, ao relatar a ascensão de Roboão, faz questão de mencionar duas vezes que sua mãe era “Naamá, a amonita” (1 Reis 14:21, 31).
Esta repetição sugere uma conexão teológica entre a origem pagã de sua mãe e a falha de seu reinado [2].

Hanun, possível pai
Embora a Bíblia Hebraica não nomeie o pai de Naamá, fontes extrabíblicas, incluindo textos gregos e a tradição rabínica, o identificam como Hanun, o rei dos amonitas [3].
Apesar de não ser possível confirmar, pela falta de menções bíblica, caso esta tradição estiver correta, o casamento de Naamá e Salomão assume o papel político para selar a paz. Hanun é o mesmo rei amonita que, anos antes, havia humilhado publicamente os embaixadores de Davi, o que levou a uma guerra e à subjugação do reino de Amom por Israel (2 Samuel 10).
Um casamento entre o filho de Davi, Salomão, e a filha de Hanun seria o ato diplomático para selar a paz e transformar um inimigo derrotado em um aliado formal, encerrando o ciclo de hostilidade entre os povos [4].
O contexto político de Amom e Israel
Os amonitas, descendentes de Ben-Ami, filho de Ló, habitavam a região a leste do rio Jordão. Sua capital era Rabá , atual Amã.
A história de Amom com Israel foi, em grande parte, de inimizade. Durante o período dos Juízes, os amonitas frequentemente oprimiam Israel.
Foi contra os amonitas que o Rei Saul obteve uma de suas primeiras grandes vitórias, e Davi travou diversas guerras contra eles, até conquistar sua capital Rabá [5].
Na primavera seguinte, na época do ano em que os reis costumam sair para a guerra, Joabe saiu com o seu exército e invadiu o país de Amom. Porém o rei Davi ficou em Jerusalém.
O exército israelita cercou, atacou e destruiu a cidade de Rabá.
1 Crônicas 20:1 (NTLH)

Aliança política entre Amom e Israel, pelo casamento de Salomão e Naamá
O casamento de Salomão e Naamá aparenta ter sido uma tentativa de manter a paz entre os dois reinos, transformando um adversário em um aliado através de laços políticos. Acredita-se que Naamá foi a primeira esposa de Salomão.
Essas alianças políticas através do casamento acabaram se transformando na queda moral e espiritual de Israel. A permissão de cultos estrangeiros, o sincretismo, e a introdução de divindades pagãs na corte, impulsionadas pelas esposas estrangeiras de Salomão, são a principal causa da apostasia de Israel e da subsequente divisão do reino [24].
Naamá, como amonita, teria vindo de uma cultura que adorava Moloque, um deus pagão associado a sacrifícios de crianças, algo abominável para o Deus de Israel.
Não entregue os seus filhos para serem sacrificados a Moloque. Não profanem o nome do seu Deus. Eu sou o Senhor.
Levítico 18:21 (NVI)
A presença de uma princesa amonita na corte de Salomão, portanto, é um testemunho da complexa diplomacia da época.
Debates sobre o pai de Naamá
A identidade do pai de Naamá, esposa de Salomão e mãe de Roboão, é uma questão de debate entre estudiosos. A teoria de que ela era filha de Hanun, rei dos amonitas, é mencionada em um texto grego suplementar de 2 Samuel 10:2.
No entanto, há uma teoria que sugere que ela era filha de Sobi, o irmão de Hanun.
O motivo para essa ideia está no comportamento de cada um deles: Hanun foi hostil a Davi e entrou em guerra contra ele (2 Samuel 10:1-5), o que segundo eles torna improvável um casamento com a filha de seu inimigo.
Já Sobi foi um aliado de Davi, fornecendo-lhe provisões durante a rebelião de Absalão (2 Samuel 17:27).
Por isso, o casamento de Naamá com o filho de Davi, Salomão, faria mais sentido se a união fosse com a família de um aliado em vez de um antigo inimigo, uma visão defendida por alguns comentaristas bíblicos [1].

Quando Davi chegou a Maanaim, Sobi, filho de Naás, de Rabá dos amonitas, e Maquir, filho de Amiel, de Lo-Debar, e o gileadita Barzilai, de Rogelim,
trouxeram a Davi e ao seu exército camas, bacias e utensílios de cerâmica e também trigo, cevada, farinha, grãos torrados, feijão e lentilha,
mel e coalhada, ovelhas e queijo de leite de vaca; pois sabiam que o exército estava cansado, com fome e com sede no deserto.
2 Samuel 17:27-29 (NVI)
Menções extrabíblicas e legado de Naamá
Além dos relatos bíblicos, a história de Naamá se estende por outras tradições e literaturas. Nesta seção, exploramos como a figura da rainha amonita é vista fora das Escrituras e o legado que ela deixou na cultura e na ficção.
Naamá na tradição rabínica (Bava Kamma 38b)
A literatura rabínica oferece uma explicação para por que Deus proibiu Moisés de atacar os amonitas. Um comentário no Talmude (Bava Kamma 38b) afirma que a nação foi preservada por causa de duas mulheres que descenderiam dela.
A primeira foi Rute, a moabita, que se tornaria ancestral de Davi. A segunda foi Naamá, a amonita, que seria a mãe de Roboão, o herdeiro de Salomão.
Nessa visão, a existência de Naamá é vista como parte de um plano divino pré-ordenado. Essa interpretação demonstra como Deus pode usar até mesmo nações pagãs para cumprir Seus propósitos e estabelecer Sua dinastia [4].
A lenda de Salomão e Naamá: O engano do demônio Asmodeus
Uma lenda rabínica narra que o demônio Asmodeus enganou Salomão, roubando seu anel mágico e jogando-o no mar.
O rei, forçado a viver como um plebeu em exílio, vagou por 400 milhas até encontrar trabalho na cozinha de um rei amonita. Lá, ele cativou a filha do rei, Naamá, com sua culinária, e eles se apaixonaram [4].
Apesar da desaprovação da família dela, o casal é expulso para o deserto. Por uma providência divina, eles encontram o peixe que havia engolido o anel de Salomão, permitindo que ele recuperasse seu poder, retomasse o trono e derrotasse Asmodeus [4].
Vale destacar que esta lenda pertence a um escrito extrabíblico que é mencionada aqui apenas para fins de conhecimento.

O simbolismo e as conexões da lenda
Embora folclórica, a lenda é rica em simbolismo e cumpre vários propósitos:
- Queda e redenção de Salomão: A narrativa ilustra as consequências de sua desobediência e sua subsequente restauração.
- Papel de Naamá: A princesa é elevada de uma esposa estrangeira a uma figura central e leal, mostrando que ela foi uma parceira essencial em sua jornada de exílio e retorno.
- Conexões literárias: O motivo de um anel jogado no mar e encontrado em um peixe é um tropo literário antigo. Ele também está presente na história de Polícrates de Samos, conforme relatado por Heródoto, o que demonstra a interconexão de narrativas na antiguidade [7].
A princesa no romance de Aryeh Lev Stollman
No romance de Aryeh Lev Stollman, a princesa amonita Naamá narra sua própria história [6]. O livro a retrata como uma jovem que chega a Jerusalém aos catorze anos para se casar com o Rei Salomão. Na ficção, ela é a única esposa a conquistar o coração de Salomão e se torna a mãe de sua dinastia.
Etimologia e significado da Naamá
O nome Naamá, do hebraico Naʿămā (נַעֲמָה), significa “agradável” ou “deleite”, mas sua etimologia esconde uma ironia teológica.
Aprenda mais
[Vídeo] SABEDORIA E QUEDA: A JORNADA DE SALOMÃO. HERNANDES DIAS LOPES.
[Vídeo] A VERDADE SOBRE O REI SALOMÃO. DR.RODRIGO SILVA. Moises Yan – Oficial.
Perguntas comuns
Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre esta personagem bíblica pouco mencionada na Bíblia.
O que aconteceu com a Naamá, esposa de Salomão?
A Bíblia não detalha o que aconteceu com Naamá. Após o nascimento de seu filho Roboão, ela é mencionada principalmente como a mãe do herdeiro de Salomão, sendo uma figura-chave na genealogia, mas sua história pessoal não continua.
Quem foi Naamá na vida de Salomão?
Naamá foi uma das esposas do Rei Salomão e a única a ser mencionada como mãe de um filho, Roboão. Ela era uma princesa amonita, e sua união foi parte do que levou o rei a se afastar de Deus.
Naamá e Sulamita são a mesma pessoa?
Não, elas não são a mesma pessoa. Naamá é nomeada na Bíblia como uma das esposas de Salomão. Já a Sulamita é a personagem central do Cântico dos Cânticos, cuja identidade e nome real não são revelados no texto.
Fontes
[1] Long, B. O. (1984). 1 Kings: With an Introduction to Historical Literature. Eerdmans Publishing Co.
[2] Sweeney, M. A. (2007). I & II Kings: A Commentary. Westminster John Knox Press.
[3] Kugel, J. L. (1997). The Bible as It Was. Harvard University Press.
[4] Ginzberg, L. (1909). The Legends of the Jews, Vol. 4. Jewish Publication Society of America.
[5] DeVries, S. J. (2008). “Ammon.” In The New Interpreter’s Dictionary of the Bible, Vol. 1. Abingdon Press.
[6] Stollman, Aryeh Lev. Divrei Y’mai Naamah. Aryeh Nir/Modan.
[7] Herodotus. Histories, Book III, Chapter 41. (Tradução para o inglês por A. D. Godley, 1920). Harvard University Press.
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