Pecador

Pecador é quem transgride a lei de Deus, vivendo separado Dele. Esta natureza exige redenção em Cristo para escapar da morte espiritual.

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O termo pecador é central para a compreensão cristã da humanidade e da salvação, descrevendo um indivíduo que transgride a lei de Deus e que vive em um estado de separação d’Ele. Esta condição não se limita a atos específicos de maldade, mas define a natureza humana inerente após a Queda, conforme descrito nas Escrituras.

A Bíblia ensina que toda a humanidade compartilha desta condição, tornando a redenção oferecida em Jesus Cristo uma necessidade universal..

Neste artigo exploramos a compreensão bíblica e teológica do que significa ser um pecador.


Conceito bíblico de pecador

Na teologia cristã, um pecador é alguém que viola a lei moral de Deus, seja por pensamentos, palavras, ações ou pela própria natureza corrompida.

A definição de pecado é apresentada em 1 João 3:4, que afirma: “Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei”.

Dessa forma, ser um pecador é estar em um estado de rebelião contra a soberania e a santidade de Deus.

A Bíblia é clara ao afirmar que esta condição é universal. O apóstolo Paulo, na carta aos Romanos, estabelece de forma contundente que não há exceções. Em Romanos 3:23, ele escreve: “pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”.

Essa afirmação não significa apenas que todas as pessoas cometem atos pecaminosos, mas que a própria natureza humana está inclinada ao pecado, uma condição que separa a humanidade de um relacionamento perfeito com seu Criador.

Essa separação é a consequência primária do pecado, resultando em morte espiritual e, por fim, física (Rm 6:23).

Ilustração de dois pecadores
Ilustração de dois pecadores

O pecador no Antigo Testamento

No Antigo Testamento, a compreensão do pecador está intimamente ligada à Aliança e à Lei (Torá) dadas por Deus a Israel. O pecado era visto como uma falha em viver de acordo com os padrões justos de Deus, um ato de infidelidade à aliança estabelecida.

A palavra hebraica mais comum para pecado, chattath (חטָאת), significa literalmente “errar o alvo”. Essa imagem ilustra que o pecado é um desvio do caminho que Deus designou para a vida e a retidão.

A narrativa da Queda em Gênesis 3 serve como o evento arquetípico que introduz o pecado e a condição de pecador no mundo.

Exemplos de pecadores no Antigo Testamento

A desobediência de Adão e Eva não foi apenas uma violação de uma regra, mas uma quebra de confiança e um ato de rebelião que buscou autonomia de Deus. As consequências foram imediatas: vergonha, medo e expulsão da presença de Deus.

O rei Davi, em seu Salmo de arrependimento (Salmo 51), oferece uma visão profunda da consciência de um pecador. Após seu adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias, ele clama a Deus:

“Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue. Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas”

Salmos 51:3-4

Davi reconhece que, embora seu pecado tenha prejudicado outras pessoas, sua ofensa primária foi contra a santidade de Deus. Ele também reconhece sua natureza pecaminosa inata ao dizer: “Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe” (Sl 51:5).

David levanta a cabeça de Golias conforme ilustrado por Josephine Pollard (1899)
David levanta a cabeça de Golias conforme ilustrado por Josephine Pollard (1899)

O pecador no Novo Testamento

O Novo Testamento aprofunda e expande a compreensão do pecador, focando na pecaminosidade como uma força escravizadora e na provisão de Deus para a libertação por meio de Jesus Cristo.

A palavra grega para pecado, hamartia (ἁμαρτία), carrega o mesmo significado de “errar o alvo”, mas os escritos apostólicos, especialmente os de Paulo, descrevem o pecado como um poder que domina a humanidade caída.

Jesus Cristo e o pecador

Jesus Cristo confrontou a hipocrisia religiosa de sua época, que definia o “pecador” principalmente como aqueles que violavam abertamente a lei cerimonial ou moral, como cobradores de impostos e prostitutas.

No entanto, Jesus se associava a essas pessoas, declarando: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores” (Mc 2:17). Com isso, Ele redefiniu a questão, mostrando que todos, inclusive os fariseus autojustos, eles eram necessitados da graça de Deus.

Condição do pecador (Paulo)

O apóstolo Paulo desenvolve a teologia do pecador de forma sistemática. Em Romanos, ele argumenta que o pecado não é apenas uma série de ações erradas, mas um princípio que habita no ser humano.

Neste caso, não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.

Romanos 7:17 (NVI)

Essa condição de escravidão ao pecado leva à morte espiritual, uma alienação completa de Deus. É dessa condição que a humanidade precisa ser resgatada.

Apóstolo Paulo em Atenas proferindo o sermão no Areópago, retratada por Rafael em 1515
Apóstolo Paulo em Atenas proferindo o sermão no Areópago, retratada por Rafael em 1515

Doutrina do Pecado Original

Uma das doutrinas mais importantes para entender a condição do pecador é a do Pecado Original. Formulada com grande clareza por Agostinho de Hipona, essa doutrina ensina que, como resultado da desobediência de Adão, toda a humanidade herda uma natureza pecaminosa e uma predisposição para o pecado [1].

Não se trata de herdar a culpa específica do ato de Adão, mas de nascer em um estado de corrupção espiritual.

A base bíblica para esta doutrina é encontrada principalmente em Romanos 5:12: “Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram”.

A participação de toda a humanidade na queda de Adão significa que ninguém nasce neutro. Pelo contrário, todos nascem com uma natureza que é inclinada a se rebelar contra Deus.

Essa condição é frequentemente chamada de depravação total, o que não significa que os seres humanos sejam tão maus quanto poderiam ser, mas que cada parte de sua natureza (Mente, vontade e emoções) foi afetada e corrompida pelo pecado.

Expulsão de Adão e Eva (Alexandre Cabanel)
Expulsão de Adão e Eva (Alexandre Cabanel)

Condição do pecador e a solução de Deus

A condição do pecador é grave. Separado de Deus, espiritualmente morto (Efésios 2:1) e incapaz de se salvar por seus próprios méritos, ele está sob o justo juízo de Deus. As boas obras, a moralidade ou a religiosidade são insuficientes para reparar a barreira que o pecado criou entre a humanidade e um Deus santo.

A resposta divina a esta condição é a graça manifestada em Jesus Cristo. A solução não está em o pecador se tornar bom o suficiente para Deus, mas em Deus providenciar um Salvador. A doutrina da justificação pela fé é o coração da mensagem do Evangelho protestante.

Justificação do pecador

De acordo com essa doutrina, um pecador é declarado justo diante de Deus não com base em suas próprias obras, mas unicamente pela fé na obra expiatória de Cristo na cruz. Paulo explica:

“Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independentemente da Lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que creem” (Rm 3:21-22).

Para o cristão, embora justificado e declarado justo, a luta contra o pecado continua. O crente é simultaneamente justo aos olhos de Deus (simul justus et peccator, como expressou Martinho Lutero) e um pecador que ainda luta com a carne [2].

A diferença fundamental é que o crente não está mais sob o domínio do pecado, mas foi liberto por Cristo para viver uma nova vida em santidade, capacitado pelo Espírito Santo.

Jesus curando o cego perto de Jericó
Jesus curando o cego perto de Jericó

Etimologia e uso dos termos para pecador

A riqueza do conceito bíblico de pecador é refletida na variedade de palavras hebraicas e gregas usadas para descrever o pecado e a transgressão.

No Antigo Testamento

  • Chattath (חטָאת): O termo mais comum, significando “pecado” ou “errar o alvo”. Enfatiza o fracasso em alcançar o padrão divino de retidão.
  • Avon (עָוֹן): Traduzido como “iniquidade” ou “culpa”. Este termo se refere mais à perversidade inerente e à culpa que acompanha o ato pecaminoso, destacando a natureza distorcida do pecador.
  • Pesha (פֶּשַׁע): Significa “transgressão” ou “rebelião”. Descreve um ato intencional de desafio contra a autoridade de Deus, uma quebra deliberada da aliança.

No Novo Testamento

  • Hamartia (ἁμαρτία): O termo grego mais abrangente para pecado, paralelo a chattath. Refere-se tanto a errar o alvo quanto à condição de pecaminosidade que caracteriza a humanidade.
  • Paraptōma (παράπτωμα): Traduzido como “transgressão” ou “falha”. Sugere um desvio, um passo em falso ou uma queda de um caminho reto.
  • Anomia (ἀνομία): Literalmente “sem lei” ou “ilegalidade”. Aponta para uma atitude de desprezo pela lei de Deus e uma vida vivida em oposição direta aos Seus mandamentos.

Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] Pecado. Bible Project.

[Vídeo] Alma. Bible Project.

Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre este termo teológico tão importante para o cristianismo.

O que é um pecador na Bíblia?

Na Bíblia, um pecador é qualquer ser humano. A condição de pecador não se aplica apenas a quem comete atos graves, mas a todos, pois “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23). É o estado natural da humanidade após a Queda.

O que Jesus fala do pecador?

Jesus demonstra compaixão e amor pelos pecadores, comendo com eles e chamando-os ao arrependimento. Ele declarou seu propósito em Marcos 2:17: “Não vim chamar justos, mas sim pecadores”, mostrando que sua missão era buscar e salvar os que estão perdidos.

Qual é o sinônimo de pecador?

Sinônimos incluem transgressor, iníquo, malfeitor e ímpio. No contexto teológico, todos esses termos descrevem alguém que vive em violação da lei de Deus e está em um estado de separação moral e espiritual d’Ele.

O que é uma pessoa pecadora?

É toda pessoa cuja natureza, desde a Queda de Adão, está inclinada a transgredir a lei e a vontade de Deus. Biblicamente, é uma condição universal de separação da santidade divina, afetando pensamentos, palavras e ações (Romanos 3:23).

Por que Deus ama o pecador?

Deus ama o pecador não por causa de seus méritos, mas por causa de Sua própria natureza de graça e misericórdia. Seu amor é incondicional e busca a redenção, como demonstrado em João 3:16, onde Ele deu Seu Filho para salvar o mundo que Ele amava.


Fontes

[1] Fitzgerald, Allan, ed. Augustine Through the Ages: An Encyclopedia. Eerdmans, 1999. (Especificamente as seções sobre Pecado Original e a controvérsia pelagiana).

[2] Stott, John R. W. The Message of Romans: God’s Good News for the World. InterVarsity Press, 1994. (Particularmente a exposição sobre Romanos 5-8).

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Diego Pereira do Nascimento
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