A Lei do Levirato, descrita em Deuteronômio 25:5-10, foi prática do Antigo Israel que visava garantir a continuidade da linhagem familiar e a preservação do nome e da herança de um homem falecido.

Essa lei determinava que, caso um homem morresse sem deixar filhos, seu irmão deveria se casar com a viúva para gerar um herdeiro que perpetuasse o nome e a linhagem do falecido. O primeiro filho dessa união seria considerado, legalmente, descendente do homem morto, garantindo a continuidade de sua família e herança.

Neste artigo apresentamos a base bíblica para esta lei, alguns exemplos e sua aplicação no Antigo Israel.

Ouça nosso podcast sobre este termo teológico.


Contexto histórico e social do Antigo Israel

No Antigo Israel a família era a base estrutural de toda sociedade, e a continuidade da linhagem era tido como essencial para manter a identidade de seu povo, a herança das família e estabilidade econômica.

Neste contexto, a lei do levirato possuía dois propósito essenciais:

  • Preservação da linhagem e sua herança;
  • Proteção da viúva.

Preservação da linhagem

Esta lei assegurava que o nome do falecido não seria extinto e, principalmente, que suas propriedades permaneceriam para sua família e tribo, conforme a divisão das terras prometidas por Deus às tribos de Israel (Nm 26:52-56).

Disse ainda o Senhor a Moisés:

“A terra será repartida entre eles como herança, de acordo com o número dos nomes alistados. A um clã maior dê uma herança maior, e a um clã menor, uma herança menor; cada um receberá a sua herança de acordo com o seu número de recenseados.

A terra, porém, será distribuída por sorteio. Cada um herdará sua parte de acordo com o nome da tribo de seus antepassados. Cada herança será distribuída por sorteio entre os clãs maiores e entre os clãs menores”.

O Segundo Recenseamento dos Levitas

Números 26:52-56 (NVI)

Proteção da viúva

No passado, assim como em alguns contextos contemporâneos, as viúvas sem filhos ficavam vulneráveis e desprotegidas, frequentemente enfrentavam a pobreza e a exclusão social. Com isto, as viúvas se sujeitavam a trabalhos degradantes, em alguns casos a escravidão, e a prostituição.

O casamento com o cunhado oferecia a esta viúva um sustento e segurança.


Rute e a lei do levirato

Um exemplo marcante da aplicação da Lei do Levirato, embora em uma forma adaptada, é encontrado no livro de Rute.

Boaz, um parente próximo de Elimeleque, assume o papel de “redentor” ao se casar com Rute, a viúva de um dos filhos de Noemi.

Essa união restaura a herança familiar e garante a continuidade da linhagem, resultando no nascimento de Obede, avô do rei Davi e, consequentemente, parte da linhagem de Jesus Cristo (Mateus 1:5-16).

A narrativa ilustra não apenas a aplicação prática da lei, mas também a providência divina, que usa esses costumes para cumprir Seus propósitos redentores.

Rute no campo de Boaz por Julius Schnorr von Carolsfeld (1828).. Lei do levirato
Rute no campo de Boaz por Julius Schnorr von Carolsfeld (1828)

Lei do levirato em outros povos e religiões

Além do judeus, diversos povos ao redor do mundo estabeleceram leis similares ao levirato judeu. Nesta seção apresentamos alguns desses povos e suas visões acerca desta lei.

Islamismo

No islamismo, a lei da sharia permite o casamento levirato, no qual um homem pode se casar com a viúva de seu irmão, desde que o casamento seja tratado como qualquer outro, com o consentimento da mulher e o pagamento de um mahr (dote) adicional. [1]

O Alcorão, em al-Nisa 4:19, destaca a importância de tratar as mulheres com bondade e proíbe forçá-las a casar ou privá-las de seus direitos.

Embora não seja uma prática central no Islã, o levirato é considerado permitido (halal) e, em alguns casos, até recomendado (mustahabb) por estudiosos, dependendo das circunstâncias. [2]

Os quatro apoiadores (anjos) do trono celestial nas artes islâmicas
Os quatro apoiadores (anjos) do trono celestial nas artes islâmicas

Ásia Central e Xiongnu

Entre os hunos do Cáucaso, até o século VII, o levirato era comum, especialmente entre a tribo Savir. Apesar de serem geralmente monogâmicos, um homem podia tomar a viúva de seu irmão como esposa em um arranjo poligâmico. [3]

As viúvas, que tinham alto status social, podiam escolher se queriam se casar novamente, muitas vezes com um irmão ou filho do falecido, sem que a diferença de idade fosse um impedimento. [3]

Segundo a historiadora Ludmila Gmyrya, o costume persistiu em algumas regiões até os anos 1950. Os húngaros também praticavam o levirato, como no caso de Koppány, que tentou se casar com Sarolt, viúva de seu parente, seguindo tradições pagãs. [4]

Índia

Na Índia, o levirato tem raízes históricas, como no épico Mahabharata, onde Draupadi se casou com os cinco irmãos Pandava, uma prática controversa, mas aceita na época. [5]

Até 2017, o Exército Indiano limitava benefícios financeiros a viúvas de soldados condecorados, a menos que se casassem com o irmão do falecido. Essa regra foi abolida, permitindo que as viúvas se casassem com outros sem perder os benefícios. [5]

Indonésia

Na Sumatra do Norte, o povo Karo segue o adat (lei consuetudinária), que permite a poligamia, incluindo o levirato, conhecido como turun ranjang (“sair da cama”). Um caso registrado na vila de Kutagamber, na década de 1960, mostra uma viúva que se casou com o irmão de seu falecido marido. [6]

Japão

Durante o período Meiji, no Japão, o levirato, chamado aniyome ni naosu, era praticado, permitindo que um homem se casasse com a viúva de seu irmão mais velho para manter os laços familiares. [7]

Curdos

Entre os curdos, especialmente em Mardin, na Turquia, o levirato é comum. Uma viúva, principalmente com filhos pequenos, é incentivada a se casar com o irmão do falecido para manter a unidade familiar. O casamento sororato, em que um homem casa com a irmã de sua esposa falecida, também é praticado para garantir o bem-estar dos filhos e a herança familiar. [8]

Quirguistão

O povo quirguiz pratica o levirato, no qual uma viúva, especialmente com filhos, casa-se com um irmão do falecido. Isso assegura a continuidade da linhagem familiar e o suporte à viúva e seus filhos. [9]

Coreia

No reino de Goguryeo, o levirato era comum, como no caso do rei Sansang, que se casou com a viúva de seu irmão Gogukcheon, reforçando alianças e a linhagem real. [10]

Manchu

Entre os manchus, o levirato é exemplificado pelo caso da princesa Uisun, que, após a morte de seu marido Dorgon, casou-se com seu sobrinho, mantendo os laços familiares na dinastia Jin Posterior. [11]

República Centro-Africana

O povo Goula, no norte da República Centro-Africana, pratica frequentemente o levirato, no qual a viúva se casa com o irmão do falecido para preservar a coesão familiar. [12]

Camarões

Entre os Mambila, no norte de Camarões, tanto o levirato quanto o sororato são praticados, garantindo a continuidade familiar e o apoio às viúvas e seus filhos. [13]

Quênia

No Quênia, o levirato é comum entre os povos Maragoli e Luo, onde as viúvas geralmente se casam com o irmão do falecido. Entre os Nandi, é costume que a viúva seja “tomada” pelo irmão do marido, e relações com homens fora da família são consideradas adultério sob a lei consuetudinária. [14] [15]

Nigéria

Entre os iorubás, igbos e hauçás-fulanis, o levirato é tradicional, especialmente entre os igbos, onde um irmão ou filho do falecido pode herdar a viúva como esposa. Isso preserva a identidade familiar e a herança, embora a prática seja menos comum hoje. [16]

Somália

Na Somália, o levirato, conhecido como Dumaal, é praticado sob a lei consuetudinária Xeer, com regras para o preço da noiva (yarad). As viúvas têm liberdade de escolha. Desde a Guerra Civil Somali, o costume diminuiu devido a interpretações islâmicas mais rígidas. [17]

Sudão do Sul

Entre os povos nilóticos Dinka e Nuer, o levirato é amplamente praticado. Há também o “casamento fantasma”, em que um irmão substitui um noivo falecido, e os filhos são considerados do falecido, garantindo a continuidade da linhagem. [18]

Zimbábue

Entre os Shona, o levirato é praticado com regras para o preço da noiva (roora). As viúvas têm direito de escolha. Nas últimas décadas, a prática diminuiu devido à urbanização e ao aumento da alfabetização feminina.


Significado de levirato

O termo “Levirato” vem do latim levir, que significa “cunhado”. A palavra aponta diretamente para o papel central do irmão do falecido na prática.


Aprenda mais

[Vídeo] LEVIRATO: A mulher que perdia o marido era obrigada a casar com o cunhado? André Sanchez – Esboçando Ideias.


Perguntas comuns

Nesta seção apresentamos as principais perguntas, com suas respectivas respostas, acerca deste termo teológico.

O que é o levirato?

O levirato, previsto no direito hebraico e no Antigo Testamento, ocorre quando um homem morre sem filhos, deixando a terra sem herdeiros, criando uma situação de risco.

O que significa levirato e sororato?

Sororato, costume curdo semelhante ao levirato, ocorre quando um homem perde a esposa sem filhos ou com filhos pequenos, e sua linhagem oferece outra esposa, geralmente uma irmã mais nova, com preço de noiva menor.


Fontes

[1]  “Surah An-Nisa – 19”. Quran.com.

[2] Press, The Associated (2021-12-03). “Taliban Decree an End to Forced Marriages in Afghanistan”. The New York Times

[3] Gmyrya L. Hun Country At The Caspian Gate, Dagestan, Makhachkala 1995, p.212 (no ISBN, but the book is available in US libraries, Russian title Strana Gunnov u Kaspiyskix vorot, Dagestan, Makhachkala, 1995).

Demais fontes

[4] Kristó, Gyula (2001). “The Life of King Stephen the Saint”. In Zsoldos, Attila (ed.). Saint Stephen and His Country: A Newborn Kingdom in Central Europe – Hungary. Lucidus Kiadó. pp. 15–36.

[5] “Army widow need not marry brother-in-law for pension”. Deccan Chronicle. 22 November 2017.

[6] Masri Singarimbun, Kutagamber: A village of the Karo.

[7] Yamanaka, Einosuke (1957). “Levirate Marriage of Meiji Era in Japan”. Legal History Review1957 (7): 112–130, en4.

[8] (in Turkish) the reasons for traditional marriages in Turkey and the effects of custom on marriages; Tuğçe P. Taçoğlu.

[9]  Afghanistan — Ethnicity and Tribe.

[10] Pae-yong Yi, 《Women in Korean History 한국 역사 속의 여성들》, Ewha Womans University Press, 2008.

[11] Veritable Records of Shunzhi: “初,朝鮮國王族女,為和碩端重親王博洛妃。王薨,妃寡居。其父錦林君李愷允入充貢使,於賜宴日泣請其女還國,部臣以聞,下議政王貝勒會議,許之。”

[12] UNICEF Mendiguren (September 2012). Etude anthropologique de l’organisation sociale et politique des communautés en Centrafrique et des organisations à assise communautaire.

[13]  “D. A. Percival 1 xi 35, Notes on Dr Meek’s Report on “Mambila Tribe” (page numbers refer to K. C. Meek : Tribal Studies, 1929, Vol. 1), Pp542-3″.

[14] Valsiner, Jaan (February 2, 2000). Culture and Human Development. SAGE

[15] Potash, Betty (February 1, 1986). Widows in African Societies: Choices and Constraints.

[16] “UNHCR Web Archive”. webarchive.archive.unhcr.org.

[17] Anderson, James Norman Dalrymple (1970). Islamic Law in Africa. Psychology Press.

[18] “Marriage Rules: Part II Unusual Marriage Arrangements”. June 29, 2006. Retrieved 11 December 2011.

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Diego Pereira do Nascimento
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