A Bíblia apresenta Sete como o filho da promessa nascido da tragédia da morte de Abel. Uma semente de esperança plantada por Deus no mundo, após primeiro assassinato da humanidade. Ele foi o terceiro filho de Adão e Eva, gerado após o exílio de Caim na Terra de Node.

Ele marca o início de uma linhagem que decidiu seguir os caminhos do Senhor, em contraste com a linhagem de Caim, marcada pelo distanciamento do Senhor e por uma evolução cada vez maior para o pecado.

Neste artigo apresentamos um pouco sobre sua vida, relevância e legado para a humanidade.

Ouça nosso podcast sobre este personagem bíblico.


Nascimento e família de Sete

Sete nasceu em um mundo pouco habitado, porém extremamente quebrado e marcado pela escuridão do pecado. A primeira família, criada em perfeição por Deus no Jardim do Éden, agora vivia às sombras da Queda, com suas consequências se manifestando da forma mais brutal possível.

Anos antes de seu nascimento, a humanidade sofrera com a expulsão do Jardim do Éden e com o primeiro assassinato, no qual seu irmão Caim matou seu outro irmão Abel. O pecado não apenas existia entre os homens, mas também estava envenenando suas almas.

No meio deste caos e aparente descontinuidade da promessa de Gênesis 3:15 que ele nasce. Sete nasceu como uma chama de esperança para a primeira família humana.

Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar”

Gênesis 3:15 (NVI)

A Bíblia não trás muito mais relatos sobre seu nascimento, ou mesmo sobre sua infância. Apenas que ele foi dado para seus pais como um presente de Deus, após a morte de Abel.

Novamente Adão teve relações com sua mulher, e ela deu à luz outro filho, a quem chamou Sete, dizendo: “Deus me concedeu um filho no lugar de Abel, visto que Caim o matou”. Também a Sete nasceu um filho, a quem deu o nome de Enos.

Nessa época começou-se a invocar o nome do Senhor.

Gênesis 4:25-26 (NVI)
Ícone russo. Linha dos Patriarcas em iconóstase. 1630. Zhdan Dementiev, Vologda. Catedral da Assunção, Monastério de São Cirilo-Belozersky. Museu do Monastério Cirilo Belozersky
Ícone russo. Linha dos Patriarcas em iconóstase. 1630. Zhdan Dementiev, Vologda. Catedral da Assunção, Monastério de São Cirilo-Belozersky. Museu do Monastério Cirilo Belozersky

Adão, pai

Adão foi o primeiro homem a surgir na Terra, ele foi criado à imagem e semelhança de Deus, viveu no Jardim do Éden por tempo indeterminado e convivia de perto com o Senhor.

Deus o deu como esposa Eva, e juntos eles viveram e cultivaram no Jardim do Éden. Devido aos seus erros, juntamente de Eva, ele pecou contra Deus e levou a humanidade a Queda e expulsão do Jardim, levando os homens a viveram as consequência da desobediência e do pecado.

Eva, mãe

Eva foi a primeira mulher a surgir na humanidade, dada a Adão por esposa por Deus. A Bíblia nos relata que ela acabou sendo seduzida pela Serpente, que a levou a comer do fruto proibido, o dando também a seu marido. Isso os levou ao pecado e a expulsão do Jardim do Éden.

Abel, irmão

Abel é descrito na Bíblia como um pastor justo, o adorador cujo sacrifício foi aceito por Deus. A história nos conta que ele teve um fim breve, sendo assassinado por ser irmão Caim devido a uma crise de fúria e ciúmes, por deus ter aceitado o sacrifício de Abel e rejeitado o de Caim.

Caim, irmão

Caim foi o filho mais velho de Adão e Eva, o primeiro ser humano a nascer de forma natural. Ele é apresentando como um homem que lidava com a agricultura.

A Bíblia nos relata que ele matou seu irmão Abel após seu sacrifício ser rejeitado pelo Senhor, enquanto o de Abel foi aceito.

Após este assassinato cruel, ele se mudou para a região de Node e fundou um cidade chamada Enoque, em homenagem a seu filho Enoque.

Nesta cidade ele não só fundou sua própria cidade, como estabeleceu sua linhagem, distante dos caminhos de Deus. Sua família foi marcada pela crueldade e pelo declínio ao pecado. Seus descendentes, como Lameque, cometeram graves pecados.

Lameque e Caim, gravura de 1524 de Lucas van Leyden
Lameque e Caim, gravura de 1524 de Lucas van Leyden

Enos, filho

Enos foi o único filho de Sete registrado na Bíblia, ele é visto com a solidificação da linhagem de Sete. Aquele que deu continuidade a adoração ao Senhor.


As duas linhagens de Adão

A narrativa de Gênesis coloca a descendência de Sete em contraponto direto com a descendência de seu irmão Caim. A linhagem de Caim é descrita como aquele que impulsionaram o progresso cultural e tecnológico do mundo [1], na mesma medida que evoluíram para o declínio do pecado.

Linhagem de Caim

Na descendência de Caim nasceram homens inovadores, os primeiros arquitetos da civilização humana. Eles fundaram a primeira cidade, criaram os primeiros instrumentos musicais (Jubal), inventaram a metalurgia (Tubalcaim) e deram início ao pastoreio nômade (Jabal).

Contudo, esse avanço acontecia distante de Deus e mergulhado no orgulho e na violência. A Bíblia relata que esta linhagem vivia longe dos caminhos do Senhor e era marcada pela violência.

O maior exemplo desta violência na família da Caim, foi seu descendente Lameque, ele foi um homem que se gabava por ter matado um homem e um menino, por motivos aparentemente banais.

Lameque também foi o primeiro homem a praticar a poligamia, se casando com duas mulheres Ada e depois Zilá.

Representação de Lameque e Tubalcaim caçando com flechas
Representação de Lameque e Tubalcaim caçando com flechas

Linhagem de Sete

Por outro lado, sua linhagem é definida por uma única, porém marcante, atividade: invocar o nome do Senhor. Seu legado não foi medido em bronze ou ferro, mas em devoção.

Enquanto Caim construía um nome para si mesmo na terra, os descendentes de Sete buscavam o nome de seu Deus.

Essa dicotomia estabelece um padrão que percorre toda a Bíblia: a tensão entre a Cidade do Homem, que busca a glória própria, e a Cidade de Deus, composta por aqueles que vivem pela fé.

Linhagem de Sete e Linhagem de Caim
Linhagem de Sete e Linhagem de Caim

Sete na história da Redenção

O papel de Sete como descendente de Adão se desdobra na história da Salvação. Foi sua descendência, a linhagem de adoradores, que Deus escolheu preservar do juízo do Dilúvio, enquanto a linhagem de Caim foi apagada [2]. Assim, ele se torna o ancestral de toda a humanidade pós-dilúvio.

O Novo Testamento confirma essa importância. Na genealogia de Jesus em Lucas 3, a linhagem do Messias é traçada até seus primórdios. O versículo final da lista declara que ele era “filho de Adão, filho de Deus” (Lucas 3:38). Esta inclusão não é acidental.


Sete em outras religiões

Embora Sete seja central para a genealogia da redenção na tradição judaico-cristã, sua influência se estende para outras religiões do Oriente Médio. O que demonstra que eles tinham um conhecimento, mesmo que vago, de sua história de Criação.

Diversas religiões do Oriente Médio o integraram em suas próprias cosmologias, atribuindo-lhe papéis que vão de profeta e portador de sabedoria de Deus a figura angelical e ancestral exclusivo de um povo.

Sete no islamismo: O profeta Shith

O Alcorão não menciona Sete (conhecido no árabe como Šīṯ ou Shith) diretamente. No entanto, ele é profundamente reverenciado dentro da tradição islâmica como o terceiro e justo filho de Adão e Hawwa (Eva). Visto como um presente concedido por Alá a Adão após a morte de Abel, Shith assume a posição de segundo profeta do Islã, sucedendo seu pai. [4]

O historiador sunita Ibn Kathir, em sua obra Al-Bidāya wa-n-nihāya (“O Começo e o Fim”), registra que Shith foi encarregado de transmitir a Lei de Deus à humanidade após a morte de Adão, colocando-o entre os exaltados patriarcas antediluvianos. [5]

Certas tradições islâmicas afirmam que Shith foi o receptor de escrituras divinas [6]. Alguns teólogos conectam esses textos às “primeiras escrituras” mencionadas no Alcorão (Surata 87:18).

O historiador medieval al-Tabari relata que Sete enterrou seu pai Adão juntamente com textos secretos na “Caverna dos Tesouros”.

A literatura islâmica sustenta que Shith detinha uma sabedoria singular, incluindo o conhecimento do tempo, a profecia sobre o futuro Grande Dilúvio e a inspiração para métodos de oração noturna.

Assim como no Judaísmo e no Cristianismo, o Islã traça a genealogia de toda a humanidade de volta a Shith, uma vez que a linhagem de Caim teria sido destruída no Dilúvio [7].

O profeta islâmico Shith, suposto Sete, (à direita) ensinando seu filho Anush
O profeta islâmico Shith (à direita) ensinando seu filho Anush

Legado de sabedoria

A sabedoria de Shith é um tema recorrente no Islã. O estudioso sírio do século XI, Al-Mubashshir ibn Fātik, incluiu um capítulo sobre Sete em seu livro de máximas filosóficas [8].

No sufismo, o místico Ibn Arabi dedica um capítulo de sua obra Fusus al-Hikam (“Os Engastes da Sabedoria”) à “Sabedoria da Expiração na Palavra de Sete”, explorando sua dimensão espiritual [9].

Os supostos túmulos de Sete

A diversos locais reivindicados como o túmulo do profeta Shith. Um dos mais conhecidos fica na vila de Al-Nabi Shayth, no Líbano, onde uma mesquita foi construída em sua homenagem.

Outra tradição, registrada por geógrafos medievais, localizava seu túmulo na vila palestina de Bashshit [10].

Outros locais apontados incluem a cidade de Balkh, no Afeganistão, e um túmulo de quase quatro metros de comprimento na mesquita Hazrat Shees Jinnati em Ayodhya, na Índia, uma crença documentada desde o século XVI [11][12].

O suposto túmulo de Seth em Bashshit , atual Israel
O suposto túmulo de Seth em Bashshit , atual Israel

Sete no mandeísmo: O anjo de Shitil

No Mandeísmo, uma antiga religião gnóstica que reverencia João Batista, a figura de Sete é associada a um ser angelical e salvífico chamado Shitil (Šitil).

De acordo com os textos sagrados mandeus, como o Genzā Rabbā e o Livro Mandeu de João, Shitil é um filho de Adão Kadmaya (o Adão Primordial) que, junto com seus irmãos Anush (Enos) e Hibil (Abel), atuou como um revelador da verdadeira gnosis (conhecimento) [13].

As relações de Shitil são complexas nas diferentes tradições; ele é por vezes filho de Adão, irmão de Hibil ou pai de Anush. Independentemente da genealogia, sua função é a de um uthrā, um ser de luz do mundo celestial. Ele é um dos profetas e reveladores do Mandeísmo, identificado explicitamente com o Sete bíblico [14].

Sete no yazidismo: O ancestral Shehid ibn Jerr

No Yazidismo, uma fé sincrética encontrada principalmente entre o povo curdo, Sete é conhecido como Shehid ibn Jerr. Sua história de origem é radicalmente diferente de todas as outras tradições e é central para a identidade yazidi. [15]

De acordo com a literatura oral yazidi, Adão e Eva testaram sua capacidade de procriar de forma independente. Cada um depositou sua semente em uma jarra selada.

Após nove meses, a jarra de Eva foi aberta e continha apenas insetos e vermes. A jarra de Adão, no entanto, continha uma bela criança: Shehid ibn Jerr.

A partir desta narrativa, os yazidis acreditam que descendem unicamente de Adão através de Sete, tendo sido criados de forma separada e distinta de todos os outros seres humanos, que teriam se originado da união de Adão e Eva. [16]

Santuário Yazidi de Mame Reshan, parcialmente destruído pelo Daexe, nas montanhas Sinjar
Santuário Yazidi de Mame Reshan, parcialmente destruído pelo Daexe, nas montanhas Sinjar

Etimologia e significado de Sete

O nome Sete, do hebraico Šēt (שֵׁת) deriva do verbo hebraico šāṯ, que significa “designar”, “colocar” ou “estabelecer” [3].

Como a própria Eva projetou, seu nome significa “designado”. Ele não era simplesmente “outro” filho; ele foi o filho divinamente apontado para cumprir um propósito específico. Seu nome encapsula a soberania e a graça de Deus.


Aprenda mais

[Vídeo] Teológico | Bíblia & Teologia.

[Vídeo] Imagem de Deus. Bible Project.

[Vídeo] A linhagem de Caim e Sete (Gn 4.17-26). Augustus Nicodemus.


Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com as respostas, que as pessoas fazem sobre este importante personagem bíblico.

O que a Bíblia diz sobre Sete?

A Bíblia apresenta Sete como o terceiro filho de Adão e Eva, nascido para substituir o justo Abel. Considerado por sua mãe um presente “designado” por Deus, ele deu continuidade à linhagem piedosa. Em sua descendência, os homens começaram a invocar o nome do Senhor. Ele é ancestral de Noé.

Quem é Sete na Bíblia?

Sete é o terceiro filho de Adão e Eva. Ele nasceu após a morte de Abel. Descrito na genealogia de Cristo.

Quem é a mulher de Sete na Bíblia?

A Bíblia não menciona o nome da esposa de Sete. Gênesis 5:7 apenas registra que ele “gerou filhos e filhas”, o que indica que ele se casou, provavelmente com uma de suas irmãs ou outra parente próxima, como era necessário.


Fontes

[1] Gênesis 4:17-22 (Bíblia Sagrada).

[2] Josefo, Flávio. Antiguidades Judaicas, Livro 1, Capítulo 3.

[3] Koehler, L., & Baumgartner, W. (1994-2000). The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. Leiden; New York: E.J. Brill.

[4] Kathir, I. Al-Bidāya wa-n-nihāya (O Começo e o Fim).

Demais fontes

[5] Tottoli, R. (2013). Biblical Prophets in the Qur’an and Muslim Literature. Routledge, p. 57.

[6] Noegel, S. B., & Wheeler, B. M. (2002). Historical Dictionary of Prophets in Islam and Judaism. Scarecrow Press, p. 302.

[7] Nagendra, K. S. (1988). The Ramayana in Indonesia.

[8] Rosenthal, F. (1963). Das Fortleben der Antike im Islam. Artemis Verlag.

[9] Chittick, W. C. (1980). The Sufi Path of Knowledge: Ibn al-ʻArabi’s Metaphysics of Imagination. State University of New York Press.

[10] Khalidi, W. (1992). All That Remains: The Palestinian Villages Occupied and Depopulated by Israel in 1948. Institute for Palestine Studies, p. 363.

[11] Beveridge, H. (1922). The Akbarnama of Abu’l-Fazl. The Asiatic Society.

[12] Sarkar, J. (1901). India of Aurangzeb.

[13] Drower, E. S. (1960). The Secret Adam: A Study of Nasoraean Gnosis. Oxford University Press.

[14] Buckley, J. J. (2002). The Mandaeans: Ancient Texts and Modern People. Oxford University Press, p. 45.

[15] Kreyenbroek, P. G. (1995). Yezidism—Its Background, Observances and Textual Tradition. E. Mellen Press.

[16] Kreyenbroek, P. G. (2005). God and Sheikh Adi are Perfect: Sacred Poems and Religious Narratives from the Yezidi Tradition. Harrassowitz.

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Diego Pereira do Nascimento
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