O rio Jaboque, também conhecido como rio Zarqa e Nahr ez-Zarqa, é um dos rios que correm pelo território de Gileade e desagua no rio Jordão. Este rio esteve presente em diversos relatos bíblicos do Antigo Testamento, tendo grande importância histórica para Israel e demais povos que se desenvolveram na região.
Hoje o rio se encontra completamente dentro do território do Jordânia, um país do Oriente Médio que fica a leste do rio Jordão.
Neste artigo vamos apresentar a história deste conhecido rio das Escrituras, assim como falar sobre sua geografia, clima e demais características.
História bíblica do rio Jaboque
A história do rio Jaboque remonta a pré-história, assim como em Jericó, a região próxima ao rio possui registros de atividade humana de séculos antes de Cristo.
Esse rio também está presente em diversos relatos bíblicos, se entrelaçando com a história de personagens importantes, como Jacó e o juiz Jefté, além de acompanhar os conflitos territoriais dos povos locais.
História antiga da região do rio Jaboque (7000 a.C.)
Há evidências de assentamento humano nas proximidades rio Jaboque desde 7200 a.C. [1], em uma das cidades mais antigas do mundo.
As escavações arqueológicas de de ʿAin Ghazal, localizada próxima a nascente do rio, revela que em 7 mil a.C. um povo de origem semita se estabeleceu nas terras em volta do rio e formaram uma grande cidade, que rivalizava com Jericó sobre o poder regional do vale do Jordão. [1]
Em seu auge, a população da cidade alcançou a marca de 3000 habitantes, algo bem expressiva para a época, cinco vezes maior que a população de Jericó do mesmo período. [1]

Jacó no vau do Jaboque (2000 a.C.)
A principal história relata na Bíblia envolvendo o rio Jaboque, se encontra em Gênesis 32:22-32.
De acordo com o texto bíblico, Jacó, durante sua viagem de volta para Canaã e viagem de reencontro com seu irmão Esaú, atravessa o rio durante a noite, no local chamado vau de Jaboque. Durante sua travessia, Jacó se encontra com um homem misterioso e luta com ele.
A Bíblia menciona que a lutou durou a noite toda e que pela manhã, o homem misterioso vendo que não poderia escapar, tocou e feriu Jacó na coxa. O homem pede a Jacó para deixa-lo ir, ele, porém, se recusa deixar o homem ir sem abençoa-lo.
O homem misterioso se revela ser o próprio Deus. O Senhor abençoa Jacó e muda seu nome para Israel, que significa “o que lutou contra Deus” [2].
Esta teofania é uma das mais marcantes da Bíblia, e é um dos pouco momentos que vemos o Senhor andando na Terra. Este também é o principal relato envolvendo o rio Jaboque e este vau, um ponto mais raso para realizar a travessia do rio.
Este local onde Jacó/Israel lutou com Deus foi nomeado de Peniel. Depois de anos uma cidade de mesmo foi fundada na região.
Segundo estudiosos, esta luta de Jacó contra o Senhor ocorreu por volta de 2000 a.C., num período em que a região era habitada por pequenos povos de origem cananeia e semita, como os arquitas.

Domínio do povo shasu sobre o rio Jaboque (1600 a.C.)
Por volta de 1600 a.C. a região de Gileade, as terras que estão em volta do rio Jaboque, foi dominada de diversos pequenos povos. Dentre esses, o o povo que mais se destaca e que dominou a região em volta do rio, foi o povo shasu.
Os shasu foram um povo nômade que viveram na região da Transjordânia entre 1640-1550 a.C., que rivalizaram o poder da região com diversos povos locais, dentre eles os amorreus.
Domínio amorreu sobre o rio Jaboque (1550 a.C.)
Com o crescimento do Império Hitita, diversos povos migraram da Mesopotâmia para Canaã e Gileade. Dentre esses povos, estavam os amorreus.
Os amorreus derrotaram e expulsaram os shasu da região entre os anos 1570-1550 a.C. Com a derrota dos shasu, os amorreus dominaram desde a região sul do rio Jaboque, perto do rio Arnom, até o mar da Galileia ao norte.
Ao longo do rio os amorreus criaram e fortificaram diversas cidades e monumentos. Dentre as principais cidades construídas, acredita-se que estão as cidades de Sucote e Peniel. Ambas possuem grande importância dentro da narrativa bíblica, estando presente na história de diversos personagens importantes, como Jacó e Gideão.
O rio passou a ser utilizado para subsistência dos moradores da região.

Conquista israelita do rio Jaboque (1420 a.C.)
De acordo com o texto bíblico, enquanto Israel viajava pela região de Moabe e Gileade, sentido Canaã (Terra Prometida), eles solicitaram uma passagem pacífica pelas terras dos amorreus. Apesar do pedido, o rei Seom de Hesbom se negou a permitir Israel atravessar suas posses e reuniu seu exército para batalha (Nm 21).
Mesmo estando em menor número, Israel lutou e derrotou o poderoso exército amorreu. Com isso os israelitas conquistaram todas as terras de Basã, que compreendiam a parte sul de Gileade, toda região entre o rio Arnom e o rio Jaboque.
Depois de assegurarem a posses dessas terras, Israel seguiu batalha para conquistar o o território norte de Gileade.
Na região norte de Gileade, nas terras de Basã, os israelitas lutaram e derrotaram o rei amorreu Ogue, um gigante que governava sobre a cidade de Basã e dominava toda a região a leste do mar da Galileia.
Com a derrota dos reis amorreus, Israel passou a ter domínio sobre todas as terra a leste do rio Jordão.

Divisão do território
Depois da conquista de Gileade, Israel seguiu para a conquista de Canaã, a Terra Prometida conforme Deus havia instruído.
Após anos de batalha e após conquistarem o domínio de Canaã, Josué reuniu o povo para dividir o território entre as tribos. Durante as divisões das terras, o rio Jaboque foi definido como fronteira entre as tribos de Manassés, ao norte, e a tribo de Gade, ao sul.
Período dos juízes
Durante o período dos juízes, não são registrados grandes eventos na região do rio, assim como nos tempo de Jacó e depois nos tempos de Josué.
Passagem do juiz Gideão pelo rio Jaboque
Na batalha israelita-midianita, quando Gideão julgava Israel. O rio Jaboque foi utilizado como rota de fuga pele exército midianita, que procurava se reestabelecer em Carcor.
Conforme relata o texto bíblico, o exército de Gideão seguiu o exército inimigo e pediu auxílio para as cidades de Sucote e Peniel, cidades edificadas nas proximidades do rio Jaboque. Ambas as cidades se recusaram ajuda e foram destruídas por Gideão após a derrota dos inimigos.
Apesar do exército midianita utilizar o rio como rota de fuga dos israelitas. Gideão os alcançou nas proximidades de Jogbeá e Noba.
Durante a batalha o exército de Gideão capturou os reis inimigos, Zeba e Zalmuna. Com a derrota os midianitas perderam sua influência e domínio regional.

Batalhas do juiz Jefté no rio Jaboque
Anos após o juiz Gideão, durante as batalhas do juiz Jefté, o rio Jaboque é relembrado durante uma discussão entre Jefté e o rei amonita.
Nesta discussão o rei amonita, não nomeado pela Bíblia, acusa Israel de tomar dos amorreus as terras ao sul de Gileade, que compreendem toda as região entre os rios Jordão, Arnom e Jaboque. Entretanto, como lembrado e apontado pelo juiz Jefté, toda a região foi entregue pelo Senhor a Israel após o rei Seom se recusar a permitir passagem pacífica para Israel.
Após a discussão houve uma guerra entre os israelitas e amonitas. Jefté derrotou os inimigos e reconquistou as terras que os amonitas haviam tomada na região do rio Arnom.
Monarquia israelita
Após os relatos do juiz Jefté, não há mais menções bíblicas ao rio Jaboque. Entretanto, sabe-se que a região na qual se encontrava o rio foi tomada por outras nações.
A Bíblia nos relata, que após o assassinato da família do rei Acabe, durante o reinado de Jeú sobre Israel. Deus levantou Hazael, rei de Arã-Damasco, para tomar todas as terras de Gileade dos israelitas, como castigo por terem se afastado do Senhor inúmeras vezes.
Apesar de não descrito no texto, dentre esse território conquistado pelo rei Hazael, se encontrava o rio Jaboque.
“Naqueles dias, o Senhor começou a reduzir o tamanho de Israel. O rei Hazael conquistou todo o território israelita a leste do Jordão, incluindo toda a terra de Gileade. Conquistou desde Aroer, junto ao rio Arnom, passando por Gileade até Basã, terras das tribos de Gade, de Rúben e de Manassés.”
2 Reis 10:32-33 (NVI)
Principais civilizações que viveram nas margens do rio Jaboque
Como já mencionado neste artigo, as rio Jaboque abrigou diversos povos ao longo dos séculos.
O rio foi utilizado para subsistência desses povos, assim como defesa e marcação geográfica para definir as fronteiras das diferentes nações que ali viveram.
Dentre os principais povos da Era Antiga que se estabeleceram nas margens do rio podemos destacar:
- Shasu;
- Amorreus;
- Israelitas;
- Amonitas.

Geografia, localização e outras características do rio Jaboque
O rio Jaboque, conhecido por alguns como rio Zarqa, é um importante rio que corre por dentro do território da Jordânia até o rio Jordão. Durante o período em que Israel dominou sobre Gileade, o rio era utilizado como fronteiras entre as tribos de Manassés e Gade.
Além de marcador geográfico, o rio foi importante para o desenvolvimento das muitas nações/povos que viveram em suas margens ao longo da história.
As terras próximas ao rio são marcadas por um solo fértil e propício para o plantio. Apesar de parte do solo ao seu redor ser rochoso, as regiões no entorno do rio são excelentes para a agricultura, o que foi muito utilizada pelo moradores locais que fundaram diversas cidades em suas encostas.
O rio Jaboque possui um alto volume de água, sendo O segundo maior afluente do rio Jordão. Graças a essas características, a região entre ele o Jordão, é a área mais densamente povoada a leste do rio Jordão [3].
As terras enxarcadas pelo rio, também são ricas em minerais, sendo conhecidas como um dos maiores depósitos de âmbar no planeta, depósitos esses datadas de era Hauteriviana [3].

Nascente do rio Jaboque
A nascente do rio Jaboque fica próxima a Amã, capital da Jordânia, no sítio arqueológico de ‘Ain Ghazal. A partir da nascente, o rio corre pelas montanhas para a região norte de Gileade e depois corta para o oeste sentido o rio Jordão [4].
Da nascente até o desague o rio percorre uma distancia de 105 km, sendo que da nascente até o ponto de desague há uma diferença de 1090 metros de altitude. [4]
Afluentes do rio Jaboque
Próximo a sua nascente, o rio é alimentado por dois pequenos vales, chamados pelos moradores da região de wadis [5]. Esses vales possuem diversos córregos e ribeiros que se juntam ao rio Jaboque e aumentam seu volume.
Desague do rio Jaboque
O rio Jaboque desagua no rio Jordão, em um ponto mais raso de ambos os rios. O local de desague fica próximo a cidade de Damia na Jordânia. Esta região é extremamente fértil e conta com diversas fazendas agrícolas nas proximidades dos rios.
Apesar de ser o encontro de dois rios, o volume da água dos rios no ponto de desague é baixo.

Poluição do rio Jaboque
Um das maiores preocupações recentes das autoridades da Jordânia referente ao rio Jaboque é sua poluição.
O rio corre próximo a diversas cidades da Jordânia, o fato das pessoas despejarem o esgoto nele e jogarem lixo em suas margens, fez com que o volume do rio diminuísse e com que suas águas ficassem cada vez mais poluídas conforme ele corre até o rio Jordão.
Em 2008 os ambientalistas do Ministério do Meio Ambiente da Jordânia se reuniram para discutir métodos de recuperar o rio e despoluir suas águas.
Na ocasião os ambientalistas adotaram um plano de três fases, com um duração total de 15 anos, para a restauração do rio nos trechos próximo de cidades. [6]
Os principais motivadores para restauração do rio são os fazendeiros locais, que desejam aumentar a qualidade do solo para realizarem colheitas mais fartas e saudáveis, livre de impurezas que podem afetar a saúde humana.

Barragem de King Talal
A barragem de King Talal é um hidrelétrica da Jordânia que fica no rio Jaboque, a 30km do capital Amã. Ela foi construída em 1977 e ampliada em 1984. Desempenha um importante papel na geração de energia da região e até no abastecimento de água das cidades próximas da barragem. [7]
Uma das criticas que se há sobre a barragem, está no fato de após sua construção, o volume e nível do rio em seu percurso restante até o desague caiu consideravelmente. Essa queda no volume e nível do rio causa desabastecimento de algumas cidades e atrapalha a irrigação de fazendas locais.

Flora do rio Jaboque
Próximo ao rio Jaboque cresceram florestas de choupo e tamarix, árvores não muito altas que servem de proteção e abrigo para animais locais. Essas florestas estão espalhadas pelas planícies aluviais, e pelas margens do rio.
No geral, as florestas da região são caracterizadas por vegetações rasteiras, com árvores baixas e muitos arbustos.
As águas do rio são bombeadas e utilizadas para irrigação de diversas plantações de vegetais e leguminosas, como repolho, couve-flor, alface e espinafre. [8]
Devido a contaminação do rio nas últimas décadas, diversos compostos químicos nocivos para as florestas são encontrados em suas margens. Isso tem matado as plantas e reduzido o tamanho das florestes, nos ponto mais contaminados.
Fauna do rio Jaboque
Mesmo sendo uma região populoso, a área em volta do rio Jaboque possui uma fauna rica, possuindo mais de 45 espécies diferentes de animais.
Dentre os principais animais da região encontramos muitas cabras e gazelas, alguns que foram domesticados pelos moradores locais.
A barragem de King Talal formou um grande lago perto das cidades de Mastaba e Borma. Ele lago é um habitat para diversas aves migratórias e diferentes espécies de peixes.

Principais atividades econômicas no rio Jaboque
O rio Jaboque tem sido utilizado para subsistência de todos os povos que viveram em suas margens ao longo da história.
O solo fértil encontrada na região tem sido utilizado para o plantio e manutenção das cidades que pelo rio se desenvolveram. Nesta seção apresentamos as principais atividades econômicas desenvolvidas ao longo do rio com o passar dos séculos.
Agricultura no rio Jaboque
As águas do rio Jaboque são utilizadas para a irrigação de plantações, permitindo o cultivo de uma variedade de culturas, como vegetais, frutas e azeitonas, em uma região árida com clima de deserto.
Nos tempos bíblicos, as plantações próximas ao rio garantiam a subsistência de diversas cidades de Gileade, das tribo de Gade e Manassés.
Pecuária do rio Jaboque
Devido a vegetação rasteira encontrada na região, o rio oferece pastagens férteis para gado e rebanhos. O que possibilita a atividade pecuária e garante a alimentação dos moradores locais.
Pesca no rio Jaboque
Além das pecuária e da agricultura, uma das principais atividades desenvolvidas no rio Jaboque tem sido a pesca. A piscicultura garantiu a alimentação dos povos antigos que se estabeleceram nas margens do rio.

Cidades e construções próximas ao rio Jaboque
Diversas cidades e monumentos foram construídos nas proximidades do rio Jaboque. No Antigo Testamento muitas dessas cidades são citadas, sendo palco de conflitos militares e políticos dos povos locais.
Nesta seção apresentamos a principais cidades.
Peniel
Peniel, também conhecido como Penuel, é uma das cidades bíblicas mais conhecidas associadas ao rio Jaboque. Esta cidade e seus arredores esteve presente nos relatos de Jacó, durante sua luta com o Senhor, e posteriormente nos relatos do juiz Gideão, quando este e seu exército perseguiam o remanescente do exército midianita.

Maanaim
Maanaim é outra cidade próxima ao rio presente em relatos bíblicos. A principal menção a cidade se encontra em Gênesis 32:1-2, quando Jacó se encontra se encontra com anjos do Senhor durante sua viagem para Canaã.
“Jacó também seguiu o seu caminho, e anjos de Deus vieram ao encontro dele. Quando Jacó os avistou, disse: ― Este é o acampamento de Deus! Por isso, deu àquele lugar o nome de Maanaim.” – Gênesis 32:1-2 (NVI)
Sucote
Sucote é um das principais cidades nas proximidades do rio Jaboque e do rio Jordão. Esta cidade esteve presente em diversos relatos bíblicos do Antigo Testamento, sendo as principais durante a viagem de Jacó para Canaã e durante as batalha dos israelitas com os midianitas, no tempo do juiz Gideão.
Após Jacó se encontrar e se reconciliar com seu irmão Esaú, ele seguiu viagem para Sucote. Na cidade ele construiu uma pequena casa, onde passou alguns anos com sua família.
Durante as batalhas dos israelitas contra os midianitas, Gideão buscou auxílio na cidade para suas tropas. Os moradores de Sucote recusaram o auxílio e posteriormente foram penalizados por sua recusa.

Significado do nome “Jaboque”
O nome “Jaboque” tem sua origem no hebraico e significa “local de passagem” ou simplesmente “passagem”/”travessia”. [9]
Aprenda mais
[Vídeo] Val de Jaboque e Montanhas de Gileade. Jordânia Terra Santa.
[Livro] Geografia Bíblica. Claudionor de Andrade.
[Livro] Geografia da terra santa e das terras bíblicas. Enéas Tognini.
[Livro] O Israel Bíblico: História – Arqueologia – Geografia. Melanie Peetz.
[Livro] Atlas Ilustrado da Bíblia. André Daniel Reinke.
Fontes
[1] Feldman, Keffie. “Architecture, Body and Performance: Ain-Ghazal (Jordan) Pre-pottery Neolithic B Period pit of lime plaster human figures”. proteus.brown.edu.
[2] Significado do nome Israel. Dicionário de nomes próprios.
[3] Rio Zarqa. Wikipedia.
[4] C. C. Held – J. T. Cummings, Middle East Patterns: Places, Peoples and Politics (2014) p.353.
[5] Rollefson, Gary O, Ain Ghazal: An Early Neolithic Community in Highland Jordan, near Amman, Bulletin of the American Schools of Oriental Research, No. 255 (Summer, 1984)
[6] Roteiro para a Restauração do Rio Zarqa. International Union for Conservation of Nature.
[7] Rami George Khouri: The Jordan Valley – Life and Society below Sea Level, Longman, London and New York, 1981, p. 145.
[9] Jaboque significado. Significados de Palavras.