O marcionismo foi uma doutrina cristã dualista herética do século II, fundada por Marcião de Sinope, marcou a história do cristianismo primitivo ao propor uma distinção radical entre o Deus do Antigo Testamento e o Deus do Novo Testamento.

Considerado herético pela Igreja primitiva, o movimento desafiou as concepções teológicas de sua época e influenciou o desenvolvimento do cânon bíblico e da ortodoxia cristã.

Neste artigo apresentamos a história desta heresia, suas características e críticas.

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História do marcionismo

Marcião de Sinope, nascido por volta de 85 d.C. em Sinope, no Ponto (atual Turquia), foi um teólogo leigo e rico armador, filho de um bispo cristão. [1]

Por volta de 140 d.C. ele se mudou para Roma, onde se envolveu com uma pequena comunidade cristã da cidade. Suas ideias radicais, no entanto, geraram conflitos, levando à sua excomunhão em 144 d.C. após debates teológicos com os principais filósofos romanos. [2]

Influência do gnosticismo

Quando novo ele foi influenciado pelo dualismo gnóstico, que opunha o mundo material (inferior) ao espiritual (divino), e pelas epístolas paulinas, que destacavam a graça e a distinção entre a Lei mosaica e a nova aliança. [3] [4]

Ele rejeitava qualquer conexão entre judaísmo e cristianismo, considerando o Deus do Antigo Testamento, o Demiurgo, um deus inferior, criador do mundo material, diferente do Deus Supremo de amor revelado por Jesus no Novo Testamento. [2]

Essa visão desafiava a ortodoxia cristã, que via o Antigo Testamento como parte da revelação divina e Jesus como cumprimento das profecias judaicas. [5]

Marcião de Sinope, criador do marcionismo
Marcião de Sinope

Criação do cânon bíblico

Marcião criou o primeiro cânon cristão conhecido, composto por uma versão editada do Evangelho de Lucas, sem referências judaicas, e dez epístolas paulinas revisadas, refletindo sua crença de que apenas Paulo entendia corretamente a mensagem de Cristo. [1] [4]

Ele fundou comunidades marcionitas, organizando uma Igreja paralela que rivalizou com a Igreja ortodoxa, financiada por sua riqueza como armador. [1]

Primeiras críticas ao marcionismo

Líderes como Justino Mártir, Irineu de Lyon e Tertuliano escreveram importantes obras condenando os escritos marcionitas, apontando as heresias em seus ensinos. [5]

Essas críticas ajudaram a Igreja a articular a unidade entre os testamentos e a acelerar a formação do cânon do Novo Testamento.

Apesar de ser exposto como heresia, as ideias marcionistas persistiram até pelo menos o século IV, especialmente no Oriente Médio e na Ásia Menor. [2]

Marcião morreu por volta de 160 d.C., mas suas comunidades continuaram ativas por algum tempo.

Ícone do século XV de Justino Mártir, de Teófanes, o Cretense
Ícone do século XV de Justino Mártir, de Teófanes, o Cretense

Características do marcionismo

O marcionismo se destacou por seu dualismo radical e pela rejeição do Antigo Testamento. Influenciado pelo pensamento gnóstico e pela teologia paulina, Marcião propôs uma visão que contrastava fortemente com a ortodoxia cristã.

Suas principais características são:

  • Dualismo teológico;
  • Rejeição ao Antigo Testamento;
  • Cânon marcionita;
  • Antilegalismo;
  • Salvação pela fé.

Dualismo teológico

Marcião fundamentava sua doutrina em uma distinção entre dois deuses opostos: O Demiurgo do Antigo Testamento e O Deus Supremo do Novo Testamento.

O Demiurgo do Antigo Testamento

Esta heresia via o Deus descrito no Antigo Testamento como um ser inferior, criador do mundo material, que ele considerava corrupto e imperfeito.

Esse Deus, chamado Demiurgo, era caracterizado como vingativo, legalista e preocupado com a justiça punitiva, incompatível com a mensagem de Cristo. [1] [6]

Para seus defensores, as narrativas do Antigo Testamento, com suas guerras e leis rigorosas, refletiam a natureza limitada desse deus.

O Deus Supremo do Novo Testamento

Os marcionistas acreditavam que o Deus revelado por Jesus Cristo era um Deus de amor, graça e bondade, completamente alheio à criação material e ao judaísmo. [3]

Esse Deus Supremo era espiritual, transcendente e desconhecido até a vinda de Cristo, que trouxe uma nova revelação divina. [5]

Demiurgo, "Aurora do Mundo" de William Blake,1794
Demiurgo, “Aurora do Mundo” de William Blake,1794

Rejeição do Antigo Testamento

As ideias marcionistas rejeitavam completamente o Antigo Testamento, considerando-o irreconciliável com a mensagem de Cristo. Ele argumentava que as Escrituras judaicas pertenciam ao Demiurgo e não tinham relevância para os cristãos. [1]

Para os marcionistas, qualquer tentativa de harmonizar os dois testamentos era uma clara distorção da verdadeira mensagem cristã.

Cânon marcionita

Marcião criou o primeiro cânon cristão conhecido, formado por uma versão editada dos evangelhos e das cartas apostólicas paulinas.

Evangelhos (Evangelion)

Uma versão editada do Evangelho de Lucas, expurgada de passagens que sugerissem continuidade com o judaísmo ou referências ao Antigo Testamento. [4] Ele escolheu Lucas por considerá-lo o evangelho mais alinhado com a teologia paulina.

Cartas paulinas (Apostolikon)

Dez epístolas paulinas (Gálatas, 1 e 2 Coríntios, Romanos, 1 e 2 Tessalonicenses, Efésios, Colossenses, Filipenses e Filemom), também revisadas para remover elementos judaicos ou que ligassem Paulo ao Deus do Antigo Testamento. [2]

Para ele apenas o apóstolo Paulo havia compreendido corretamente a mensagem de Cristo, enquanto outros apóstolos, como Pedro, estavam presos às tradições judaicas ensinadas pelo Antigo Testamento. [6]

Papiro 46, um dos papiros mais antigos do Novo Testamento , mostrando 2 Coríntios 11:33–12:9
Papiro 46, um dos papiros mais antigos do Novo Testamento , mostrando 2 Coríntios 11:33–12:9

Comparação cânon marcionita e cânon protestante

Cânon marcionitaCânon protestante
SeçãoLivrosSeçãoLivros
EvangelikonEvangelho de Marcião
(muito semelhante
ao Evangelho de Lucas)
Evangelhos
(Euangelia)
Evangelho segundo Mateus
Evangelho segundo Marcos
Evangelho segundo Lucas
Evangelho segundo João
(inexistente)(nenhum)AtosAtos dos Apóstolos
ApostolikonGálatas
I Coríntios
II Coríntios
Romanos
I Tessalonicenses
II Tessalonicenses
Laodicenses
Colossenses
Filipenses
Filémon
Epístolas paulinasRomanos
I Coríntios
II Coríntios
Gálatas
Efésios
Filipenses
Colossenses
I Tessalonicenses
II Tessalonicenses
I Timóteo
II Timóteo
Tito
Filémon
Hebreus
(inexistente)(nenhum)Epístolas apostólicasTiago
I Pedro
II Pedro
I João
II João
III João
Judas
(inexistente)(nenhum)ApocalipsesApocalipse de João

Antilegalismo

Os marcionistas consideravam o legalismo judaico, com suas práticas rituais e sacrifícios, opressivo e irrelevante para a fé cristã. Ele rejeitava a ideia de que os cristãos deveriam seguir as leis do Antigo Testamento, promovendo uma espiritualidade centrada na graça. [3]

Salvação pela fé

O marcionismo ensinava que a salvação era alcançada exclusivamente pela fé em Cristo, sem qualquer necessidade de cumprir a Lei mosaica. Ele via a graça divina como oposta às exigências legais do Antigo Testamento. [4]


Críticas ao marcionismo

O marcionismo foi uma das primeiras heresias cristãs significativas na história da Igreja, enfrentando forte denúncia de teólogos da Igreja primitiva, como Justino Mártir, Irineu de Lyon e Tertuliano.

Esses líderes acusaram o marcionismo de distorcer a fé cristã em vários aspectos fundamentais, defendendo a unidade teológica e escriturística do cristianismo contra as ideias marcionistas.

Nesta seção apresentamos as principais críticas levantadas por esses teólogos.

Heresia dualista

A distinção marcionita entre dois deuses foi condenada como uma clara violação do monoteísmo cristão.

Os Pais da Igreja argumentaram que a crença em um único Deus, Criador de todas as coisas e revelado tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, era central à fé. [5]

Tertuliano, em sua obra Adversus Marcionem, argumentava que a divisão de Marcião introduzia uma ruptura incoerente na natureza divina, aproximando-se perigosamente do dualismo gnóstico, que opunha o material ao espiritual. [7]

Essa crítica era reforçada pela visão ortodoxa de que o Deus único agia consistentemente através da história, desde a criação até a redenção em Cristo. [7]

Vitral na Igreja de Santo Irineu, Bispo de Lugduno na Gália (atual Lyon, na França)
Vitral na Igreja de Santo Irineu, Bispo de Lugduno na Gália (atual Lyon, na França). Um dos principais críticos a heresia dualista marcionita

Rejeição arbitrária das Escrituras

A exclusão completa do Antigo Testamento e a edição seletiva do Novo Testamento por Marcião, resultando no Evangelion e no Apostolikon, explicada anteiormente, foram vistas como manipulações inaceitáveis da revelação divina.

Irineu acusava Marcião de mutilar as Escrituras para ajustá-las às suas ideias preconcebidas, comprometendo a integridade dos textos sagrados. [5]

Tertuliano reforçava que a remoção de passagens que ligavam o cristianismo ao judaísmo era uma tentativa arbitrária de reescrever a narrativa divina, ignorando a continuidade profética que conectava os testamentos.

O cânon marcionita era não apenas incompleto, mas também uma distorção deliberada, que desrespeitava a autoridade das Escrituras aceitas pelas comunidades cristãs.

Antissemitismo teológico

A rejeição das ideias marcionistas ao Antigo Testamento e ao Deus criador foi interpretada como uma forma de antissemitismo teológico, que desvalorizava as raízes judaicas do cristianismo.

Em uma época em que o cristianismo ainda buscava definir sua identidade em relação ao judaísmo, a negação de Marcião do valor do Antigo Testamento e sua visão do Deus judaico como inferior alimentavam uma hostilidade implícita às tradições judaicas. [8]

Justino Mártir defendia que as profecias do Antigo Testamento eram essenciais para compreender a missão de Cristo [7], enquanto Marcião as descartava como irrelevantes.

Simplificação excessiva da mensagem cristã

A ênfase marcionista na salvação pela fé, com a exclusão da Lei mosaica e do Antigo Testamento, foi criticada por reduzir a complexidade da mensagem cristã-bíblica.

Para os teólogos ortodoxos, a fé cristã equilibrava graça e justiça, reconhecendo a Lei como uma etapa preparatória na história da salvação. [5]

Tertuliano argumentava que a teologia marcionista, ao rejeitar a Lei e focar exclusivamente na graça, ignorava a natureza holística da revelação divina, que incluía tanto o julgamento quanto a misericórdia.

Sacerdotes maniqueístas, escrevendo em suas escrivaninhas. Manuscrito do oitavo ou nono século de Gaochang , Bacia de Tarim , China
Sacerdotes maniqueístas, escrevendo em suas escrivaninhas. Manuscrito do oitavo ou nono século de Gaochang , Bacia de Tarim , China

Atração e limitações do marcionismo

Apesar das críticas, o marcionismo atraiu seguidores por sua clareza doutrinária e por oferecer uma alternativa ao legalismo percebido em algumas comunidades cristãs. A mensagem de salvação pela fé, desvinculada das práticas judaicas, era acessível e apelava a convertidos gentios no Império Romano. [2]

A organização de uma Igreja paralela, com bispos e liturgia própria, também demonstrava o apelo prático da doutrina.

Contudo, sua rejeição ao Antigo Testamento e sua visão dualista limitavam sua aceitação em longo prazo, especialmente à medida que a Igreja primitiva consolidava sua identidade em torno de um cânon mais amplo e de uma teologia unificada.


Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia

[Vídeo] A heresia de Marcião. Sola Scriptura.

[Vídeo] Marcionismo (Dois Deus). O Semeador.


Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com suas respectivas respostas, acerca deste termo teológico.

O que Márcião defendia?

Assim como os gnósticos, Marcião defendia que Jesus era, em essência, um espírito que se manifestava aos homens, e não completamente humano.

Qual era a heresia pregada pelo marcionismo?

Uma das heresias mais conhecidas do início da história da Igreja foi a de Marcião de Sinope, conhecida como marcionismo ou heresia marcionita.


Fontes

[1] Ehrman, B. D. (2003). Lost Christianities: The Battles for Scripture and the Faiths We Never Knew. Oxford University Press.

[2] Harnack, A. von. (1924). Marcion: Das Evangelium vom fremden Gott. J.C. Hinrichs.

[3] Pagels, E. (1979). The Gnostic Gospels. Random House.

Demais fontes

[4] Tyson, J. B. (2006). Marcion and Luke-Acts: A Defining Struggle. University of South Carolina Press.

[5] Irineu de Lyon. Contra Heresias. In A. Roberts & J. Donaldson (Eds.), Ante-Nicene Fathers, Vol. 1.

[6] Tertuliano. Adversus Marcionem. In P. Holmes (Ed.), Ante-Nicene Fathers, Vol. 3.

[7] Justino Mártir. Diálogo com Trifão. In A. Roberts & J. Donaldson (Eds.), Ante-Nicene Fathers, Vol. 1.

[8] Wilson, S. G. (1995). Related Strangers: Jews and Christians, 70–170 C.E.. Fortress Press.

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Diego Pereira do Nascimento
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