Alma

A Alma, central na doutrina cristã, evoluiu do hebraico (ser completo) ao grego (eu interior/eterno). É o bem mais precioso e seu destino é eterno.

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A compreensão teológica da alma é central para a doutrina cristã, abordando a natureza do ser humano, sua relação com Deus e seu destino eterno.

Seu conceito, embora pareça simples, possui uma rica e complexa tapeçaria de significados nas Escrituras, evoluindo do contexto hebraico do Antigo Testamento para a linguagem grega do Novo Testamento. Esta jornada conceitual revela a profundidade do que significa ser uma pessoa criada à imagem de Deus.

Neste artigo exploramos as definições bíblicas, os debates teológicos e sua importância na fé cristã.


A alma no Antigo Testamento

No Antigo Testamento, a principal palavra hebraica para alma é nephesh (נֶפֶשׁ). Originalmente, este termo não se referia a uma entidade imaterial separada do corpo, como na filosofia grega. Em vez disso, nephesh possuía um significado muito mais concreto e holístico, descrevendo a pessoa como um todo unificado.

Nephesh como “Ser Vivente”

A primeira e mais fundamental aparição do termo está em Gênesis 2:7: “E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente (nephesh chayyah)”.

Neste contexto, o homem não recebeu uma alma, mas tornou-se uma alma vivente. A alma, aqui, representa a totalidade da pessoa animada pelo fôlego de Deus.

Este mesmo termo é aplicado aos animais em Gênesis 1:24, indicando que eles também são “almas viventes” no sentido de seres que respiram e vivem [1].

Portanto, no pensamento hebraico, a alma não é uma parte do ser humano, mas a própria pessoa em sua totalidade viva.

Representação da alma. O sopro de vida que Deus deu ao homem
Representação da alma. O sopro de vida que Deus deu ao homem

Nephesh como “Vida” ou “Desejo”

Com o tempo, nephesh também passou a designar a vida em si, o princípio vital. Em muitos textos, traduzir nephesh como “vida” faz mais sentido. Por exemplo, em 1 Reis 19:4, Elias pede a Deus que lhe tire a “vida” (nephesh). A expressão “salvar a própria alma” frequentemente significa “salvar a própria vida”.

Além disso, nephesh começou a ser associada ao ser interior, aos desejos, apetites e emoções. O Salmo 42:1-2 ilustra isso: “Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma (nephesh) por ti, ó Deus! A minha alma (nephesh) tem sede de Deus, do Deus vivo”.

Aqui, ela representa o centro do desejo e da sede espiritual do salmista. Ela é a sede das emoções, como tristeza (Jó 30:25) e amor (Cânticos 1:7).


A alma no Novo Testamento

O Novo Testamento foi escrito em grego, e o termo correspondente a nephesh é psychē (ψυχή). Embora os autores do Novo Testamento fossem influenciados pelo pensamento hebraico, o uso de psychē também carregava nuances do mundo helenístico, o que gerou um desenvolvimento na compreensão da alma.

Psychē

Assim como nephesh, psychē pode se referir à vida em si mesma. Em Mateus 6:25, Jesus adverte: “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida (psychē), pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber”.

No entanto, o termo ganha uma dimensão mais profunda, representando o eu interior, a pessoa real que transcende a existência física.

A passagem mais conhecida sobre o valor da alma está em Mateus 16:26: “Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma (psychē)? Ou que dará o homem em troca da sua alma (psychē)?”.

Aqui, ela é apresentada como o bem mais precioso de uma pessoa, com valor eterno, que pode ser “perdido” ou “salvo” (Tg 1:21). Ela é a sede da identidade pessoal que persiste após a morte física e que enfrentará o juízo de Deus.

Pintura de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) retratando a alma (fôlego de vida) de um indivíduo sendo carregada até o céu por dois anjos
Pintura de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) retratando a alma (fôlego de vida) de um indivíduo sendo carregada até o céu por dois anjos

Portanto, livrem-se de toda impureza moral e da maldade que prevalece, e aceitem humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los.

Tiago 1:21 (NVI)

A relação entre alma (Psychē) e espírito (Pneuma)

O Novo Testamento introduz uma distinção, por vezes sutil, entre alma (psychē) e espírito (pneuma, πνεῦμα). O espírito é frequentemente associado à dimensão do ser humano que se conecta com Deus. É a faculdade pela qual o homem adora e se comunica com o Senhor (Jo 4:24).

Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”.

João 4:24 (NVI)

Hebreus 4:12 sugere uma distinção clara entre os dois: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas…”. Isso indica que, embora intimamente ligados, eles não são idênticos.

Essa essência do ser pode ser vista como a sede da personalidade, do intelecto, da vontade e das emoções (a consciência de si), enquanto o espírito é a sede da consciência de Deus [2].

O valor e o destino da alma

Independentemente da visão sobre a composição humana, a bíblia é clara sobre o imenso valor da alma. Ela foi criada por Deus, e seu destino eterno é a preocupação central da mensagem do evangelho.

O mandamento de amar a Deus “de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças” (Dt 6:5; Mt 22:37) demonstra que a ela é o centro do nosso ser, sua essência, de onde emanam o amor, a devoção e a lealdade a Deus.

O Novo Testamento ensina que essa essência é imortal, não por natureza própria, mas como um dom de Deus. Após a morte física, o corpo perece, mas a espírito do crente vai para a presença do Senhor (2Co 5:8; Fp 1:23).

No fim dos tempos, na ressurreição, corpo e alma serão reunidos em um estado glorificado para a eternidade com Deus [1].

Dante e Beatriz contemplando o mais alto dos céus. ilustração de Gustave Doré para a Divina Comédia
Dante e Beatriz contemplando o mais alto dos céus. ilustração de Gustave Doré para a Divina Comédia

A composição humana: Dicotomia ou Tricotomia

A relação entre corpo, alma e espírito levou a dois principais pontos de vista na teologia cristã sobre a constituição do ser humano.

Visão Dicotômica

A dicotomia sustenta que o ser humano é composto de duas partes: uma material (o corpo) e uma imaterial (a alma ou espírito).

Nesta visão, os termos “alma” e “espírito” são frequentemente usados de forma intercambiável para descrever a totalidade da natureza imaterial do homem.

Defensores desta perspectiva apontam para passagens como Mateus 10:28, onde Jesus fala do material e do imaterial como as duas partes que constituem a pessoa.

Da mesma forma, Eclesiastes 12:7 descreve o corpo retornando ao pó e o espírito retornando a Deus. Esta tem sido a visão predominante na história da teologia reformada [3].

pó volte à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o deu.

Eclesiastes 12:7 (NVI)
Representação da dicotomia da alma
Representação da dicotomia da alma

Visão Tricotômica

A tricotomia argumenta que o homem é composto de três partes distintas: corpo, alma e espírito. A principal base bíblica para esta visão é 1 Tessalonicenses 5:23:

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Os tricotomistas entendem que esta passagem apresenta as três facetas da natureza humana. Conforme mencionado, a alma é vista como o centro da personalidade e da vida psicológica, e o espírito como a faculdade espiritual que permite a comunhão com Deus.


Compreensões da alma em outras religiões

A compreensão sobre a existência da alma não é algo exclusivo do cristianismo, muitas religiões possuem ideias semelhantes e/ou próprios sobre sua existência e importância.

Alma no Budismo

A doutrina budista sobre a alma é única e se define pelo conceito de Anatman (não-eu). O Budismo rejeita a ideia de que ela seja eterna, imutável e independente. Eles a veem como uma ilusão que causa apego e sofrimento.

Doutrina do Não-Eu (Anatman)

O Budismo ensina que o que percebemos como nosso “eu” é, na verdade, uma combinação temporária de cinco agregados (skandhas): forma, sensação, percepção, formações mentais e consciência.

Todos esses componentes estão em um estado de fluxo constante, surgindo e desaparecendo, e nenhum deles, isoladamente ou em conjunto, constitui uma essência do ser permanente [4].

Esta doutrina foi uma “via do meio” entre as crenças da época: o eternalismo, que afirmava que a Anatman era eterna, e o aniquilacionismo, que dizia que a alma era completamente destruída na morte. O Buda considerava ambas as visões como originadas do desejo por um eu [5].

Estátua de Buda em Bodh Gaya, um dos lugares mais sagrados do budismo
Estátua de Buda em Bodh Gaya, um dos lugares mais sagrados do budismo

Consciência e renascimento

Se não há Anatman, o que conecta uma vida à outra no ciclo de renascimentos (saṃsāra)? A resposta budista é o fluxo de consciência e as impressões cármicas. É a continuidade do desejo por um eu que impulsiona o renascimento [6].

A famosa analogia do texto As Perguntas de Milinda compara uma pessoa a uma carruagem: assim como “carruagem” é um nome convencional para um conjunto de partes (rodas, eixo, etc.), “pessoa” é um nome para um conjunto de agregados.

Não há uma “essência de carruagem” ou uma “alma de pessoa” independente de suas partes constituintes [7].

Alma no Hinduísmo

Em nítido contraste com o Budismo, o conceito de uma alma eterna é central para a maioria das escolas do Hinduísmo.

Ātman: O eu interior eterno

O Hinduísmo defende a existência do Ātman, o verdadeiro eu, a essência imutável que reside em cada ser vivo. O Ātman é considerado o primeiro princípio, uma centelha divina que transcende o corpo, a mente e o ego [8].

O objetivo principal da vida espiritual, especialmente na escola Vedanta, é alcançar a libertação (moksha) através do autoconhecimento (ātma jñāna). Este conhecimento consiste na realização de que o eu individual, o Ātman, não está separado, mas é idêntico à realidade última e universal, o Brahman.

A famosa máxima dos Upanishads, “Tat Tvam Asi” (“Tu és Aquilo”), resume essa ideia de unidade entre a Jīva individual e o espírito cósmico [9].

O Templo de Kashi Vishwanath, em Varanasi, um dos lugares mais sagrados do hinduísmo
O Templo de Kashi Vishwanath, em Varanasi, um dos lugares mais sagrados do hinduísmo

Jīva: A alma individual

O termo Jīva refere-se ao ser vivo individual, a entidade imbuída de força vital que passa pelo ciclo de reencarnações. Em algumas tradições hindus, Jīva e Ātman são usados como sinônimos. Em outras, faz-se uma distinção: Jīva possui sua personalidade e carma, enquanto Ātman é o Eu universal e imutável que está presente dentro da Jīva.

Essa estrutura permite a existência de um eu pessoal que experimenta o mundo, ao mesmo tempo que abriga uma essência eterna e divina que o conecta a toda a existência.

Alma no Islamismo

O Islamismo apresenta um modelo complexo da alma, utilizando duas palavras principais que descrevem diferentes aspectos do ser interior.

Rūḥ e Nafs: Espírito e Eu

A teologia islâmica utiliza dois termos para a alma: Rūḥ e Nafs. O Rūḥ é frequentemente traduzido como “espírito” e se refere ao sopro divino da vida que Deus infundiu em Adão, a consciência imaterial que conecta o ser humano a Deus.

Já o Nafs é mais próximo do conceito de “eu” ou “psique”, designando a personalidade, o ego e os desejos de um indivíduo [10].

O Alcorão descreve o Nafs em três estados ou tipos: o Nafs que comanda para o mal (ammāra), representando os desejos básicos e a natureza inferior; o Nafs que se culpa (lawwāma), que é a consciência que luta entre o bem e o mal; e o Nafs tranquilo (muṭmaʾinna), que está em paz e submisso a Deus.

O objetivo da vida espiritual muçulmana é disciplinar e purificar o Nafs para que ele alcance este estado de tranquilidade [11].

Os quatro apoiadores (anjos) do trono celestial nas artes islâmicas
Os quatro apoiadores (anjos) do trono celestial nas artes islâmicas

Perspectivas filosóficas e teológicas

Filósofos e teólogos muçulmanos, como Al-Ghazali, desenvolveram ainda mais essas ideias. Eles definiram o ser humano como uma substância espiritual (rūḥ) que usa um “veículo” chamado nafs (psique). O coração (qalb) é visto como o centro dessa batalha interior.

Acredita-se que as inclinações do ser humano são influenciadas por agentes sobrenaturais: os anjos inspiram o bem através do intelecto, enquanto os demônios sussurram tentações para ceder aos desejos do Nafs. O propósito da vida é, portanto, uma jornada de purificação, na qual o ser, com livre-arbítrio, escolhe ascender em direção a Deus ou descer em direção ao materialismo [12].

Alma no Ismailismo

A cosmologia ismaelita, um ramo do Islamismo xiita, é profundamente influenciada pelo Neoplatonismo e Gnosticismo. A alma é vista como uma substância imaterial e pura que pertence ao domínio espiritual, mas que se encontra temporariamente aprisionada no corpo e no mundo material [13].

Ascensão espiritual e o destino da alma

Nos ensinamentos de filósofos ismaelitas como Abu Ya’qub al-Sijistani, a salvação da alma (soteriologia) consiste em um processo de ascensão espiritual. A pessoa deve rejeitar os prazeres sensuais e finitos do corpo em favor da gratificação intelectual e espiritual, buscando o conhecimento das verdades universais.

As pessoas que permanecem apegadas ao mundo material e aos prazeres do corpo estão condenadas a renascer em formas progressivamente inferiores, primeiro como humanos de status menor, depois como animais ou plantas, perdendo cada vez mais a capacidade de buscar a virtude [14].

Neste contexto, o paraíso não é um lugar físico, mas a união da alma com o conhecimento espiritual, enquanto o inferno é a permanência no mundo terreno, distraído pelas forças que nos prendem à matéria [15].

O nome do imame ismaelita, com os nomes de seus ancestrais masculinos diretos em torno dele (Ismaelismo)
O nome do imame ismaelita, com os nomes de seus ancestrais masculinos diretos em torno dele (Ismaelismo)

Alma no Jainismo (Jīva)

No Jainismo, a crença na alma é o fundamento de toda a sua filosofia. Diferente de muitas outras tradições, o Jainismo afirma que todo e qualquer ser vivo, desde um ser humano até uma bactéria ou planta, possui uma essência eterna e individual chamada Jīva.

A natureza eterna e o ciclo cármico

A Jīva é descrita como uma essência imortal, sem começo nem fim, que sobrevive à morte física. Ela é comparada com o Ajīva, que compreende tudo o que não é alma: a matéria, o tempo e o espaço [16].

No seu estado mundano (samsari), a Jīva está presa ao ciclo de renascimentos (saṃsāra), atada a um corpo físico pelas amarras do carma acumulado através de suas ações.

O objetivo final da existência é alcançar a libertação (moksha), purificando a Jīva de todo o carma para que ela possa manifestar seus atributos puros e inerentes de conhecimento, percepção e bem-aventurança infinitos. Uma alma que atinge esse estado é chamada de siddha, uma Jīva libertada [17].

Alma no Judaísmo

As crenças judaicas sobre a alma são complexas, tendo evoluído ao longo do tempo e variado entre diferentes tradições. Vários termos hebraicos são usados para descrever seus diferentes aspectos, como Nefesh (força vital, instintos), Ruach (vento, espírito, emoções) e Neshamah (respiração, intelecto).

Evolução do conceito e a visão da cabala

No pensamento judaico primitivo, não havia uma concepção clara de uma Ruach imortal separada do corpo.

A crença se concentrava na unidade psicofísica do ser. No entanto, com o desenvolvimento da crença em uma vida após a morte e no “mundo vindouro”, a ideia de uma Ruach que sobrevive à morte se tornou predominante [18].

A tradição mística judaica, a Cabala, aprofundou essa visão, propondo um modelo com cinco níveis hierárquicos: Nefesh, Ruach, Neshamah, Chayah (a vida espiritual que contempla a Deus) e Yechidah (a essência mais elevada, unida a Deus).

A Cabala também introduziu o conceito de reencarnação, gilgul, como um meio para purificar-se ao longo de várias vidas [19].

Candelabro e outros elementos do judaísmo
Candelabro e outros elementos do judaísmo

Alma no Xamanismo

As tradições xamânicas, encontradas em culturas indígenas ao redor do mundo, frequentemente se baseiam no conceito de dualismo da alma ou “almas múltiplas”.

Alma do corpo e alma livre

Esta crença sustenta que os seres humanos possuem pelo menos duas almas: uma “do corpo”, que está ligada às funções vitais e à consciência desperta, e uma “livre”, que tem a capacidade de deixar o corpo durante o sono, sonhos, estados de transe ou doença [20].

A jornada desta livre pelo mundo espiritual é um elemento central da prática xamânica, conhecida como “voo da alma” ou “experiência fora do corpo”. A saúde de uma pessoa depende da harmonia entre as suas.

A doença, em muitas dessas tradições, é frequentemente diagnosticada como “perda de alma”, um estado em que a livre se desprendeu do corpo, seja por ter se perdido ou por ter sido roubada por espíritos malignos. O papel do xamã é viajar ao mundo espiritual para encontrar e resgatar essa alma perdida, devolvendo-a ao corpo do paciente para restaurar a saúde e o equilíbrio [21].

Alma no Sikhismo

No Sikhismo, a alma (Ātman) é entendida como uma consciência pura e eterna, uma parte inerente do divino (Paramatman). A jornada desta Ātman através do ciclo de renascimentos é moldada pelo carma, a lei de causa e efeito baseada nas ações do indivíduo.

Carma, Graça e o Caminho para a Libertação

A libertação (mukti) do ciclo de reencarnações é o objetivo final, mas ela não é alcançada apenas por boas ações. O principal obstáculo é o ego (haumai) e o apego aos desejos mundanos, que obscurecem a conexão da Ātman com deus.

O caminho para a libertação envolve uma vida ética de trabalho honesto e serviço comunitário (seva), mas, fundamentalmente, a prática da meditação no nome de Deus (Nam Simran) [23].

Embora o carma determine a trajetória da Ātman, os ensinamentos sikhs enfatizam que a graça divina (nadar) é soberana e pode transcender as limitações cármicas. Em última análise, a união da Ātman com a verdade eterna (Sach Khand) depende da vontade e da graça de Deus [24] [25].

Guru Nanak explicando ensinamentos siques aos sadhus (Sikhismo)
Guru Nanak explicando ensinamentos siques aos sadhus (Sikhismo)

Alma no Taoísmo

O Taoísmo aborda a alma não como uma entidade única e imutável, mas como um conjunto dinâmico de energias espirituais e corporais que espelham o cosmos.

Hun e Po: As Almas Duais

A constituição do ser é tradicionalmente dividida em duas partes: o hun e o po.

O hun é etéreo, associado à consciência, à mente e ao espírito. De natureza yang (leve e ascendente), acredita-se que o hun deixa o corpo após a morte e retorna aos reinos celestiais.

O po, por outro lado, é corpóreo, ligado ao corpo físico, aos instintos e à força vital. De natureza yin (densa e terrena), o po permanece com o corpo após a morte, dissolvendo-se gradualmente de volta à terra [26]. A saúde e o bem-estar de uma pessoa dependem do equilíbrio harmonioso entre essas duas almas.

Harmonia com o Tao

O objetivo da vida no Taoísmo não é a salvação de uma alma individual, mas alcançar a harmonia com o Tao, o princípio universal que governa toda a existência. Textos clássicos como o Zhuangzi ensinam que o eu não está separado do mundo natural: “as dez mil coisas são uma só comigo” [27].

A morte não é vista como um fim, mas como uma transformação (shijie), um retorno à fonte. Como ensina o Daodejing, “Retornar às próprias raízes é conhecido como quietude. É isso que significa retornar ao próprio destino” [28]. A identidade individual se dissolve de volta no fluxo cósmico do Tao, que é a verdadeira imortalidade.


Compreensões da filosofia sobre a alma

A natureza da alma não é apenas uma questão teológica, ela tem sido um dos problemas centrais da filosofia ocidental desde de seu início na Grécia Antiga.

Filósofos, de Platão a Kant, têm debatido sobre a existência da alma, sua composição, sua relação com o corpo e sua imortalidade. Essas discussões oferecem ideias que moldaram a maneira como o Ocidente concebe o eu, a consciência e a própria natureza da realidade.

Essas discussões também moldaram a forma como os não-religiosos compreendem a importância desta essência do ser humano, suas características e natureza em si.

Alma na filosofia Grega Clássica

As fundações do pensamento ocidental sobre a alma foram estabelecidas pelos filósofos gregos, que foram os primeiros a analisá-la através da lente da razão.

Sócrates e Platão: A Alma Eterna e Tripartite

Para Platão, que deu continuidade às ideias de seu mestre Sócrates, a alma (psykhḗ) era a essência imortal e incorpórea de uma pessoa, a verdadeira fonte de sua identidade, razão e moralidade.

Ele propôs uma teoria de que ela é tripartite, composta de três partes: o logos (a razão, localizada na cabeça), o thymos (a emoção ou espírito, no peito) e o eros (os desejos e apetites, no abdômen).

Em uma vida virtuosa, a razão governa as outras duas partes. Platão também defendia a doutrina da reencarnação (metempsicose), acreditando que, após a morte do corpo, a alma eterna renasce em um novo corpo para continuar sua jornada de purificação e busca pelo conhecimento [29].

Aristóteles: A Alma como Forma do Corpo

Aristóteles, discípulo de Platão, divergiu radicalmente de seu mestre. Para ele, a alma não era uma entidade separada presa em um corpo, mas a “forma” ou a “primeira atualidade” de um corpo vivo.

Em outras palavras, ela é o princípio organizador que dá vida e funcionalidade à matéria do corpo, assim como a forma de uma estátua é inseparável de seu material.

Ele propôs uma hierarquia de almas: a nutritiva (plantas), a sensitiva (animais) e a racional (humanos) [30].

Embora Aristóteles considerasse essa essência do ser em grande parte mortal e inseparável do corpo, ele deixou em aberto a possibilidade de que uma parte da razão, o “intelecto ativo”, pudesse ser imortal e eterna, um ponto que gerou séculos de debate [31].

Representação de Aristóteles ensinando Alexandre, o Grande. Gravura de Charles Laplante
Representação de Aristóteles ensinando Alexandre, o Grande. Gravura de Charles Laplante

Alma na filosofia Medieval e Moderna

A filosofia medieval e moderna continuou o debate, frequentemente tentando reconciliar as ideias gregas com a teologia e as novas investigações sobre a consciência.

Avicena e Tomás de Aquino

Na filosofia islâmica, Avicena integrou o pensamento de Aristóteles, mas argumentou fortemente a favor da imortalidade e da natureza substancial da alma.

Ele desenvolveu o famoso experimento mental do “Homem Flutuante” para demonstrar que a autoconsciência existe independentemente de qualquer experiência sensorial ou do próprio corpo [32].

Séculos depois, o teólogo cristão Tomás de Aquino realizou uma síntese monumental do aristotelismo e da doutrina cristã. Aquino via a alma racional como a forma única do corpo, criada por Deus e imortal. Para ele, a alma não é corpórea e, portanto, não pode ser destruída por processos naturais, garantindo sua existência após a morte do corpo [33].

Immanuel Kant: Os Limites da Razão

O filósofo alemão Immanuel Kant mudou radicalmente o debate. Ele argumentou que, embora inevitavelmente pensemos em nós mesmos como tendo uma alma (um “eu” substancial e duradouro), não podemos ter conhecimento metafísico real sobre ela.

Kant afirmava que o conhecimento requer tanto conceitos (pensamento) quanto intuições (experiência sensorial).

Como não temos uma experiência sensorial do “eu” como um objeto, qualquer afirmação sobre sua natureza (se é imaterial, imortal, etc.) vai além dos limites da razão humana.

Para Kant, ela não pode ser provada pela filosofia, embora possa ser aceita como um postulado necessário para a moralidade [34].

Immanuel Kant
Immanuel Kant

Alma na filosofia Contemporânea

Na filosofia contemporânea, especialmente na filosofia da mente, o debate sobre a alma continua sob novos termos, centrando-se na natureza da consciência.

Dualismo mente-corpo e o fisicalismo

A noção tradicional de alma está ligada ao dualismo mente-corpo, a visão de que os fenômenos mentais são fundamentalmente não-físicos.

Os dualistas debatem como a mente (ou alma) e o corpo se relacionam, com teorias como o interacionismo (interagem causalmente), o paralelismo (operam em paralelo sem interagir) e o epifenomenalismo (o corpo causa a mente, mas a mente não tem poder causal) [35].

No entanto, a visão dominante em grande parte da filosofia contemporânea é o fisicalismo, a teoria não-dualista de que tudo o que existe é físico, incluindo a mente.

Nesta perspectiva, a consciência é vista como um produto complexo do cérebro, e o conceito de uma alma imaterial e separada é amplamente rejeitado como desnecessário [36].

A Sepultura por William Blake de 1808
A Sepultura por William Blake de 1808

Etimologia e significado da alma

A compreensão do termo requer um olhar sobre suas raízes hebraica e grega, que moldaram seu uso teológico.

Hebraico: Nephesh (נֶפֶשׁ)

Como explorado, nephesh tem uma gama de significados. A raiz da palavra pode estar relacionada a “garganta” ou “pescoço”, lugares associados à respiração e ao apetite. A partir daí, seu significado se expandiu para incluir:

  • Fôlego de vida: O que anima um corpo.
  • Ser vivente: A pessoa ou animal como uma entidade viva e unificada.
  • Vida: A própria existência física.
  • Desejo, apetite: O centro das emoções e vontades.

Grego: Psychē (ψυχή)

Psychē está relacionada à palavra psychein, que significa “soprar”. Assim como nephesh, seus significados incluem:

  • Sopro, respiração: O sinal de vida.
  • Vida: Tanto no sentido biológico quanto no existencial.
  • O eu interior: O centro da consciência, da vontade, das emoções e da identidade pessoal.
  • A parte imortal: A dimensão do ser humano que sobrevive à morte física e tem um destino eterno.

Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] Pecado. Bible Project.

[Vídeo] Alma. Bible Project.


Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre este termo teológico tão importante para o cristianismo.

Qual é o conceito de alma?

O conceito de alma refere-se a uma entidade imaterial e imortal que habita o corpo, sendo a essência de um ser vivo. É tradicionalmente vista como o centro da consciência, do pensamento, do sentimento e da identidade, sendo um tema central em diversas religiões, filosofias e tradições espirituais.

O que é a alma segundo a Bíblia?

Na Bíblia, a palavra hebraica “nefesh” e a grega “psyché” são traduzidas como alma e referem-se à totalidade de uma pessoa ou ser vivente, e não a uma entidade separada do corpo. Representa a vida, a pessoa em si, com seus desejos, sentimentos e apetites.

Qual é a diferença entre espírito e alma?

Geralmente, a alma está ligada à nossa identidade individual, nossas emoções e pensamentos. Já o espírito é considerado a nossa essência mais profunda, a centelha de vida que nos conecta a uma realidade transcendente ou divina. A alma seria o “eu”, enquanto o espírito seria a conexão com o todo.

Qual é a função da alma?

A alma é frequentemente descrita como a sede da personalidade, integrando mente, emoções e vontade. Ela nos permite ter consciência de nós mesmos, experimentar sentimentos e tomar decisões. Filosoficamente, é o princípio da vida e da individualidade, o que anima o corpo e o torna um ser vivente.


Fontes

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Demais fontes

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[31] Shields, C. (2020). “Aristotle’s Psychology.” The Stanford Encyclopedia of Philosophy.

[32] Avicena. De Anima (O Livro da Alma).

[33] Tomás de Aquino. Suma Teológica, Parte I, Questão 75.

[34] Kant, I. (1781). Crítica da Razão Pura.

[35] Robinson, H. (2023). “Dualism.” The Stanford Encyclopedia of Philosophy.

[36] Stoljar, D. (2021). “Physicalism.” The Stanford Encyclopedia of Philosophy.

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Diego Pereira do Nascimento
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